Malévola

Por Matheus Araujo

Alice no País das Maravilhas de Tim Burton, ao faturar mais de um bilhão de dólares em 2010, abriu os olhos de Hollywood para o potencial de um novo mercado de filmes. De lá pra cá, não foram raros os dias da repaginação dos antigos contos de fada em live-action. No entanto, a própria Disney não se aproveitou da tendência criada. Até o momento.

O novo filme dos estúdios de Walt, encabeçado por Angelina Jolie, surge com a proposta de contar o outro lado da história clássica d’A Bela Adormecida. Uma tentativa de justificar as ações da carismática vilã; uma ambição de transformar uma personagem de nome Malévola num ser tridimensional.

A divulgação do filme propõe um aprofundamento no subtexto, ou seja, aproveita-se das entrelinhas do clássico Disney para se desenvolver. Todavia, esta percepção se estende, com certas dúvidas, até cerca da metade da narrativa, quando há sua quebra com a versão de 1959 numa das mais icônicas cenas dessa história, aparentemente, desassociando suas idéias.

 No entanto, é preciso ressaltar que o apresentado respeita o clássico e justifica-se com boas idéias, mesmo que de execução não à altura. Entre esses momentos, lembro da construção da maldade no personagem, seja no estopim de sua corrupção, seja na adoção de um cajado e novas asas. Aliás, este corvo venceu o meu preconceito. E apesar de todas as modificações, considero desrespeitoso ao original somente os comentários finais da narradora.

Já quanto à virada do filme, que dava suas pistas pelo comportamento controverso do Rei Stefan (irritantemente interpretado por Sharlto Copley e seu sotaque), sente-se a falta de uma crescente e um clímax que rivalize com o de 59, apesar da considerável melhora no ritmo em relação à primeira parte.

No entanto, seja em seu subtexto ou ruptura, notam-se alguns vários problemas.  A má direção de Robert Stromberg é uma constante em sua “contação” da história, que se salva vez ou outra pela fotografia, inspiradíssima em Alice, mas com particularidades que criam sua individualidade e conseguem se atrelar ao visual do Clássico Disney.

(Uma curiosidade sobre o diretor: Malévola é seu filme de estréia, contudo, como diretor de fotografia, ele possui duas estatuetas do Oscar na estante, por Avatar e Alice, sendo que facilmente se percebe traços desses dois na obra em discussão.)

imagem fotografia exemplo

Ainda sobre a fotografia, aproveito para NÃO recomendar o 3D, que segue a regra de filmes escuros não funcionarem no formato.

Voltando à direção propriamente dita, outro triste elemento é a estrutura condicionada à versão anterior. Por mais que busque suas liberdades, que em sua maioria causam confusão e estranheza no espectador, o novo filme não vence a previsibilidade. Sem falar da “barriga”, a curta duração de 97 minutos caberia mais que tranquilamente nos 75 min. do original.

Mas nem só de erros é feito o trabalho de Stromberg, que consegue conservar uma atmosfera Disney. Há aquela leveza e simplicidade. Esse certo “clima” é muito auxiliado pela trilha sonora que conserva elementos da original, sem se privar de algo novo. O resultado não é espetacular ou marcante como o do clássico, mas satisfaz.

O roteiro também segue simples à la qualquer filme do estúdio, mas possui alguns probleminhas, em geral, nada preocupantes à criança. Para os “maiorzinhos”: certas situações; a falta de desenvolvimento de qualquer personagem além da principal; e diálogos desnecessariamente explicativos – poderão ser fonte de irritação.

As atuações, com exceção de Jolie, são irrelevantes e chega a ser até ultrajante a falta de carisma das novas fadas madrinhas. Como dito, só a protagonista está realmente bem. Jolie dedica-se a reproduzir as características da personagem e convence quando mais desafiada em cena, principalmente nas tentativas de humanização, ora por drama, ora por comédia. Fisicamente, a atriz se assemelha a versão de 59, mas há ligeiras alterações no design de Malévola. Quanto à essas mudanças, apesar dos chifres um pouco plásticos e asas não muito coesas em suas formas e cores, a brincadeira com os tons da magia e olhos é ótima.

vivienne-jolie-pitt-600

Além da humanização, a contemporização iniciada pelo estúdio em Encantada (talvez em A Bela e a Fera) perpetua; é coerente com a proposta; e agrada. Agora que os estereótipos do príncipe, princesa, amor verdadeiro, entre outros já foram quebrados (na Disney), ansiosamente espero que a máxima do “Feliz para Sempre” também.

Nota: 5,5/ 10.

PS: Pessoalmente, gostaria que a canção “Once Upon a Dream”, presente nos créditos, entrasse de fato no filme e caracterizasse a ruptura com o clássico.

Ouça-a: https://www.youtube.com/watch?v=8waJ7W3QcJc

E leia aqui a pocket-view do clássico: A Bela Adormecida.

Anúncios

18 comentários sobre “Malévola

  1. Ok, descordo em gênero, número e grau. Este filme me surpreendeu de várias formas, com um belo visual e com uma história que quebra e não quebra com A Bela Adormecida da Disney. Claro, tiveram erros, a execução das explicações, para mim, foram falhas, mas a surpresa foi muitíssimo maior e melhor que os erros. Não acredito que há críticas em relação ao “príncipe encantado” já que este continua com seu papel de “homem que acabo de conhecer e me apaixono”, mas o amor de mãe ser o único amor verdadeiro foi algo pelo qual torci e, felizmente, aconteceu.
    Nota: 7,5/10

  2. Tolo fui eu, que sabia que não deveria esperar pelo filme, mas criei expectativa, por motivos: Malévola minha vilã preferida da Disney, e ao contrário de muitos comentários que eu vi por aí, a Lana del Rey cantando deu uma ajudada no hype, gosto da versão dela, e também lamento não ter tocado durante o filme.

    Sobre ele, serei breve: concordo com quase tudo, e gostei menos um pouco do filme. Não aceitei sua proposta, a partir do momento que eu, novamente um tolo, não estava disposto a não ter o original em mente, o que prejudicou totalmente minha experiência com a obra.

    Acrescento, por último, uma birra sem sentido: as bochecas da Angelina. Meio anguladas, meio afundadas, fiquei reparando nisso o filme todo, e não conseguia achar normal.

    5/10

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s