Como Treinar o Seu Dragão

O Clássico Moderno dos Trabalhadores dos Sonhos.

Por Matheus Araujo

Poucos sabem, mas o filme da DreamWorks, Como treinar o seu Dragão, é uma adaptação. Suas raízes são literárias e encontram-se sete anos antes do lançamento no cinema, num pequeno e simpático romance traduzido do antigo norueguês por Cressida Cowell.

01
“Sim… Muitos! E esta coleção nem está completa.”

Por isso, dessa vez vou resenhar duas categorias de uma vez só, cinema e literatura.

Primeiramente, a distância entre as duas obras é tão grande que as comparações são extremamente complicadas. Elas percorrem caminhos diferentes, utilizando ferramentas distintas para isso, mesmo que ao final alcancem o “mesmo” objetivo. O que em si é impressionante, tendo em vista a grande reconstrução para o cinema, que passa por enredo, cernes e essências de personagens deturpadas, inserções e ausências, etc.

Pra começar… O livro consiste em um relato de Soluço em terceira pessoa. WTF? Pois é. E quem é Soluço? Ele é um garoto viking peculiar. A começar por ser o futuro chefe dos normandos, já que é filho de Stoico, o Imenso, Aquele Cujo Nome Faz Tremer, chefe da tribo dos Hooligans Cabeludos. Soma-se a isso o fato que o garoto é um franzino nerd, o oposto não só de seu bruto pai, mas de praticamente todo e qualquer viking. Sua grande paixão é estudar dragões, uma prática condenada socialmente e agravada por sua habilidade secreta (ainda mais execrável) de falar com as criaturas. O conflito de Soluço é, além dos internos, basicamente treinar o seu dragão (o menor dragão comum ou de jardim já visto, além de ser banguela), já que em Berk, esta prática separa um verdadeiro cidadão – um herói – de um exilado.

A proposta em si não é impressionante, sendo a sua exposição o que o diferencia das demais.

How-To-Train-Your-Dragon-Gerard-Butler
“Na versão original, Stoico, o Imenso, …, é dublado por Gerard Butler (o rei Leônidas de 300).”

Já o filme, como provavelmente sabem, é um tanto quanto diferente.

Soluço ainda faz parte da ilha de Berk. É franzino, mas não é nerd (isso é desenvolvido em outro personagem também completamente diferente dos livros) e sua paixão pelos dragões se desenvolve ao longo da história. No entanto, esses são pequenos deslizes na adaptação. TOTALMENTE conflitante com o seu “eu” no livro, Soluço no filme almeja ser um herói! O que funciona, embora, novamente, não seja uma linha fiel ao livro.

Outra discrepância imensa é a relação com os dragões, da qual surge toda a trama do filme. Na adaptação, eles são descritos como pragas e o primeiro treinador de dragões na história de Berk é Soluço. Além disso, seu dragão não é apenas um dragão… Pela DreamWorks, ele é o lendário Fúria da Noite! (Confesso que o design desse dragão sempre me incomodou, mas nessa última vez que assisti consegui gostar bastante dele)

Como dito anteriormente, o livro não possui um enredo grandioso, se limitando realmente ao que diz o título, o que não é ruim, já que o desenvolvimento do personagem e sua relação bastante complicada com o dragão são excelentes de acompanhar.

Todavia, a forma com que Soluço relata sua história (EM TERCEIRA PESSOA!) de “zero to hero” é o grande trunfo da narrativa. É leve, extremamente divertido, repleto de ilustrações (horrorosas, já que foram feitas por ele), engraçado, sujo (vikings…), além de possuir adendos geniais, como: livros; fichas técnicas dos dragões; etc. E, de certa forma, ele é um pouco mais violento que o filme. Sangue esguicha, seres são desossados, desmembrados, dilacerados… – um dia qualquer na vida de um viking, sabe?

Primeira página do livro

Enfim, é infantil, ao mesmo tempo em que caracteriza muito bem os broncos sanguinários que os vikings foram, além de oferecer um pedacinho de História e uma pitada de mitologia nórdica, o que, sim, é extremamente válido na educação da criança.

Já o filme, assinado por autores que possuem em seu currículo O Rei Leão (!), Aladin, Mulan e Lilo & Stitch, possui um enredo com uma grandiosidade infinitas vezes maior do que o do livro, já que não estamos tratando de Soluço, o Inútil, e seu dragão ordinário, mas do aspirante a herói e do incomparável Fúria da Noite, a dupla que mudaria a história dos vikings.

O roteiro, além de conciso, possui um balanço perfeito entre o que foi pensado em relação à bilheteria e à qualidade artística em si. O filme é um festival de diversão extremamente comercial, ao mesmo tempo em que possui suas mensagens – a boa e velha moral, mas não de uma forma piegas e gratuita – extremamente claras.

How to Train Your Dragon movie image

Já na exposição da história, uma triste constatação é: o filme “envelheceu” mal. Mesmo com uma bela fotografia (que feliz digo que me lembra Coração Valente), há cenas e cenas em que a sensação de defasamento tecnológico é grande. Principalmente quando comparado ao Valente, que embora distantes em história, ainda retratam em comum, ilhas do gelado Velho Continente e seu misticismo. Entretanto, o charme da animação com seus normandos e dragões ainda vence o tempo, proporcionando ao espectador uma experiência completa, afinal é auxiliado por uma tremenda e infalível companheira, a trilha sonora.

A trilha sonora é impecável. Sabe o que é se arrepiar e arrepiar e arrepiar?! John Powell, o cara das animações (exceção Pixar) inclusive recebeu sua única indicação ao Oscar por este trabalho.

No fim, ambas as obras possuem qualidades ímpares e seus defeitos, e por serem diferentes, até se completam. Talvez, o filme devesse ser um pouco mais ordinário e, talvez, falte ao livro certa grandeza. Talvez, o cinema não tenha carisma e personalidade tão fortes e, talvez, o livro careça de certos agravantes, consequências e dramas refinados só vistos na versão cinematográfica.

Experimentar tanto o livro quanto o filme é extremamente recomendado por este que é um dos mais ávidos fãs da série.

Nota: 8,5/ 10. (para a dupla)

Obs. filme: Quanto às continuações, agora com um mundo mais semelhante (auxiliado inclusive pela série), é quase certo que cresçam na fidelidade.

Obs. livro: Este é, provavelmente, o livro com a maior quantidade de gritos já feito –Vikings…

Anúncios

7 comentários sobre “Como Treinar o Seu Dragão

  1. Olá, primeiramente, tenho que confessar que sou mais fã dos livros do que do filme. Conheci as obras literárias um bom tempo depois da estreia do filme e me apaixonei pela narrativa cativante de Cressida (Soluço). Porém, sou completamente apaixonada pelo filme e, é claro, pela maravilhosa trilha sonora.
    Adorei o post. Abraços,

    Jacke Helen
    http://colecaodenuvens.blogspot.com.br/

    1. Gosto muito das duas versões, principalmente das diferenças entre elas! Realmente não consigo escolher uma preferida.

      Sobre a Coleção de Nuvens, depois de conferir as suas resenhas, confesso que ainda não tive a oportunidade de ler os demais livros… Mas devo mudar isso logo, logo. Com tantas nuvens para cada um, Cressida (Soluço) não pode ter errado a mão!

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s