[REVIEW] Fargo

“Ah, jeez. Temos uma das melhores séries do ano!”

 

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Eu não sou fã de séries. Não me leve a mal, nada contra o formato ou o produto. Existe uma barreira (quase) instransponível entre mim e a maioria das séries por aí. Barreira que não tenho com livros, HQs ou filmes. Acho que o nome dessa barreira chama “preguiça”.

Pensando nisso, resolvi mudar este cenário este ano, e tentar ver mais séries. Mas afinal de contas: começar por qual? Alguma das já consagradas, e que já terminaram? As mais recentes? Alguma antiga, mas que tem episódios novos até hoje? Alguma nova que todos comentam? Ou uma nova ‘underground’?

Fargo talvez se encaixe na última categoria (o frissom que vi dela nas redes sociais brasileiras foi praticamente nulo). Entretanto, não foi uma escolha a esmo. Após ver o filme que deu origem a série, o clássico de 1996 feito pelos irmãos Cohen, lembrei, por acaso, que havia lido em algum lugar sobre uma série vinculada ao filme. Uma pesquisa na Internet revelou que o episódio inicial (de uma minissérie de 10 episódios) havia sido lançado, coincidentemente, na semana em que vi o filme. Aproveitando o embalo, conferi esse episódio e… WOW!

Não sei mensurar o quão herege é dizer que gostei mais da série do que do filme… Mas é isso aí!

fargo 2

A comparação entre os dois produtos é quase inevitável. Temi que a série fosse apenas uma cópia ‘barata’, uma sombra do original, e que não faria jus ao sucesso cult que o filme possui. Felizmente, apesar das semelhanças, das homenagens e das referências, a série vai além.

No início, somos apresentados a alguns dos cidadãos da pequena cidade de Bemidji, no interior de Minessota, durante o inverno (semelhante ao que acontece no filme). Lester (Martin Freeman) não passa por um momento fácil de sua vida pessoal, e após ter o nariz machucado pelo antigo bullying da escola, Sam Hess (Kevin O’Groady), encontra Lorne Malvo (Billy Bob Thorton), um peculiar assassino, no hospital. Malvo mata Hess por Lester (sem que esse tenha, de fato, pedido), e esta ligação entre os dois gera mais mortes ainda no primeiro episódio. A onda de assassinatos põe a determinada policial Molly (Allisson Tollman) e o atrapalhado policial Grimly (Colin Hanks) em uma investigação recheada de suspeitos, coincidências e reviravoltas.

Se a princípio, a ideia de que os irmãos Cohen só se relacionam com o projeto como produtores executivos pode desanimar alguns, o produtor e roteirista da série, Noah Howley, conseguiu replicar o sucesso que transformou o filme de 96 em um clássico imediato. A mistura de um drama sombrio e pesado com um estilo de comédia único transforma toda a jornada de Fargo em uma montanha russa de emoções, do suspense ao riso em questões de segundos.

E o roteiro de Howley é um dos pontos altos da minissérie. As pontas deixadas no primeiro capítulo deixam o telespectador curioso e o desenvolvimento da trama é excelente. Os episódios tem um ritmo acertado, o suspense é constante, e os principais personagens tem um background sólido. A primeira metade está mais focada na construção dos personagens, na situação e na base na qual a série se sustenta, enquanto a segunda tem maior espaço para a ação, também bem executada e criando um balanço ideal nos “finalmente”. Além disso, o desenvolvimento dos personagens, sobretudo o de Lester, é algo que dá gosto de acompanhar. Ao longo dos 10 episódios, ele se transforma de um tímido e desajeitado marido, para um assassino covarde e cruel, movido totalmente pelo ego.

fargo2

Mais do que isso: apesar de sua transformação, evidenciada em cada episódio (principalmente na segunda metade da série), é muito difícil você odiar ou não gostar do personagem. Somente nos episódios finais que uma defesa do personagem fica totalmente impossível. Fruto do trabalho digno de prêmios de Martin Freeman, de qual já havia acompanhado o trabalho nos dois filmes de O Hobbit já lançados, em O Mochileiro das Galáxias e, principalmente, nas três temporadas de Sherlock. Sua atuação na série confirma minha suspeita que ele rende melhor na TV no que da telona. Foi uma surpresa quando eu descobri sua presença no elenco, e justamente por ter a visão que ele é sempre um cara do bem, o contraste que Lester cria em cena fica ainda mais grandioso. Mesmo sendo malvado, alguns de seus ‘tiques’ (as expressões engraçadas; o olhar desorientado, de quem não está entendendo nada; o gaguejo; movimentação com as mãos) continuam presentes, gerando um resultado estupendo.

O roteiro de Howley também é metafórico: a máquina de lavar do primeiro episódio, antiga e quebrada, que espelha o momento que Lester está vivendo, passando pela sua tentativa de consertá-la (o último ato do antigo personagem, uma última tentativa de evitar que sua vida desabe de vez); o cartaz no porão que, de certa forma, motiva ele: “E se você está certo, e eles estão errados?”, e culminando nas diversas parábolas, charadas e analogias distribuídas ao longo dos episódios. Cada uma dessas passagens serve para caracterizar as naturezas dos personagens.

fargo 3

E o principal personagem distribuidor de metáforas é Malvo, interpretado sensacionalmente por Billy Bob Thorton, em uma atuação monstruosa. Ao lado de Freeman, a melhor atuação do elenco (isso se não for melhor). Frio, calculista, com uma áurea que impõe força e presença e com olhares que transmitem toda sua crueldade, cada singela aparição do ator é de tirar o fôlego e arrancar aplausos. Um dos melhores vilões que já vi na minha curta vida. O trabalho com o personagem no roteiro também é elogiável. Apenas como exemplo, sua atitude de ouvir gravações telefônicas de suas vítimas revela o sadismo do personagem, que catalisa a transformação de Lester em uma pessoa pior com o passar do tempo.

Como deve estar evidente, a direção de atores da série também é de dar orgulho. Além dos dois antagonistas, há também o contra balanço de Allisson Tollman como a policial Molly, que não faz por menos. As expressões da atriz passam, ao mesmo tempo, determinação, mas um certo tipo de delicadeza. A decência e boa índole da personagem também ajudam o telespectador a se afeiçoar a personagem, principalmente por ela ser a única a desconfiar de Lester desde o princípio. Guy Hanks também faz um bom trabalho, tendo uma boa química com Tollman e servindo para mostrar que, às vezes, é preferível por a família a frente do dever. Outras atuações também são elogiáveis, como a do pai de Molly, feita por um presente Keith Carradine; a dupla enviada por Fargo, Mr. Wrench e Mr. Numbers (Russel Harvard e Adam Goldberg, respectivamente); e outra dupla, dessa vez com um claro teor cômico, mas que encaixou muito bem na série, que são os agentes do FBI Pepper e Budge, vividos pela dupla Keegan-Michael Key e Jordan Peele.

fargo 6

A série teve 5 diretores, dois para cada episódio, mas todos mantiveram o mesmo nível e tipo de trabalho. O destaque fica para a fotografia, se aproveitando dos gélidos cenários de Minessota para mostrar o isolamento em meio aquela imensidão de branco; ao suspense; a ação, quando exigida, de qualidade (principalmente o bom plano sequência do episódio 7); e o como a violência na série é orgânica e forte, sem ser exagerada.

Finalizando, a coroação do trabalho vem na trilha composta por Jeff Russo. Do tema da série (que me passou a sensação de solidão, isolamento, mas também beleza), a todas as trilhas que ajudam a criar, perfeitamente, o clima de suspense e tensão na série (destacando o trabalho do penúltimo episódio). Ótimo trabalho.

A série, é claro, não é imune a problemas. Alguns deles são pequenos, relevantes. Os dois maiores que incomodaram foram 1- O desfecho de uma das subtramas, que julguei abrupto e um tanto inconclusivo; 2- A season finale. Ela não é ruim, longe, muito longe disso, porém a expectativa criada atrapalhou a experiência. Apesar do bom desfecho, o clima do último episódio é, em alguns momentos, até mesmo anticlimático. Porém, nada que destrua toda a série.

É isso. A certeza é que Fargo é a melhor surpresa do ano, uma das melhores séries recentes, digna de vencer prêmios (apesar da concorrência acirrada, sobretudo da sensação do ano, True Detective). Uma das melhores séries que vi na vida (não que isso diga muita coisa), e deixo extremamente recomendada.

Nota: 9,5/10.

Anúncios

10 comentários sobre “[REVIEW] Fargo

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s