[REVIEW] World War Z

“Max Brooks relata um dos melhores apocalipses zumbi que tive conhecimento”


Por Luís Gustavo Fonseca


Um dos grandes problemas que eu tenho com a temática zumbi é que, na grande maioria dos casos, a história é entorno de um personagem ou um grupo de personagens, com características especiais ou não, contra hordas e hordas de mortos vivos. Temo que isso tenha ficado clichê. Muitas vezes, a questão global é totalmente deixada de lado, e a pessoa acaba tendo que ficar restrita aquele universo.

Outro problema é que, na maioria das obras do gênero, se passam nos EUA. Por mais interessante que seja, de fato, a ideia das metrópoles americanas entupidas de mortos vivos e os personagens tendo que lidar com isso, também já começa a ser notícia velha (isso para não dizer que, novamente, em muitos casos, o(s) personagem(ns) tem como quest principal a missão de cruzar o país…). E outras localidades? Como elas lidam com o problema? Quais as diferenças? Isso leva a um 3º problema: nos States, é relativamente fácil alguém ter acesso a armas de fogo (um dos melhores acessórios na guerra pela vida). Em outros tantos países, como o nosso, não existe esse tipo de facilidade. Então, para mim, a parada fica meio inverossímil, porque eu tenho ciência que eu nunca terei acesso as armas com a mesma facilidade (sem contar a habilidade de manusear uma) como a dos personagens.

WWZ 4
O autor da obra, Max Brooks

Eis que ano passado, é lançado World War Z, filme que muita gente achou que se daria mal, mas acabou se dando bem, em termos de bilheteria. Curti o filme, achei a proposta dele interessante, existem falhas e todo o resto. Mas desde aquela época, já havia me chamado a atenção o comentário de Brooks dizendo que “De igual, só o nome do livro”. Fiquei curioso deste então. E lendo o livro, eu entendi porque o filme tinha que ser diferente em todos os aspectos.

O que difere WWZ de outras obras é o MODO como a história é contada. Esqueça o pequeno grupo de sobreviventes, em 1ª ou 3ª pessoa: neste universo, lemos relatos. Isso mesmo. Relatos, entrevistas. Logo no começo do livro, o repórter faz uma rápida apresentação, e situa que iremos ler diversas entrevistas que ele gravou, de pessoas variadas, do mundo todo, de como foi a experiência pessoal deles com os zumbis.

Tá dificil de eu organizar as ideias. Vamos com calma.

Primeira coisa: o universo do livro se situa DEPOIS do apocalipse. O BOOOOM da parada, pessoas morrendo aos montes, as medidas que foram tomadas, tudo isso já aconteceu. Os humanos já viraram o jogo e controlaram a situação, mesmo que ainda haja focos de luta e muitas coisas para serem feitas, pois a guerra, em si, ainda não terminou. Por isso, o livro está dividido em partes: Alertas (pessoas que tentaram alertar os outros sobre a ameaça iminente), Culpa (o fracasso em não conter a epidemia), O Grande Pânico (BOOOM), A Maré Vira (as coisas começam a dar certo), O Front Americano (porque ele TINHA, né?), Pelo Mundo Afora (a novidade), Guerra Total (a resposta da humanidade) e Despedidas (a despedida de certos personagens).

Por isso, a relação leitor-personagem se torna peculiar: você sabe que, por mais difícil que a situação que o personagem esteja descrevendo seja, ele, no final, acaba vivendo. O tamanho dos relatos também influencia na história: há relatos curtos, de 4, 5 páginas, e outros longos, de quase 15. Eu tendi a gostar mais dos que falavam muito, mas isso não é uma regra. O curioso é que, no final da entrevista, você já passa para outro personagem completamente diferente. Algumas histórias eu queria que o entrevistado tivesse citado outras situações em que ele esteve. E eu achei o modo como Brooks trabalhou essas relações (rápidas ou não) entre nós e os entrevistados algo bastante bem construído, e gostoso de ler. Conferiu uma dinâmica única e eficiente a narrativa (mesmo porque, somente algumas vezes uma narrativa tem algum link direto com outra), e proporcionou uma variabilidade enorme de situações, como a mansão para onde as celebridades se esconderam, o ‘samurai’ cego japonês, o diretor de cinema com uma boa ideia, o otaku coletor de informações, soldados, pessoas comuns… Achei genial.

WWZ 2

Outra coisa maneira no livro é o teor global e político da trama. Saímos daquele núcleo estadunidense, e vemos o que ocorreu em outros lugares: a “quarentena voluntária” de Israel, o “foda-se” e retrocedimento da Rússia (“Você sabe qual é a palavra russa para César“), o descaso Chinês, o desespero no Japão, o plano ‘milagroso’ que veio da África do Sul, a dificuldade singular da cidade de Paris, os acampamentos não tão seguros canadenses, a economia de 1º mundo que houve em Cuba, e a assustadora e brilhante estratégia Norte Coreana (Ah, o plano do ditador norte coreano…), a vida em alto-mar, e na Estação Espacial Internacional! (Você NUNCA pensou como seria a vida de quem estivesse lá em cima nesse cenário, né? Pois é.). Tudo isso foi uma experiência nova para mim, e aprovei bem satisfeito. Até o ~Brazil~ aparece! Lemos também as medidas que foram tomados pelos governos, o que eles fizeram para tentar salvar, os fracassos (A Batalha de Yonkers é algo que eu queria ver na tela grande), e a retomada. Aliás, os planos de retomada, ao mesmo tempo que são simples, são “sem alma” e chegam a ser brilhantes. É a primeira vez que eu vejo alguém tentar criar um plano de contingência para a hecatombe.

E claro, os zumbis. Zumbis diferentes também. Lentos, só morrem com um tiro na cabeça, o que me levou a conclusão (tardia e óbvia) de que se você manda um missil de tanque, ou usa minas, ou usa essas armas fodonas, existe a grande probabilidade de isso não adiantar de nada, afinal, essas armas geralmente queimam o corpo ou o cortam em pedacinhos… E sabe o que o zumbi acha disso? NADA. Ele inteiro ou pela metade, ou só com um braço e uma parte do busto, ainda é uma ameaça. Pode se rastejar, ainda pode morder. Outra peculiaridade: ao entrarem no mar, eles não flutuam e  ficam andando lá no fundo. E o mar (e isso é um questionamento dos personagens) NÃO CORROÍ o corpo humano, ninguém sabe por quê. Outra coisa: na neve, o corpo humano congela (o tecido congela mesmo morto), mas quando chega a primavera, o zumbi volta a ativa (novamente, sem uma explicação do livro). Achei boas peculiaridades (apesar de estranhas).

WWZ 1

Finalmente, conclui que a obra de Brooks é um marco, não só o melhor livro de zumbi que já li, como um dos melhores livros na vida. A ideia do livro é fantástica, e foi muito bem executada. Principalmente, é inovadora. O autor é responsável também por “O guia de Sobrevivência a Zumbis”, que irei procurar com toda certeza. Ótima surpresa. Deixo mais do que recomendado para qualquer um que é um pouquinho mais fã da dinâmica do que eu (e olha que depois dessa obra, gostei muito mais do estilo).

Nota: 9,5/ 10.

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