A Bússola de Ouro

Por Matheus Araujo

Aos nove anos idade, li uma surrada versão de O Cálice de Fogo. Leitura esta que creio ter sido a mais importante de minha vida, pois se tratava de minha primeira escolha na literatura e, portanto, meu primeiro livro. A significância desse livro foi extrema, já que a partir dela se determinou o meu gosto por experimentar o heroísmo, o extraordinário e, sobretudo, o fantástico.

Na verdade, é por experiências como a minha que tanto no âmbito infanto-juvenil, aquele da formação de leitores, difundiu-se o gênero da fantasia. E, em consequência disso, todos nós não temos uma, mas várias fantasias durante a infância. No meu caso, o que se iniciou na magia de Rowling, mais tarde visitou a Terra-Média e a encantada Nárnia, encontrou um belo dragão em Alagaësia, se aventurou com os Olimpianos e, por fim, viu as fronteiras do universo.

Contudo, deixe-me fazer uma confissão: todas essas sagas encontrei primeiro no cinema (exceto Percy Jackson) e, apesar de ter me encantado por seus universos, não corri para seus livros. Simplesmente enrolei na expectativa de perpetuar as aventuras por mais tempo, além de evitar decepções com as versões decepadas da sétima arte. Portanto, é adulto que resgato esses mundos e o mais recente entre eles é o de Philip Pullman.

Conheci A Bússola de Ouro no cinema aos onze/doze anos. Aos dezoito, digo que pouco me lembro daquela sessão, exceto de que escolhi vê-lo a Bee Movie; que meu primo se envergonhara ao ter que se sentar ao lado de uma menina desconhecida; que Iorek, o urso polar dublado por Ian McKellen, poderia jogar baseball e; que, definitivamente, o universo seria melhor se todos tivessem dimons.

Há poucos dias re-assisti ao filme e agora vejo que nele o que há de melhor é mesmo o despertar de um novo universo literário, todavia e infelizmente, não para os infantes. Veja, não que os mais jovens não possam se entreter com o enredo de Pullman, entretanto, duvido que eu aproveitasse dez por cento de seus questionamentos na tenra época. Além disso, a criação steampunk do autor exige certo conhecimento (até mesmo científico), que quando criança não entenderia completamente e não valorizaria da forma como merece.

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A história de Pullman situa-se na Terra, creio que como ponto de partida de suas modificações o final do século XIX, numa sociedade ainda que controlada por religião, com uma sede de conhecimento ensandecida. Interessante é que na ambientação de Pullman, os termos usados se fixam nesses momentos, exemplo, quando se opta pelo substantivo âmbar no que se diz a eletricidade. As modificações estendem-se, claro, além das palavras, já que a linguagem transforma toda uma visão do mundo e, assim, trabalham-se novas políticas, novos povos e muita fantasia.

O lado fantástico de Fronteiras do Universo é concentrado no fato de que cada ser humano possui um dimon, um representante de sua vitalidade e companheiro (literalmente) inseparável. Mistérios acerca desses seres, que assumem uma forma animal refletindo a mente de seu parceiro, sempre existiram, e é pela investigação desses por seu tio, que Lyra, nossa protagonista, futuramente se encrencará feio, enquanto nós desfrutamos de suas aventuras.

Lyra é uma menina órfã (por que não?) criada dentro da universidade de Oxford por estudiosos catedráticos a mando de seu tio, o Lorde Asriel. Exposta a todo tipo de conhecimento e discussões, aquela que mais a chama atenção é a da partícula do Pó (tradução aparentemente escrota, mas corretíssima como se percebe no decorrer da história), justamente aquela que envolve os estudos do tio. Pouco se sabe sobre o Pó, portanto, bastante é que se preocupa com ele, principalmente, devido a sua característica de depositar-se sobre os adultos e não sobre as crianças, levantando perguntas que correlacionam a partícula à longevidade do homem, além de suas possíveis relações com os dimons.

No entanto, não é a curiosidade a motivar Lyra o início de sua aventura. Tanto que esperamos até que os globbers, lendários raptores de crianças, levem seu querido amigo Roger para enfim começarmos. Somado ao rapto, a jornada da heroína conjuga: o aprisionamento de seu tio pelos ursos de armadura no Norte, o local onde toda trama converge; o que implica em sua desproteção, deixando-a sob perigosas influências; e, claro, o encaminhamento de uma missão que a incumbi de transportar o raro aletiomêtro, a Bússola de Ouro, objeto com a capacidade de revelar as respostas a perguntas quaisquer.

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O interessante do desenrolar de Pullman é que ele não é cinematográfico, como as várias histórias fantásticas que estamos acostumados graças à grande demanda de adaptações. Nela há diversos anticlímax e desvios de sequência, pois mais importa instigar o LEITOR que continue, que engrandeça sua experiência literária, a simplificar tudo para uma possível adaptação. E, pessoalmente, apesar de adorar as “porradas” do Pullman (que realmente não poupa violência), prefiro os momentos “anti-climáticos”, de mais diálogo e menos ação. Entender aquele universo é, mérito dele, o mais interessante!

Ainda “desmerecendo” a trama (que de jeito algum é ruim! Imagina só ter que sustentar uma história na qual a protagonista pode obter a resposta para qualquer coisa!), os personagens de Pullman são bons, em especial a protagonista. Pode se pensar a princípio, que Lyra, sendo pentelha como é, não se sairia bem ao lado de tanta intelectualidade, além de limitar as nuances acinzentadas por ser criança. Todavia, a menina é de longe a protagonista mais esperta que você teve ou terá o prazer de conhecer e uma criança imperfeita com dramas bem críveis. Não que ela não falhe, ou seu plano sempre dê certo, ou nunca seja surpreendida, mas a garota é mesmo sagaz como o Batman e, se ela realmente se der mal, prepare-se para sua nádega morder o assento.

Retomando ao início: puxando pela memória todas as outras sagas citadas, concluo que A Bússola de Ouro confirma a supremacia qualitativa da literatura infanto-juvenil britânica sobre a norte-americana, embora em termos de diversão, admito que os americanos levem a melhor. E é por ser maduro demais, britânico demais, que acho que a experiência das Fronteiras vale mais ao adulto que sou, do que a criança que fui.

Nota: 8,5/ 10.  

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2 comentários sobre “A Bússola de Ouro

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