[REVIEW] The Leftovers

“Como algo que te deixa tão perdido pode ser bom”

 

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Como já havia dito no texto sobre Fargo, não sou um apreciador de séries. Entretanto, durante a festa e fanfarronice da Copa do Mundo, tive a oportunidade de acompanhar os primeiros capítulos de The Leftovers, nova série da HBO que, não por menos, também produz uma das poucas que acompanho… Claro, Game of Thrones.

Se dizem que é capaz de ver se um livro é bom nas primeiras 50 páginas, posso dizer que é possível ver se a série é boa no primeiro episódio (novamente, digo isso tendo visto muita pouca coisa). O primeiro episódio de The Leftorvers é, no mínimo, interessante.

Leftovers 5

O plot: 2% da população mundial desaparecem sem nenhuma explicação aparente. Simples assim. Vale lembrar que isso corresponde a 140 milhões de pessoas. Mas o foco da série não é, a princípio, explicar como, ou porque, essas pessoas sumiram. É mostrar como a vida dos que ficaram foi atingida por este acontecimento, e como suas rotinas foram alteradas radicalmente com isso.

O recorte desse fenômeno é uma pequena cidade no interior do estado de Nova York. Entre os diversos personagens apresentados, a série tem foco no xerife Kevin Garvey (Justin Theroux). Curiosamente, nenhuma pessoa da família do xerife desapareceu. Entretanto, ela ruiu após “A Partida Repentina”, como ficou conhecido o acontecimento. Sua mulher, Laurie (Amy Brenneman) se juntou a um misterioso culto de pessoas vestidas de branco, Os Remanescentes Culpados, que se recusam a falar, são viciados em cigarros e insistem em promover atos que façam todos se lembrarem dos que se foram; seu filho, Tom (Chris Zylka) também deixou a família e a faculdade, ao resolver seguir o ‘profeta’ AINDA MAIS misterioso Wayne (Peterson Joseph), recebendo a tarefa de cuidar de Christine (Annie Q.) e seu bebê que está para nascer; e apesar de sua filha, Jill (Margaret Qualley) ainda estar com ele, o relacionamento entre os dois é um tanto quanto conturbado.

Kevin checks iin with Deputy Dennis

Trabalhar e amarrar subtramas paralelas é uma estrutura de roteiro que, geralmente, me agrada. Mesmo com um foco mais evidente em Kevin, o roteiro se sai bem ao contar histórias de personagens periféricos. Acho que o ponto mais alto disso são os episódios dedicados totalmente a essas subtramas. Aliás, alguns dos melhores episódios são justamente estes, como o terceiro, que foca no padre Matt (Christopher Eccleston), e o sexto, focado em Nora Durst (Carrie Coon), que teve a infelicidade de perder o marido e os dois filhos. Episódios que, mesmo que não colaboram para o andamento da história principal, ajudam bastante no aprofundamento destes personagens.

Infelizmente, isso não acontece com todos. O melhor exemplo disso é o de Meg, vivida por Liv Tyler (um dos rostos mais conhecidos do elenco), que não tem seu potencial totalmente aproveitado na série, desperdiçando, assim, o talento da atriz.

Leftovers 7

Porém, esse caminhão de personagens e de tramas paralelas, recheadas de mistérios carentes de explicações, muito provavelmente, é proposital. Se a intenção é que o telespectador fique desnorteado (assim como muito dos personagens), sem saber direito o que está acontecendo, a série conseguiu isso. E suspeito que essa teoria se confirme ao olhar o nome responsável pelo roteiro: Damon Lindelof.

O nome pode até não ser familiar para a maioria, mas Lindelof já ajudou a roteirizar e produzir algo que muitos conhecem bem: Lost. Por eu não estar familiarizado com a série, qualquer semelhança entre as duas me passou despercebido, mas julgo que isso tenha sido vantajoso. Sem perdão ao trocadilho, o sentimento de ‘perdido’ é bem presente na série. Como a trama se estenderá além da primeira temporada (uma segunda já foi confirmada para o próximo ano), muitos dos mistérios ainda permanecem em aberto ao fim do season finale. Contudo, Lindelof foi feliz em concluir alguns arcos, o que impede que a série se expanda de tal forma que impossibilite amarrar todas as pontas depois.

Leftovers 2

No trabalho do roteirista, que conta com o apoio de Tom Perrota (autor do livro que originou a série), vale destacar as situações morais que preenchem a maioria dos episódios. Além da moralidade, o bom trabalho ao mexer com o emocional dos espectadores também deve ser destacado. Juntos, ambas características fazem com que o telespectador repense sua opinião e sua ligação com um personagem (ou um núcleo) em apenas uma cena.

De maneira geral, as atuações são muito boas. Eccleston e Coon, em seus episódios individuais, proporcionam um belo trabalho, ajudando na construção de seus respectivos personagens. Theroux se revela um bom protagonista, principalmente por estabelecer o link de desnorteamento com o espectador. Ann Dowd também se sai bem ao fazer a durona Patti, líder d’Os Remanescentes Culpados. O restante não decepciona, mas como tem um tempo reduzido em tela, não tem seus potenciais aproveitados ao máximo.

Leftovers 8

A primeira impressão de The Leftovers é, portanto, animada e promissora (coroada ainda pela boa trilha de Max Ritcher, que corrobora com o suspense em diversos momentos). Torço para que a segunda temporada não perca a mão e continue melhorando a trama, porém, sem se estender de forma desnecessária.

 

Nota: 8/ 10.

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