[REVIEW] Garota Exemplar

“Cinismo, aparências e muito suspense: David Fincher acerta novamente!”

 

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Estou aprendendo a gostar cada vez mais desse período entre o fim de Julho (e seus filmes carregados de efeitos especiais) e o começo de Novembro, onde, além de alguns blockbusters, já começa a pipocar os candidatos que almejam algumas das premiações mais importantes do cinema. É verdade que, entre Agosto e Outubro, talvez o calendário fique mais fraco, com o Brasil pegando muita rebarba do Verão Americano e mais um punhado de filmes fracos, mas sempre surge algo interessante. Esse ano, tivemos o bom O Protetor. Ano passado, filmes como O Mordomo da Casa Branca, Gravidade e Os Suspeitos já chamavam a atenção.

E a ‘largada’ para chamar a atenção da Academia esse ano não poderia ocorrer de forma melhor. Garota Exemplar traz consigo um plot deveras interessante, Ben Affleck mais uma vez tentando se provar para os fãs céticos de Batman e David Fincher.

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Mesmo sem ter conferido alguns filmes de sua carreira, gosto do Fincher. OK, ele pode até ter errado em sua estreia, lá no Aliens³, mas depois disso, eu duvido que ele tenha pisado na bola novamente. Dentre os que eu assisti, filmaços como Clube da Luta, Curioso Caso de Benjamin Button, Millenium: Os Homens que não amavam as Mulheres e o próprio A Rede Social, filme que apesar de julgar que não mereceu o buzz todo que teve quando foi lançado, permanece acima da média. E não foi em Garota Exemplar que Fincher me decepcionou.

 A trama do filme é baseada no livro lançado em 2012 pela autora Gillian Flynn. E, boa notícia para os fãs do livro (existe algum já? Impressão que tenho é que ele foi lançado no Brasil agora, em virtude do filme): ela também foi a responsável por escrever o roteiro do filme. No aniversário de 5 anos de casamento, Nick Dunne (Bem Affleck) retorna para casa e descobre que sua esposa, Amy (Rosamund Pike) desapareceu. A partir de então, inicia-se uma investigação policial e uma cobertura sensacionalista da mídia que, durante seu desenrolar, levam a crer que Nick seja o culpado pelo crime, contrapondo sua versão com o que Amy anota tem anotado em seu diário. Afinal: ele matou ou não matou a esposa?

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O filme carrega algumas das características de Fincher. Primeiro, a capacidade do diretor de fazer filmes longos com um ritmo adequado, como é o caso de Millenium e Benjamin Button. Talvez Garota demore ali cerca de meia hora para engatar, porém o longa não cansa em nenhum momento, tomando cuidado para manter o espectador atento. Outra característica seria o clima ‘frio’ e um tanto fantasmagórico da obra, numa pegada de Millenium, representadas por uma fotografia mais acinzentada e uma filmagem mais crua, que destaca o cinismo do filme e colabora para a imersão de quem vê. A edição, que se destaca na primeira metade do filme, é outro ponto alto da obra, no trabalho realizado por Kirk Baxter, parceiro de longa data de Fincher, e que teve o cuidado em balancear os dois principais pontos de vista do filme, repetindo a competência demonstrada em A Rede Social, o que lhe rendeu um de seus Oscars (o outro foi, vejam só, com Millenium) .

Outra boa característica do diretor é sua capacidade de fazer bons filmes adaptados de livro. Bons não, excelentes! Clube da Luta e Millenium podem até ter obras literárias superiores, mas é inegável a qualidade presente em ambos os trabalhos cinematográficos. Com Garota, esse quesito ganha força, já que quem adapta o filme é justamente a autora do livro. E a julgar pelo resultado, pode-se criar ótimas expectativas para o livro de Gillian. O roteiro é certeiro ao ousar contar uma história que trabalha uma possível realidade atual, mostrando o relacionamento matrimonial por um novo e interessante ângulo, adicionando à isso um suspense bem trabalhado, um forte de tempero de cinismo e um humor negro, o retrato de uma mídia que está desesperada e disposta a sensacionalizar qualquer coisa para conseguir a audiência desejada e, principalmente, de um ótimo plano. É precipitado em falar em indicações para Roteiro Adaptado, mas a possibilidade vive.

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Continuando o altíssimo nível do filme, temos a trilha sonora composta pela dupla Atticus Ross e Trent Reznor, dueto que trabalha com Fincher a tempo e já ganhou um Oscar por A Rede Social, e que realiza mais um bom trabalho, ajudando não só a criar o suspense necessário, mas como destacar o clima nostálgico dos momentos de flashback do casal protagonista. As atuações também estão ótimas, principalmente de Rosamaund Pike, em um trabalho sensacional, ao criar uma figura bela e fria, com uma presença forte, lembrando a personagem vivida por Rooney Mara em Millenium, e que se aproveita muito bem das viradas na trama. Ben Affleck continua sua escalada para tirar a estigma de mau ator, e também faz um trabalho condizente, que casa com o clima do longa. Pode-se destacar ainda trabalhos como de Carrie Coon, que vive a irmã gêmea de Nick, e da investigadora Rhonda, interpretada por Kim Dickens. Porém, suspeito que Neil Patrick Harris tenha tido seu talento subaproveitado.

Finalmente, Garota Exemplar não é o melhor filme de David Fincher, mas é mais um grande acerto do diretor, e um dos melhores filmes do ano até agora. Se terá fôlego para almejar algo mais quando as premiações começarem, só o tempo dirá. Mas que a concorrência esteja avisada de que, daqui em diante, o nível será alto.

Nota: 9/ 10.

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