[REVIEW] Trilogia do “Antes”

Por Matheus Araujo

“Antes” é a trilogia mais amável da história do cinema. Iniciada em 1995 pelo cineasta Richard Linklater e estrelada por Ethan Hawke e Julie Delpy, suas continuações foram lançadas em 2004 e 2013, sempre bem distanciados em suas datas, permitindo uma verdadeira viagem no tempo e história dos personagens.

O primeiro da trinca, Antes do Amanhecer, dá sua partida num trem europeu, aonde Celine (Delpy), por acaso, encontra Jesse (Hawke), por quem logo simpatiza e começa uma boa conversa. Ao chegarem ao destino de Jesse, Viena, o prazer da prosa, que seria interrompido, prossegue após Celine aceitar o convite de perpetuá-lo na cidade até o primeiro trem do dia seguinte – até o amanhecer.

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A única vez em que o espectador precisa ceder, confiar na trama, é ao começo, ao comprar sua passagem para aquela história. Ademais, é tão real que chega parecer forçado, ou simplesmente é, e não entendo direito. Para mim, Antes do Amanhecer possui uma naturalidade e fluidez até incômoda.

Antes de prosseguir, um aviso: É evidente que para apreciadores do cinema frenético, a obra não é uma boa pedida. Obviamente, a aventura cerca-se de monotonia.

A trilogia do Antes é o exercício de apreciar o cotidiano, como o próprio Jesse trabalha logo em suas primeiras linhas:

“Por que um cachorro dormindo ao sol… é tão bonito? Sabe? É bonito. Mas um cara sacando dinheiro do caixa eletrônico… parece um idiota completo.”

São diálogos tranquilos, críveis, sobre o nada que certamente significa alguma coisa. Diálogos que por mais desconexos formam uma unidade belíssima. E é bizarra a naturalidade com que o diretor conduz sua mensagem. Nunca tinha visto nada assim. Dizem que Tarantino brilha ao falar sobre o nada. Mas mesmo na banalidade tarantínesca, nota-se um quê de cinematografia, certa lapidação, simulação. Dizem também que Woody Allen comunica sem igual, um rei dos diálogos, mas digo pelo que experimentei do aclamado diretor vez ou outra que, mesmo sendo os elogios verdadeiros, suas situações, tramoias e reviravoltas removem suas obras de um âmbito completamente orgânico. Diferente, “Antes” não ousa em seu roteiro, apenas encanta, apenas segue em frente.

Realmente me impressiono com a fluidez do filme. Não sei se Linklater segue a linha primorosa de The Office, aonde meticulosamente calculam cada passo, cada tropeço na língua, cada olhadela, aonde a realidade apenas não é confundida com a ficção pelo absurdo das situações. A coisa é que não consigo tirar da cabeça se de fato “Antes” é uma ficção. De tão genuíno, talvez Richard Linklater simplesmente dizia que se faça isso e isso e isso!

Só sei que adoro o ordinário gozando do extraordinário. Principalmente pelas bocas de Jesse, um americano pé rapado carismático com borra; e Celine, um anjo francês saído das pinturas de Botticelli. Podem até não ser excelentes em seus ofícios, mas neste trabalho em particular, o casal funciona em harmonia. Protagonistas apaixonantes.

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Enfim, Antes do Amanhecer é uma obra prima. Amo esse filme. Amo a efemeridade do dia. Brilhantemente somos passageiros, breves, transitórios, momentâneos, viajantes…

A obra é tão singela, tão única, que se questiona a validade de uma sequência. Mas o apego a pureza do filme faz com que apenas sigamos em frente.

Deram cinco minutos de Antes do Pôr do sol e todas as minhas dúvidas se findaram. Como o tempo fez bem… É lindo como se preenche o lapso dos 9 anos que os separam. (afinal, é o link later!) Fico aqui imaginando qual devesse ser a emoção das pessoas que os assistiram nas épocas.

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Engraçado é como as perguntas que tive intra e extra história foram perfeitamente saciadas pela sequência, mesmo que deixe no ar algumas perguntas. Um trechinho que provavelmente só faz sentido ser encaixado aqui na minha cabeça:

“Não é tudo autobiográfico? Vemos o mundo através de uma pequena fechadura, certo? Sempre me lembro de Thomas Wolfe. Você já leu a nota ao leitor… na abertura de ‘Look Homeward, Angel’? Sabe qual é? Ele diz que somos a somatória dos momentos que vivemos… e que o escritor usa a argila que moldou sua vida. É inevitável. Ao contemplar minha vida, reconheço que, na realidade, nunca convivi com armas, violência, ou intriga política, ou desastre de helicóptero. Mas, para mim, minha vida é plena de drama. Pensei então que, se eu pudesse escrever um livro que captasse como é conhecer alguém realmente… Uma das coisas mais emocionantes que já passei foi conhecer alguém e me ligar nesse alguém. Se eu soubesse valorizar isso, capturar aquilo..seria uma tentativa de… Respondi sua pergunta?”

Percebe-se uma evolução geral em todos os aspectos. A fotografia e a música, por exemplo, que eram ótimas no primeiro, enriquecem-se bastante; a direção está ainda mais ligeira, muito talvez pela curtíssima duração da sequência, mas desafiada pelo tempo factual ser praticamente o tempo em tela; os planos que já eram longos, aumentam, conferindo ainda mais veracidade; e os atores contracenam com muito mais química e brilho que no primeiro. Não que no primeiro filme, fossem perceptíveis as falhas, mas assim como o filme deixou seu ar mais pueril em 1995, assim também o deixaram pelo tempo Linklater, Delpy e Hawke. Ainda sobre a dupla, é engraçado notar que agora são creditados como roteiristas. Com certeza um enorme ganho para espontaneidade da trilogia.

Contudo, sou mesmo apaixonado pelo primeiro. E é evidente que seria. Sou novo, identifico-me, pois, com o filme mais jovem, embora o reconhecimento remanescente neste também me faça saltar os olhos. Estou absolutamente coberto de razão quando afirmo que no futuro gostarei mais de Antes do Pôr do Sol.

Por fim, 2013. Linklater volta para puxar o meu tapete, mostrando um chão de realidade ainda mais duro. Afinal, toda a verossimilhança dos anteriores andava de mãos dadas com a situação. Toda aquela ligação entre os amantes não poderia ser abalada devido às circunstâncias. Tanto em 95 quanto em 2004, viviam envoltos de magia de descobertas e simplicidade no amor. Neste terceiro filme, devido os rumos da relação do casal, uma questão de merda inevitável é explorada: as crises! Mas, como a própria Celine diz em Antes do Amanhecer, conflitos não são tão ruins.

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Simplificando os comentários, afirmo que novamente, mais se evolui em todos os aspectos. Desgosto do novo formato dado ao início, abordando novos interlocutores, todavia entendo a necessidade, visto as mudanças no tabuleiro, nas regras e nos jogadores.

O triste é que ao chegarmos na zona de conforto mais me distancio do casal, pois seu viver é completamente fora do meu. O romance está em ruínas (cenário mais perfeito: impossível). Certamente, casais experientes se identificam com o quadro, entretanto a mim, ainda encantado com os ares românticos da primeira aventura, a soma de porradas choca absurdamente.

Claro que ainda me divirto com os diálogos inacreditáveis, curto a discussão da impossibilidade do romance de Jesse e Celine acontecer na atualidade, todas as retomadas dos filmes anteriores, mas o que mais mexia comigo, a identificação, morreu. A continuidade com certo gosto apenas é permitida pela afeição criada nas obras anteriores.

Contudo ainda há momentos muito especiais no filme…

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Ainda que o envoltório lúdico seja inexistente e o que é real seja bem pesado e provocante, é lindo que o relacionamento se recupere ao se recordar da magia do início.

E o que mais válida a existência do terceiro filme é: há o amanhecer e o pôr do sol; na vida, nós aparecemos e desaparecemos, apesar de nossa importância para alguns, estamos apenas de passagem. Antes da Meia Noite.

Não é perfeito, mas é real.

Nota: 10/ 10.

P.S.: Man, o Jesse tem ideias incríveis pros livros dele.

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