Interestelar

“Ousada ficção científica de Christopher Nolan talvez seja a obra mais megalomaníaca do diretor”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

O Universo. Talvez seja a coisa mais fascinante que existe. A mais assustadora também. Quantas vezes a humanidade já não se debruçou e se questionou sobre os mistérios que há lá fora? Quantas vezes olhamos para o céu, à noite e ao contemplar a infinidade de estrelas, nos agonizamos por desejar saber mais, por conhecer mais? É possível brincar e dizer que nascemos no tempo errado: tarde demais para explorar a Terra, cedo demais para explorar os cosmos.

E essa admiração (ou seria uma obsessão?) sobre o Universo também atingiu o diretor Christopher Nolan. Considerado um dos melhores da atualidade, ele anunciou uma ficção científica que abordaria a teoria da relatividade, os famosos ‘buracos de minhoca’, viagens intergalácticas e dimensões e mais dimensões. E quando um cara de seu calibre, que tem no currículo obras como Memento e Inception (para não dizer da amada Trilogia do Cavaleiro das Trevas), diz que fará algo envolvendo assuntos tão interessantes, não tem como não mandar as expectativas lá para o alto.

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Foi um filme cercado de mistérios. Com trailers enigmáticos, pouco se sabia sobre o enredo. Mas eis o básico: o engenheiro e ex-piloto Cooper (Matthew McConaughey) cria os dois filhos em uma fazenda no interior dos EUA, em um lugar que se torna cada vez mais apocalíptico. Castigado por intensas tempestades de poeira (!) e também por pragas nas plantações, a família de Cooper, assim como toda humanidade, parece estar condenada à extinção. Entretanto, misteriosas ‘mensagens’ direcionadas a sua filha o levam até uma base escondida da NASA, onde ele é convencido pelo doutor Brand (Michael Cayne) a se juntar a uma missão que pode salvar a existência da raça humana.

É bom ver Nolan de volta aos trabalhos, principalmente se tratando de uma história original. E voltou em boa forma: pensando no filme para ser exibido em IMAX (e como eu queria que houvesse alguma dessas salas aqui em BH), o diretor entrega um filme visualmente deslumbrante, mostrando as belezas do Universo, com uma representação bastante acessível e entendível de como são os ‘buracos de minhoca’ e um Buraco Negro. As cenas envolvendo naves flutuando no espaço também seguem o mesmo capricho, que se mantêm perceptível durante toda a película.

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CONTUDO… Em se tratando das cenas no espaço, mesmo estando com uma qualidade incrível e um visual estupendo, eu esperava mais. Esperava mais, sobretudo depois de ver um Gravidade no cinema, que acho que tira mais proveito do quesito “beleza do Universo” (e ainda tem o bônus de ter usado o 3D de forma competente). Nada que prejudique o filme, mas uma observação que deveria ser feita.

Quem me dera que essa disputa pelo visual fosse o maior ‘pecado’ de Nolan na trama. Interestelar provavelmente vem com o roteiro mais ‘montanha russa’ do diretor. Montanha russa, pois em suas quase 3 horas de filme (e que por incrível que pareça, não pesam, o que é ótimo), ele proporciona momentos mind blowing e carregados de emoção e êxtase misturado com momentos previsíveis e de pouca inspiração, algo que eu definitivamente não espero de Nolan. Baseado nos estudos do físico Kip Thorne e com a ajuda do irmão Jonathan, Christopher mostra novamente seu lado meticuloso, e têm êxito ao explicar conceitos que não são acessíveis a todas as pessoas (apesar de ter quase certeza que muitos irão ter que rever o filme ou pesquisar mais sobre as ideias para compreendê-lo completamente). Porém, ele erra à mão na hora de desenvolver a profundidade e as relações de boa parte de seus personagens.

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Talvez o único que se escape desse detalhe seja Cooper, que mostra, desde o começo, o seu descontentamento com a ‘pequenez’ que a humanidade escolheu, e seu amor incondicional pelos filhos. A interpretação ótima de McConaughey ajuda a reforçar a presença e as emoções do personagem e, mesmo que ele não esteja no nível de Dallas Buyers Club, merece os parabéns.

O mesmo não acontece com os demais. É difícil se importar com eles, de criar alguma empatia com eles. Principalmente com o núcleo da Terra, que recebe tanta importância e tempo de tela. O que é de certa forma, contraditório, pois para uma trama que dá um foco tão grande para o amor (a ponto de até pô-lo em equações matemáticas), falta um cuidado para que o espectador seja embalado por este sentimento. Essa sensação é reforçada pela estranha edição que toma o último ato do filme, já que Nolan procura resolver os dois segmentos de narrativa ao mesmo tempo. “Dói” você ter que sair dos acontecimentos do núcleo espacial para retonar a um ritmo mais lento e calmo aqui na Terra.

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Detecto também um desperdício dos demais atores. Não que eles estejam ruins. Michael Cayne em sua costumeira aparição de luxo nos filmes do Nolan, recitando um poema que, dependendo da sua empolgação com o longa, você sairá recitando da sala; Jessica Chastain e Anne Hathaway também estão bem, mas a verdade é que você já viu elas em atuações BEM melhores.

Em um filme cheio de “ótimos” e “foi bom, mas…”, a única coisa que se destaca de forma impecável é a trilha de Hans Zimmer. A essa altura do campeonato, eu nem deveria mais me surpreender com a qualidade das composições dele, mas ele sempre arruma um jeito de ir além. A sua trilha, sim, ajuda a criar uma imersão semelhante ao de Gravidade. Provavelmente meu lado fã dele está falando mais alto, mas é uma das melhores trilhas do ano.

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Por fim, Interestelar é aquele filme que merece ser revisto duas, três vezes (e quanto mais vezes no cinema, melhor). Não só revisto, mas debatido. Não é o trabalho de Nolan que eu mais gosto, entretanto, ele ainda não errou. Christopher Nolan continua entregando um material com seu selo de qualidade. And that’s whyIn Nolan, We trust!”.

Nota: 8/ 10.

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26 comentários sobre “Interestelar

  1. Perfeito! Parece ser um baita filmaço… Espero poder assisti-lo em breve! Agora tenho uma pergunta, a trilha sonora mostrada nos trailers de divulgação são repetidas no filme em si? Ou é algo diferente do que já foi visto? Pois a trilha sonora dos trailers na minha opinião, estão incríveis, as melhores que eu já vi em um trailer… Me empolgo mais ainda pelo que eu posso ver no filme em si…

    1. Francisco

      Elas não estão presentes no filme, mas a trilha do filme tem a mesma pegada. A música do trailer 2 é “Every Reborn”, composta pelo Dario Marianelli para o “V de Vingança”; a do trailer 3 se chama “View From the Voyage”, da Confidential Music; e a do trailer 4 foi composta por Thomas Bergensen, e se chama “Final Frontier”.

      A trilha do Interstellar ainda não foi oficialmente divulgada, mas você pode ter uma noção do tom dela com a bonus track liberada até agora, “Day One Dark”, já composta pelo Zimmer.

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