Jogos Vorazes: Em Chamas

“Continuação do mundo de Suzanne Collins deixa fantasmas para trás, evolui, e prepara telespectador para clímax épico”

Por Luís Gustavo Fonseca

Uma das consequências do sucesso estrondoso de Harry Potter foi a crescida na produção de filmes voltados para o público infanto juvenil, pois os filmes do bruxo mostraram o potencial gigantesco de se arrecadar dinheiro que esse mercado possibilita. Desde o final da série, nos cinemas, em 2011, os estúdios (e as gráficas de livros) procuram desesperadamente algo para ser o “substituto” da série de Rowling, o “novo Harry Potter” e blá blá blá. E de todos os candidatos que apareceram até agora, Hunger Games parece ser o que está se dando melhor.

The Hunger Games (ou Os Jogos Vorazes) é uma publicação de 2008, que deu o pontapé inicial para a trilogia, em 2012, teve seu primeiro livro adaptado. Eu, como a maioria das pessoas no mundo, não sabia O QUE DIABOS era a série, e do que se tratava. O filme simplesmente apareceu. Fui procurar saber mais sobre, pois a história parecia interessante, e acabei lendo os 3 livros antes de ver o primeiro e, mais tarde, o segundo filme.

Pessoalmente, eu adoro esse poster, pois ele vem temperado com certa ironia. Ao apontar uma flecha para nós com a frase "Lembre-se quem é o inimigo", interpreto que os inimigos... Somos nós! Afinal, fazemos a mesma coisa que o pessoal da Capital: nos divertimos as custas da matança dos Jogos Vorazes.
Pessoalmente, eu adoro esse poster, pois ele vem temperado com certa ironia. Ao apontar uma flecha para nós com a frase “Lembre-se quem é o inimigo”, interpreto que os inimigos… Somos nós! Afinal, fazemos a mesma coisa que o pessoal da Capital: nos divertimos as custas da matança dos Jogos Vorazes.

Nos voltando para uma análise específica do segundo filme da franquia, acompanhamos mais uma vez Katniss (Jennifer Lawrence), que agora tem que lidar com seu ato “impensado” no final do 74º Hunger Games. Aquele ato de desobediência acabou por gerar certa agitação nos distritos que, ao perceberem que a garota saiu “ilesa” da situação, começam a iniciar uma tentativa de revolução. Diante disso, o Presidente Snow (Donal Sutherland) ameaça Katniss, e diz que, caso ela não convença o povo e, principalmente, ele, que ela fez aquele ato de rebeldia por estar perdidamente apaixonada por Peeta (Josh Hutcherson), haverá consequências graves para todos. Katniss não consegue engajar esse relacionamento forçado com Peeta, pois ela ainda tem sentimentos confusos em relação a ele e a Gale (Liam Hemsworth).

A situação social se complica ainda mais, a população está decidida a batalhar, e então, Plutarch Heavensbee (Phillip Seymour Hoffman) se torna o Organizador dos Jogos e aparece com a solução: mediante ao início do 75º Hunger Games, temos o Massacre Quartenário, que ocorre a cada 25 anos. E nesta edição especial, a diferença para os demais jogos é que a batalha entre os tributos será entre os vencedores de edições anteriores!

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Alguns estranharam essa proposta do livro/filme, já que ela é “mais do mesmo”. Um artifício para voltar a arena de batalha com uma desculpa ‘esfarrapada’, e pelo fato da Katniss ser a única vencedorA do Distrito dela, logo, a protagonista teria que retornar à arena. Mas eu achei a temática do Massacre Quartenário fantástica. Para quem leu o livro, o que é isso fica mais claro: o 1º Massacre foram Jogos em que os Distritos tiveram que escolher os participantes; e o 2º teve o dobro de participantes (48 competidores, sendo que o Haymitch foi o vencedor… Aliás, a história dele ganhando é maneira, mas o filme não cita. Uma pena).

Com o retorno à Arena, o filme possui uma estrutura semelhante a do primeiro. Ou seja: das 2h30, temos metade fora da Arena e o restante dentro dela. Essa primeira metade é ótima, já que finalmente são mais explorados as críticas sociais que o livro procura retratar.

Houve uma mudança na direção: sai Gary Ross, entra Francis Lawrence (Eu Sou a Lenda). A diferença mais clara entre os dois é que Lawrence não utiliza uma “câmera louca”, que fica perdida no meio da movimentação, optando por planos mais abertos ou câmeras fixas, mesmo nas cenas mais corridas. Lawrence também cria cenas de ação e lutas melhores e mais bem orquestradas, e sabe utilizar melhor os efeitos especiais. O filme tem o mesmo ritmo do antecessor: cadenciado, mais arrastado, em sua primeira metade, e mais aventuresco dali em diante. Outra coisa em comum é que o segundo filme continua com uma fotografia predominantemente escura. Eu entendo o porquê dele possuir muitas das cenas a noite (questões narrativas), mas é um tempo bastante longo. Que bom que o filme não é em 3D, pois se não essa sensação seria ainda pior.

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O roteiro de Simon Beaufoy (127 Horas) e Michael Arndt (Toy Story 3, Oblivion) também é um ponto positivo da fita, pois além de estar bastante fiel ao livro em muitos momentos, novamente há um acerto no que se diz respeito ao tempo de tela dos momentos dramáticos, dos “melosinhos”, e dos engraçados (aliás, nem tem tantos momentos cômicos assim); o ritmo do filme é ótimo, as críticas sociais estão bem presentes e são mais bem trabalhadas; a introdução dos novos personagens é agradável. Claro, por se tratar de uma narrativa onde 20 novos personagens entram em cada Arena, nem todos vão ser explorados, mas quem realmente importa, está lá, com a trama justificando o porquê, e dá várias pistas para a construção de um background rápido (em muitos casos, superficial) de cada um deles.

 Novamente, temos excelentes interpretações, mesmo que isso não seja sinônimo de atuações espetaculares. Percebo uma Jennifer Lawrence mais à vontade no papel, sabendo transmitir muito bem as confusões emocionais da personagem. Houve momentos que julgo ter faltado presença dela, mas nada que chegasse a estragar o filme. Principalmente, a química entre ela e Josh Hutcherson melhorou DEMAIS. Estão bem mais sintonizados, e agora o relacionamento convence. O ator continuou ótimo como Peeta, também sendo perceptível uma evolução na interpretação dele.

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A equipe de apoio do filme é MUITO BOA. Temos o retorno de Stanley Tucci como o apresentador Caesar, cheio daquelas caras e bocas, e modo de falar. Ele já havia caído como uma luva no primeiro longa; outro que retorna é Lenny Kravitz como o estilista Cinna, aqui mais político e sério, demonstrando a mudança de tom que a história passa a ter. Boa participação; Elizabeth Banks novamente é a excêntrica Effie Trinket. Se ela fica muito deslocada no primeiro filme, uma vez que o telespectador ainda está sendo apresentado aquele universo, aqui o trabalho dela é melhor, pois fica evidente o abismo que separa o modo de ver o mundo dela dos demais (como por exemplo, ela acha errado o fato dos dois jovens voltarem à Arena, mas não consegue admitir que o problema está no próprio sistema de qual ela faz parte e gosta); Woody Harrelson continua um excelente Haymitch, com uma maior presença, enquanto Liam Hemsworth tem um pouquinho mais de tempo em tela, mas nada significativo. Para o “nome” do ator, é um papel bem deixado de lado.

Nos primeiros 20 minutos de filme, Donald Sutherland tem muito mais impacto como vilão ameaçador do que no primeiro filme todo. Agora sim, dá para o telespectador criar algum tipo de sentimento com o personagem. Atuação sólida. O filme ainda conta com ótimas adições no elenco: Jeffrey Wright faz um ótimo Beetee; Lynn Cohen (muda no filme) faz uma simpática Mags; Jena Malone faz uma ótima Johana Mason, que é a personagem mais eloquente do filme, com as cenas mais engraçadas; Sam Claffin deu um bom Finnick e claro, Philip Seymour Hoffman, novamente sendo fantástico em seu novo papel. Ele tem a cara de filho da puta lunático que toparia se candidatar a Organizar aquela carnificina, além de ser bem argiloso. A série ganhou muito com a adição deste pessoal.

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O filme, contudo, tem o mesmo ‘defeito’ do primeiro: ele é bastante direcionado para os fãs dos livros. E lembro que quando vi no cinema, isso ficou evidente: o rapaz a minha esquerda não pegou ou não entendeu alguns aspectos do filme (como por exemplo, a logística do relógio que funcionava na Arena), enquanto a garota a minha direita previa cada momento mais sério do filme. Acho que isso acaba sendo ruim, pois apesar de proporcionar uma imersão muito melhor a quem já leu os livros, acaba por excluir os demais telespectadores, que podem não se empolgar com o filme ou não achar tantas coisas positivas nele (como as interpretações). O longa certamente desperta o interesse das pessoas correrem atrás dos livros, mas como nem todos fazem isso, ele deveria se preocupar em não excluir os não leitores. É um balanceamento difícil.

Os efeitos, claro, estão bem melhores, já que o orçamento foi bem mais generoso; o figurino do pessoal da Capital continua muito bom (os policiais da história são claramente inspirados nos Stormtroopers); assim como a maquiagem. Porém, a trilha de James Newton Howard (Depois da Terra, Lanterna Verde) continua apagadíssima, o que o é uma pena. Poxa, dava para fazer um tema TÃO LEGAL pra história, além do famoso assobio, mas isso não acontece. Não merecia essa ausência toda.

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Por fim, o filme tem a mesma estrutura funcional de As Duas Torres: por se tratar de uma história intermediária, ele não tem um início (que na verdade, é o primeiro filme), e tem um final totalmente em aberto, que convida o telespectador para ir conferir o último capítulo da saga, Esperança. A parte derradeira da trilogia entrou na modinha caça níquel de ser dividido em duas partes. O 3º livro é o que eu mais gosto, é o que eu acho melhor, mas, AINDA, não vejo a necessidade desta divisão. Os filmes da franquia já possuem 2h30 (um tempo bem dilatado), e a primeira metade do 3º livro é bem arrastadinha… Trazer isso para a tela será um desafio. Tenho quase certeza de qual será o momento que irão dividir o filme, mas tem muita linguiça a ser preenchida nesta história toda. Entretanto, pelo tom da série, pela vontade dos envolvidos e pela fidelidade incrível que ainda percebo nos filmes, Hunger Games continua no caminho certo para se tornar uma das grandes sagas cinematográficas deste (começo) de século.

Nota: 8,5/ 10.

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6 comentários sobre “Jogos Vorazes: Em Chamas

  1. Bem interessante este breve resumo,descrevendo o poder que um livro possa se transformar em filme e, em uma história extremamente idealista na qual mostra-se como o poder da capital interfere perante a sociedade. Ex a ditadura assunto que fora tratado no site.

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