Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

Primeira parte do capítulo decisivo da trilogia de Suzanne Collins é carregado de tensão, preparação e, mais uma vez, boa dose de competência”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Finalmente, ontem, chegou o grande dia! Como o marketing da Lionsgate não cansou de repetir (reutilizando, aliás, a mesma estratégia do ano anterior), “o filme mais esperado do ano” invadiu os cinemas brasileiros, mais uma vez antes de qualquer lugar do planeta. O longa chega em um número recorde: mais de 1300 salas (metade do circuito nacional) foram disponibilizadas para a estreia de Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, a primeira parte do capítulo decisivo da trilogia escrita por Suzanne Collins.

A esta altura do campeonato, são poucas as pessoas que não sabem do que se trata a história contada em Jogos Vorazes. Depois do estouro do primeiro filme, em 2012, com números impressionantes na bilheteria dos EUA, e da expansão da franquia no ano passado, quando Em Chamas (de qual, aliás, já falei sobre aqui) conquistou um espaço maior no cenário internacional, chegamos em 2014 preparados para o combate, para a revolução.

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Nesta primeira parte, acompanhamos o desenrolar do desfecho apoteótico de Em Chamas. Após a fuga planejada da arena do Massacre Quartenário, Katniss (Jennifer Lawrence) encontra-se refugiada no Distrito 13, local que todos pensavam estar completamente destruído depois de um antigo confronto contra a Capital, mas que segue forte e atuando nas sombras, comandado com mãos de ferro pela Presidente Alma Coin (Julianne Moore). Desolada pela destruição de sua casa, o Distrito 12 e, principalmente, pelo fato da Capital ter Peeta (Josh Hutcherson) como refém, Katniss ainda procura entender seu papel na revolução que se alastra por Panem, já que os distritos precisam de um símbolo… Precisam de um Tordo.

Eu temia essa primeira parte. Primeiro, porque via nela muito mais uma opção mercadológica (“Porque fazer US$1 bilhão com 1 filme se podemos fazer US$1,8bi com 2?”) do que necessariamente uma questão de narrativa; segundo que, geralmente, a decisão de dividir o último livro nunca se mostrou benéfica para a primeira parte, já que ela deve possuir um bom clímax (afinal, um filme desse tamanho exige algo desse tipo), mas ainda sim, deve ter um clímax menos impactante do que a segunda parte, que traz o verdadeiro final consigo; e terceiro, por julgar que a primeira metade de A Esperança talvez seja a mais ‘calma’ e cadenciada de toda a série. Então, como fazer essa parte mais devagar de forma interessante?

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Eu não poderia estar mais feliz pelo diretor Francis Lawrence (Água para Elefantes) e os roteiristas Peter Craig (Atração Perigosa) e Danny Strong (O Mordomo da Casa Branca) terem a resposta. Diante de tal desafio, o trio mostrou uma trama capaz de contar sua própria história, mas ainda servir como elo essencial de uma trama maior, sem perder a mão. Pelo lado da direção, Lawrence diminui consideravelmente o número de cenas escuras, o que já é um bom avanço. Uma pena que as ainda presentes, estejam concentradas principalmente nas cenas de ação. Essas continuam bem executadas, apesar de estarem mais escassas. Compreensível, tendo em vista o material que está sendo adaptado.

O grande trunfo da obra está no roteiro. Um dos meus maiores elogios aos filmes é seu nível de fidelidade aos livros (pensamento que suspeito não ser um consenso entre os fãs). E esta qualidade parece estar presente, mais uma vez, já que o tema político, tão importante na franquia, é mais uma vez trabalhado e destacado. Outro elogio é a sábia decisão de encurtar o filme, saindo das quase 2h30 que possuem os primeiros filmes e reduzir para cerca de 2h. A decisão permitiu que o filme possuísse uma boa dinâmica, que não perde a atenção do espectador, mesmo com as poucas cenas de ação. O foco no drama dos personagens (em especial, os conflitos de Katniss) é benéfico e bem trabalhado, e a apresentação de novos personagens é feita de forma tranquila. O corte que separa o filme da segunda parte é bem previsível para aqueles que já leram o livro, mas não poderia haver momento melhor.

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O elenco, de forma geral, está mais uma vez em excelente forma. Você pode até ter visto Jannifer Lawrence em papéis melhores, mas cada vez mais ela se sai melhor como Katniss. E em um filme que exige tanto da parte emocional da personagem, ela se sai muito bem; outro que recebe, mais uma vez, meus parabéns, é o baixinho Josh Hutcherson. A atuação dele se sobressai por, em todas as suas cenas, ele atuar praticamente sozinho, voltado para a câmera, e interagindo apenas com Caesar (interpretado por um Stanley Tucci bem menos extravagante, mas não menos competente). Gale, vivido por Liam Hemsworth, finalmente ganha mais espaço, e o ator soube aproveitar o momento, mantendo a qualidade da química entre os personagens.

Outros personagens já conhecidos continuam com o mesmo nível de atuação, mesmo com menor tempo em cena, como é o caso de Woody Harrelson como Haymitch e Philip Seymour Hoffman na pele de Plutarch (o que é uma pena, pois são dois ótimos atores); em um filme com um clima bem mais pesado, cabe a Effie, vivida por Elizabeth Banks, o papel de ser o alívio cômico, devido ao interessante contraste que a personagem oferece à narrativa, e ela se saindo bem na função; e Donald Shuterland consegue, cada vez mais, tornar-se um Presidente Snow ameaçador e imponente, sabendo aproveitar uma das melhores características do personagem, que é seu poder de atacar seus inimigos pelo lado psicológico.

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Dos que embarcam na franquia agora, Natalia Dormer (Game of Thrones) faz a diretora de cinema Cressida, que acrescenta, mas não possui peso na história. Por outro lado, a vencedora do Oscar Julianne Moore apresenta suas melhores qualidades como Alma Coin, personagem que, ao contrário do que possa se imaginar, não é apenas mais uma integrante do time do bem, e sua dureza e frieza foram bem demonstradas pela atriz.

O figurino não chama a atenção pela extravagância como nos filmes anteriores, mas possui um bom aspecto em transmitir o sentimento de apreensão (e porque não, de opressão) nas roupas dos residentes do Distrito 13, com uniformes cinzentos que marcam essa sensação. Em contra partida, mesmo que não seja marcante, HÁ uma trilha presente, mostrando evolução pelo lado de James Newton Howard. Destaque para o trabalho na sequência derradeira do filme.

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Finalmente, A Esperança – Parte 1 é um filme preciso, recheado de êxitos e, principalmente, que justifica sua existência, não comprometendo a qualidade e o andamento da franquia.  Franquia que, agora, se concretiza mais do que nunca como a herdeira legítima de Harry Potter, e caminha a passos largos para se tornar uma das mais importantes da última década. Há quem arrisque que ela é a “Star Wars desta geração”… Bem, isso é papo para outra hora.

Nota: 8,5/ 10.

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7 comentários sobre “Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

  1. Apesar do filme conseguir fechar uma unidade – um capítulo sobre o embate das mídias (conteúdo interessantíssimo) – não acho que era o tipo de filme esperado após Em Chamas. E falando/relacionando um pouco mais do segundo filme, ele era um elemento de ligação TÃO bom que fico chateado que esse novo teime em ser mais um elemento desse tipo, por mais que esse também tenha tido êxito em sua função de preparação.

    MAS TEM UM PROBLEMA: Não sei se pelo mau uso no final do filme, mas a propaganda que vinha sendo a força motriz é “deixada” de lado na conclusão do longa, aonde é utilizada como uma ferramenta distrativa. Certo, o lance de ser utilizada como ferramenta distrativa faz todo sentido. Todavia, minha impressão ao ver o filme, foi de que rolou uma secundarização dessa parte justamente pelo maluco do Tridente exercer esse papel.
    E falando nisso também… me entristece que a própria Katniss, peça chave no desenrolar da mídia e revolução, fique de lado em qualquer aspecto no fim do filme. Sei que a função de enroladora não era pra ela, mas dar a porra de alguma coisa pra heroína fazer é bom, né?

    Sei lá… Tenho a impressão de que o que está sendo vendido como UM filme em duas partes, na verdade se trata de DOIS filmes… Me baseando num livro que não li, suspeito que dificilmente trarão a mídia com essa força no capítulo final de Jogos Vorazes justamente por essa subutilização já nesse, que era justamente sobre mídia.

    Mas acho que o mais interessante está fora dos limites dramáticos de Esperança. Como um filme desse tamanho, com o público super teen que tem, é audacioso a ponto de fazer de seu capítulo final um filme tão político? Só pela coragem o filme já é digno de um olhar diferenciado. Sério, avaliem o que tem de realmente comercial no filme…

    E, poxa, cara… É fácil falar que eles dividiram por dinheiro… Claro que esse foi um dos fatores e é evidente que a divisão atrapalha o enredo como um todo. Uma sensação de incompletude fica… Mas ao pensar que os caras usaram um dos filmes da série pra desenvolver quase que exclusivamente seus temas não comerciais, a parte das razões comerciais fica um tanto contraditória e me faz pensar no quanto eles resolveram apenas em serem respeitosos com a obra.

    E sobre a linha final: Não acho que seja um SW. A Saga de George Lucas preza pela diversão. Qualquer pano de fundo político é pano de fundo. Não aqui. E isso é do caralho num blockbuster. Isso é do caralho como formação de leitores e cinéfilos.

    E um último adendo: Música – Melhorou bastante em relação aos demais. Em específico, quero comentar sobre The Hanging Tree, cantada pela Jeniffer Lawrence, que é melhor que The Misty Mountains Cold! Não a música em si, mas a forma como ela é inserida, o emprego dela e a sequencia que ela gera.

    Nota: 8/ 10.

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