Amor Sem Escalas, Jason Reitman e George Clooney

Por Matheus Araujo

Em seu ano de lançamento, 2009, Amor Sem Escalas fez um enorme barulho. Certamente não com o grande público, apesar de seu sucesso nas bilheterias, todavia com a crítica especializada, nas premiações e no pensamento dos cinéfilos, nos quais sua presença foi além de bem-vinda. Prova disso é tida ao contemplar a lista de seus rivais no Oscar seguinte: o arrebatador Guerra ao Terror; o regresso do monstro James Cameron; Tarantino arregaçando o mundo com Bastardos Inglórios; Blomkamp aparecendo com o bombástico Distrito 9; e a Pixar com nada menos que Up. Qualquer menção num ano desses é muito mais significativo que a vitória em tantos outros.

E mesmo com concorrência acirrada, o filme de Jason Reitman destacou-se e foi indicado a seis prêmios, feito ainda mais expressivo ao se olhar em quais categorias: Melhor Filme; Melhor Diretor (Jason Reitman); Melhor Roteiro Adaptado (Jason Reitman e Sheldon Turner); Melhor Ator (George Clooney); e por duas vezes em Melhor Atriz Coadjuvante (Vera Farmiga e Anna Kendrick). Sei que por aqui e por muitos outros lugares não se valoriza tanto a premiação da Academia, mas pensem bem no reconhecimento através dessas indicações e não só no vencer, que deveras é política antes de qualidade.

Tanto por Melhor Filme, Diretor e Roteiro, o nome Jason Reitman se repete. Antes de propriamente falar sobre ele, esclareço para alguns a certa familiaridade de seu sobrenome. O rapaz é filho de Ivan Reitman, o responsável pela saudosa franquia Os Caça-Fantasmas. Curiosidade dita, voltemos ao garoto de Ivan que chama bastante atenção desde que estreou nos longas-metragens. E não somente por sua qualidade, mas pela capacidade em transformar seus baixos orçamentos em grandes bilheterias. Por exemplo, Juno (2007), seu segundo longa, que venceu o Oscar de Melhor Roteiro, além de ser nominado por filme, direção e atriz, e multiplicou seu orçamento de 7,5 milhões em 31 vezes. Meus caros, é ou não é potencial para se tornar o cara mais querido do estúdio?

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Além de encantar todas as audiências, Reitman tem como suas principais características: saber escolher uma história, já que a maioria de seus filmes origina-se na literatura; escalar e dirigir um bom elenco; e ter um ótimo dedo para escolher trilha sonora. Nesse último aspecto, inclusive, apesar de não chegar perto de ser despirocado como Tarantino, compreende com maestria do mesmo o diálogo entre música e imagem. E falando em imagens… Como esse cara é bom com as câmeras! Não sei se a comparação é válida, mas quando feita em relação a outro diretor de sua “geração” também elogiado pela forma de filma, Tom Hooper (O Discurso do Rei e Os Miseráveis), Reitman ensina sutileza e uma comunicação efetiva, além de anos-luz mais contemporânea.

Contudo, antes das melhores qualidades de Jason Reitman, a sinopse de Amor Sem Escalas:

Pela pior profissão do mundo, Ryan Bingham (George Clooney) praticamente mora em aeroportos. Qual é ao certo a nomenclatura da profissão de Bingham não sei dizer, nem mesmo os próprios personagens chegam a ser unânimes quanto a isso, mas terminator com certeza é uma opção válida. Ryan Bingham trabalha para uma companhia responsável por demitir. Como sabem, a demissão é algo desgastante, por consequência, compreensível é a existência de tal trabalho. Pessoas se acabam verdadeiramente nessas situações. Não somente o demitido, que estará com os nervos à flor da pele e à porta de uma grande depressão, mas o portador da mensagem também. E preciso mencionar como o mercado de demissões estava em 2009? Um prato cheio para nosso querido Ryan! No entanto, por que ele mora em aeroportos?

Bem, você pode imaginar que demissões não ocorrem com alta frequência na mesma região por um longo tempo. Esse é um mercado de momento e área muito extensa. Para enfrentá-lo, portanto, é necessário cruzar milhas e milhas de terras rapidamente. Pronto. É por isso que Ryan não deixa aeroportos. Mas estes não são todos seus motivos. São somente nos impressionantes 250 dias por ano que fica longe de casa que Ryan se sente verdadeiramente em um lar. Aliás, ele tanto quer se distanciar de sua vida sob as nuvens que possui uma louca obsessão, na verdade, sua única grande meta: tornar-se o sétimo homem a viajar 10 000 000 de milhas (para efeito de comparação, entre a Terra e a Lua são apenas 240 mil delas). Por quê? Ryan odeia se apegar. Ele é um sujeito de bagagem mínima, não mantém vínculos com absolutamente nada, não se relaciona. E é tão determinado quanto a isso que se aproveita de sua cobertura territorial para disseminar ao longo de seu trajeto, através de palestras, toda sua filosofia sobre como diminuir a bagagem – sobre como é bom viver sozinho.

No entanto, a bem sucedida e vazia vida de Ryan se abala quando este conhece Natalie Keener (Anna Kendrick). Natalie pretende revolucionar o mercado das demissões, realizando o trabalho dele com apenas vídeo-conferência, algo que o emputece absurdamente, já que acredita que a demissão é um momento bastante pessoal, bastante caloroso, tudo o que o sistema que Keener não pretende ser. Posto o conflito, a solução dada pela companhia de demissões é que ambos viajem juntos por algumas semanas com o propósito de adaptar o sistema da personagem de Kendrick ao que, de fato, é uma demissão, o que consequentemente colocará em processo de mudança Ryan e seus tão absolutos valores.

E é com esse roteiro de proposta inusitada e deveras interessante (espero ter deixado isso claro pela sinopse mais explicativa de todos os tempos), o momento no qual Reitman mais brilha. Apesar de certos elementos e propostas clichês (como a desconstrução do homem sem sentimentos), o roteiro não é, de forma alguma, previsível. Todo o enredo e suas decisões são extremamente fortes, não optando jamais pelo destino fácil. Entre todas as situações e ótimos diálogos dois merecem grande destaque (ambos contracenados por Clooney e Kendrick): no primeiro, Ryan, revoltado pela proposta de Keener, impõe a ela a tarefa de demiti-lo para testar as habilidades da moça; já noutro, Ryan pede a ela, para que venda para ele a impensável ideia de se casar em uma das interações e linhas de diálogos mais chamativas de todo o filme.

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George Clooney é um dos grandes nomes da contemporaneidade cinematográfica. Não por seus prêmios da Academia (aliás, um deles ele nem é por atuação, mas por Melhor Filme com Argo) ou infinidade de indicações em diferentes categorias (um por direção, dois por roteiro, quatro por atuação e um por filme), mas por seus projetos. Perceba que nenhum deles, nestes últimos anos, configura-se como um blockbuster, aquele tipo de filme formatado para abarrotar as salas. Talvez, o último que ele tenha integrado nesse “estilo” seja Treze Homens e um Novo Segredo de 2007 (o que já pode ser considerado como um bom tempinho atrás). E mesmo que há anos afastado do cinema de grande público, George Clooney foi um nome que não se perdeu, aliás, é um nome que só ganha força na indústria, um feito bastante impressionante. Contudo, sua participação em Amor Sem Escalas se reduz mesmo à dramatização. Pois é, hoje estou escrevendo sem foco…

Sua interpretação como Ryan não é insubstituível, mas proporciona ao personagem um carisma, uma presença, que poucos atores fariam igual. Clooney, não apenas é um cara que conduz a película com facilidade, ele é igualmente decisivo em toda aquela sua sisudez descolada ou momentos de grande tensão.

Suas parceiras, Anna Kendrick e Vera Farmiga, desempenham algo semelhante em cena. Nada de proporções fenomenais. Elas estão em sintonia com o filme e o protagonista. No entanto, confesso que se o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante de 2010 tivesse ficado entre as duas, não possuo dúvidas em dar o “careca dourado” à Kendrick, visto que a atuação de Farmiga é certamente mais pontual.

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A obra de Reitman é, claramente, mais presente em elementos humanos do que técnicos. Entretanto, como dito, o filme também possui méritos em fazer desses fatores elementos discretos. Aliás, adjetivo certeiro esse tal “discreto” para descrever Amor Sem Escalas, um filme com ausência de ação, pirotecnia, trabalhosos efeitos visuais ou sonoros, ou qualquer outra coisa que normalmente nos faz colar na cadeira. Afinal, não passa de um filme discreto, aquela bela obra de arte com cores frias, não tão atrativas, mas com bastante a ensinar, agraciar e somar aos espectadores.

Amor Sem Escalas de Jason Reitman. Guarda esse nome aí porque ainda vai render muito.

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2 comentários sobre “Amor Sem Escalas, Jason Reitman e George Clooney

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