Marco Polo

“Netflix cria sua versão Oriental de Game of Thrones”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Se não me engano, foi no ótimo e ultra recomendado História do Mundo para as Crianças, de Monteiro Lobato, que li o nome de Marco Polo pela primeira vez. Deste então, foi difícil esquecer o nome do famoso mercador veneziano, já que ele foi o responsável por fornecer por longo tempo as únicas informações sobre China, a Rota da Seda e as maravilhas e mistérios do Oriente para a civilização do Ocidente.

Eis que, então, anos mais tarde desse primeiro contato, a Netflix surge com sua nova série original, retratando aqui um trecho da vida de Marco. Estrelada por Lorenzo Richelmy, a temporada de 10 episódios mostra como ele chegou, se adaptou e até mesmo, transformou a corte de Kublai Khan (Benedict Wong), durante o século XIII.

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Nesta temporada, Kublai e o Império Mongol estão em pé de guerra contra um dos últimos bastiões de resistência na China, a cidade murada de Xiangyang, lar da dinastia Song, e comandada com mãos de ferro pelo Chanceler Jia Sidao (Chin Han), que tenta usurpar o trono do Império Chinês. Enquanto isso, Marco é ‘dado de presente’ pelo pai, Niccolò (Pierfrancesco Favino), à corte de Khan, a fim de garantir o comércio pela Rota de Seda. Cativo, mas sempre tido como convidado, Marco passa a aprender mais sobre os costumes mongóis e a cultura deste povo, ao mesmo tempo em que se torna cada vez mais um homem de confiança do Khan e ganha espaço em sua corte.

Saber pouco sobre o personagem título torna-se uma vantagem para o espectador, e permite aos roteiristas uma liberdade criativa para romantizar e fantasiar a história. Apesar de essas liberdades poderem criar certos erros históricos, que talvez faça um historiador se horrorizar em cada cena, a série não foge dos aspectos primordiais mais fundamentais para o background da trama e dos personagens.

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O roteiro, escrito por várias mãos, mas sempre com a presença de John Fusco, pode não ter dragões e mortos vivos ao seu dispor, mas sabe criar bem o clima de Game of Thrones. A política, seja mongol ou chinesa, é muito mais do que mero plano de fundo e ganha profundidade a medida que as intrigas, planos e conspirações vão sendo apresentadas, mostrando um leque abrangente de interesses, que possibilita o surgimento de interessantes subtramas no plot principal. As subtramas também permitem o desenvolvimento de alguns personagens chaves e, mesmo que feito, talvez, de forma desbalanceada (Marco, obviamente, tem muito mais tempo em cena do que os personagens secundários), esse aprofundamento acrescenta a obra. Tudo isso acrescido e temperado por um novo ângulo da temática feudal, que é justamente a presença da cultura oriental.

A direção múltipla não chega a ser espetacular, mas faz um trabalho competente e que dificilmente erra. Aproveitando-se da ótima ambientação e de algumas belas tomadas da paisagem do Oriente, a direção se destaca não apenas pela fotografia, mas com a capacidade de ‘encher’ um episódio. Das poucas séries que assisto, são menos ainda as que conseguem abordar tantos acontecimentos em uma única hora, sem perder a mão e deixando tudo com um bom ritmo. Pelo lado negativo, fica a direção das cenas de batalha, que confesso estar decepcionado, sobretudo porque as cenas de duelo mano-a-mano possuem ótima qualidade. Esperava bem mais delas, mas o resultado é apenas mediano, evidenciando que muito pode melhorar.

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As atuações, de forma geral, estão agradáveis. Richelmy consegue transpor um personagem fácil de possuir simpatia, e desenvolve uma ótima química ao lado de Benedict Wong, transmitindo toda a cumplicidade que a relação deles (chave para a série) exige; Chi Han também se sai bem no papel do insuportável mas astuto chanceler chinês, tornando-se a face ideal para de um antagonista para a temporada. Outros destaques poderiam ser Tom Wu na pele de Hundred Eyes, o monge cego e instrutor de Polo (sempre tem um desses, né?); Claudia Kim como a divertida guerreira mongol Khutulun; e Joan Chen, a Imperatriz Mongol Chabi, que forma um par a altura do Khan e possui boa independência na trama.

Por fim, talvez o maior trunfo da série esteja em sua direção de arte: o rico vestuário, as construções, o cuidado na representação de cada cultura, tudo isso acrescenta e proporciona uma atmosfera única à série. Combinando muito bem com esse clima, a boa trilha composta por Eric. V. Hachikian e Peter Nashel.

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Marco Polo possui um satisfatório começo, mantendo a qualidade atribuída à Netflix e se revelando uma boa pedida para quem procura algo um pouco diferente, mas ainda dentro de uma temática popular. O cliffhanger para a segunda temporada permite pensar que, daqui para frente, a série tem tudo para se tornar cada vez melhor.

Nota: 8/ 10.

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