[FORA DE SÉRIE] A Entrevista: afinal, valeu a pena?

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Para quem acompanha o mundo da cultura pop com certa frequência, certamente deve estar sabendo de toda confusão criada por A Entrevista, novo filme de James Franco e Seth Rogen e que virou caso de atrito de diplomacia internacional e ameaça de vidas civis. O longa, que consistira “apenas” em uma comédia no qual o plot levaria a morte do líder da Coreia da Norte, Kim Jong Un, tinha data de estreia de lançamento em todo território estadunidense no último dia 25 de Dezembro, sendo posteriormente lançado em outros países ocidentais (obviamente, o longa passaria longe de qualquer país asiático). Contudo, isso não ocorreu.

A partir do fim de Novembro, hackers invadiram o banco de dados e e-mails da Sony, produtora do filme, e começaram uma liberação em massa desses dados. Por um mês, o estúdio viveu um calvário, com sucessivos desastres ocorrendo um após o outro: e-mails sigilosos que revelavam porcentagem de salários de atores em filmes; comentários racistas envolvendo o presidente Barack Obama; insatisfação de altos executivos com nomes como David Fincher, Leonardo DiCaprio e Angelina Jolie; futuros planos do estúdio com suas franquias, tais como o Homem Aranha; e até mesmo o vazamento de filmes ainda em cartaz na rede, como foi o caso de Fury (Corações de Ferro, que chega por aqui em Fevereiro).

The interview 4

A história chegou a um ponto que os hackers se transformaram em terroristas e ameaçaram ferir pessoas que fossem assistir o filme, caso ele não fosse cancelado. Somando-se isso tudo, a pressão levou que a Sony cancelasse a estreia do filme, faltando 1 semana para o lançamento do mesmo. A decisão levou a discussões sobre a liberdade de expressão e a possibilidade de, no futuro, filmes poderem ser censurados por não agradarem certos públicos (uma discussão bem interessante, aliás, mas que não é o foco aqui). Dias depois, a Sony voltou (um pouco) atrás, e lançou o filme em circuito limitado por lá, além de divulga-lo online, em plataformas como Google Play, Xbox Video e YouTube.

Passado, ao menos o ápice, dessa confusão, e com o filme na rede, fica a pergunta: valeu a pena esse barulho todo para lançar A Entrevista?

A resposta é simples: não.

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Apesar de ter um orçamento modesto (“apenas” 42 milhões de dólares), o filme pouco fez na bilheteria doméstica: cerca de 5 milhões nos 10 primeiros dias em cartaz, e sairá do circuito com menos do dobro disso. O rombo é diminuído pelo dinheiro conquistado em serviços On Demand e de Streaming que a Sony negociou, que conseguiram bons 15 milhões no primeiro fim de semana do filme disponível, mas ainda incapazes de gerar qualquer lucro. Contudo, a questão vai além da monetária: a imagem da Sony está profundamente arranhada e desgastada após o vazamento, e o quanto isso prejudicou o estúdio a curto, médio e longo prazo, não pode ser posto em cifras.

Porém, o que mais me incomoda nesta história é a qualidade do filme. Pretendia, sim, ver o filme, mas sem grandes expectativas. Entretanto, o buzz criado pelo caso levou o status do filme lá no alto, como se ele fosse ser a comédia do século, algo que ele nunca almejava ou queria ser. A expectativa vinha mais por bons trabalhos que já tinha visto de Rogen, como no ótimo This is the End (2013) e Vizinhos, do ano passado.

É, nem todos foram só risadas...
É, nem todos foram só risadas…

O resultado é deprimente. Em seus longos 110 minutos (que comédia longa!), o filme conseguiu me entreter, mesmo, nos primeiros 10 minutos, que consistem basicamente em uma ótima entrevista com o Eminem, rendendo uma excelente piada com o Spike Lee. Se o filme todo fosse nessa vibe, o estrago causado ainda seria irreparável, mas pelo menos teria valido a pena.

Mas não é o caso. James Franco, afetadíssimo, cheio de caras e bocas, empolga nesse começo, mas a partir do momento que você percebe que ele ficará 1h50 daquele jeito, sem desacelerar, sem propor o mínimo de uma variação no tom da sua interpretação, seu personagem logo fica insuportável e desinteressante.

Seth Rogen;James Franco;Lizzy Caplan

Seth Rogen (diretor, roteirista e ator) está longe de seus outros trabalhos. Seu personagem tem muito menos destaque que o de Franco, mas mesmo em seus momentos, as situações FORÇADÍSSIMAS criadas pelo roteiro deixam todo o humor difícil de ser engolido. As piadas não fluem, a sensação de vergonha alheia predomina com facilidade, e isso me tira do sério porque eu sei que ele é capaz de produzir e escrever algo bom. Decepcionante.

Por fim, a conclusão é que o filme fez muito barulho por nada, e mais fez mal do que bem. Quem sai perdendo nessa história toda, além da Sony, claro, é a própria dupla protagonista da obra, que não precisavam ter isso no currículo. Que ideias mais interessantes (e menos desastrosas) possam surgir no futuro.

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