[FORA DE SÉRIE] Capitão Phillips (Filme&Livro)

“Paul Greengrass nos entrega ótimo suspense baseado em fatos reais, com ação, tensão, e claro, Tom Hanks”

Por Luís Gustavo Fonseca

Filmes com histórias baseadas em fatos reais geralmente são interessantes. Claro, você sempre vai ficar com um pé atrás em relação àquele Exorcista Segunda Parte Final-baseado-em-fatos-reais-com-momentos-exclusivos-nunca-antes-mostrados-ou-relatados, mas o gênero se destaca pelo próprio choque que ele estabelece com as demais histórias: enquanto as outras são imaginadas, em mundos fantasiosos ou utópicos, onde as leis e regras ficam a demanda de seu autor, as histórias reais ficam trincadas ali, naquele fato específico, naquele período único, que, de fato, ocorreu. O momento onde, curiosamente, “a arte imita a vida”.

Confesso que eu não lembro o caso específico que o filme se baseia, ocorrido em 2009, mas estou a par do tema: se antes se tinha na mente a imagem dos piratas com suas bandeiras de caveira, embarcações únicas e mirabolantes, trajados com seus chapéus alegóricos e suas espadas sedentas por sangue, enquanto tocavam o terror em mares caribenhos ou no Oceano Atlântico. Hoje, essa romantização vem por água abaixo: o “Triângulo das Bermudas” do século XXI é a costa Africana, mais especificamente, na costa da Somália, onde vários somalis, na luta desesperada pela sobrevivência, se armam de AK-47 e lanchas para assaltar grandes cargueiros. E mesmo nas campanhas de maior sucesso, a descrição que antes havia, some, já que hoje a mídia e as instituições militares ficam sabendo destes ataques quase que imediatamente, deixando a possibilidade de uma fuga discreta quase igual a 0.

930353 - Captain Phillips

A história conta o rapto do Capitão Richard Phillips (Tom Hanks), depois que o navio Maersk Alabama é abordado por 4 piratas Somalis. Claro, como boa parte desses filmes com bases reais, existe uma dose de fantasia na trama, mas toda e qualquer alteração foi feita para sintetizar uma história que ocorreu em 5 dias em duas horas de filme. E claro, torná-la ainda mais interessante para o telespectador.

O próprio Richard Phillips escreveu o livro na qual o filme é baseado. Mesmo sem a urgência do filme, o livro ainda consegue transmitir os momentos de tensão que houve no caso. Cada minuto do rapto do capitão é bem sentido e explorado, tornando a leitura quase angustiante. A obra se beneficia também por explorar os pensamentos de Phillips, seja ele relembrando de outras histórias presentes em sua carreira (algo que não caberia no filme, já que nenhuma delas está relacionada à pirataria, mas que é algo sempre bom de ler), seja em diversas observações sobre o caso do próprio capitão, que permite o leitor perceber que, em dados momentos, toda a história poderia ter sido diferente. O livro transcorre muito bem até o momento em que ele se torna refém dos piratas somalis, o que torna o desenrolar da trama mais lenta e arrastada, por vezes cansativa. Algo que acho que agrava essa sensação é, em momentos do relato, ele conta como a família dele estava lidando com a situação. Outro exemplo de algo que não daria para por no filme, mas na edição do livro, não me agradou.

930353 - Captain Phillips

A adaptação desta história ficou a cargo de Bill Ray (Plano de Voo, Jogos Vorazes), que conseguiu tornar a história bastante apreensiva (como se já não fosse), dando um ótimo ritmo ao filme, balanceado bem os momentos de tensão com os de ação, além de pequenas reflexões. Porém, destaco a humanização que o roteiro dá para o Capitão Phillips: nada de tentar mostrar ele como um herói, inigualável, mas pelo contrário: um cara comum, com desejos comuns, que em uma situação tão incomum como essa, tenta fazer o certo (e o arriscado), e acaba se dando mal. Mais: o trabalho com os piratas somalis também é ótimo, pois além do trabalho para caracterizá-los como antagonistas, procura mostrar também suas falhas, medos e aflições. Dessa forma, consegue expor que eles são, além de tudo, humanos, sujeitos as escolhas erradas na vida (ou, no caso, a situação na vida os obrigou a estas escolhas erradas).

Boa parte do crédito nesta adaptação também cabe ao diretor, Paul Greengrass (amo esses sobrenomes americanos… Grama Verde). Se você me perguntasse quem é Paul Greengrass, eu não saberia te responder. Para isso, inventaram sites como o IMDb. E a minha grata surpresa em saber que ele é o diretor de Zona Verde e United 93 (dois filmes que eu gosto) e, como o trailer já destaca, dos dois últimos Bourne (Confession Bear: nunca vi a trilogia Bourne, acho que só vi partes do Ultimato Bourne… Aliás, toda vez que eu vejo esse filme, eu só pego ele numa mesma parte). O diretor, além de contribuir com essa distribuição no balanceamento e do ritmo (calmo, agitado, tenso com estabilidade e novamente agitado… É só eu ou é uma característica dele? O United 93 é bem assim também), não procurando fazer do filme um discurso contra o capitalismo, ou mostrar a realidade africana com um teor humanitário, mas concentra-se em apenas mostrar aquela história, com uma movimentação rápida das câmeras, mas que nunca fica perdida.

O verdadeiro Phillips
O verdadeiro Phillips

O filme ganha um tempero especial pelas atuações. Por um lado, Tom Hanks. Que cara EXCEPCIONAL! Você pode pedir para ele fazer qualquer coisa, QUALQUER COISA, que ele faz, e fica bom: voz de brinquedo? Done. Professor que descobre tramas iluminatis? Done. Cara que corre pelo país? Done. Contracenar com uma bola? Done. Vários papéis num mesmo filme? Done. Estrangeiro perdido no Aeroporto? Done. Um ator muito fora de série. Aqui, não é diferente. Outro grande trabalho, um dos melhores dos últimos anos. A cena final do cara é SENSACIONAL!

E por outro, a revelação, a grande surpresa: Barkhad Abdi está muito, MUITO BEM no filme, o que lhe rendeu a indicação à melhor Ator Coadjuvante no Oscar de 2014. A estreia dele no cinema, o cara contracena de cara com o Hanks (ok ok, o Hanks deve ter uma aura em volta dele que até o Ryan  Rynolds deve atuar bem do lado dele… Ou não), e segura as pontas de forma ótima. Ao mesmo tempo em que é ameaçador, e que ter autoridade, ele tem seus receios e fraquezas. Algo meio “Zé Pequeno”. Aliás, pelos 4 piratas, destacando também o Barkhad Abdirahman, que é mais “locão”, e também destacando-o. O fato de eles serem somalianos deixa o filme ainda melhor, já que o sotaque deixa tudo mais crível.

captain phillips 2

Henry Jackman comanda a trilha, e novamente está em ótima forma, assim como outros trabalhos de 2013, como Detona Ralph e G.I Joe: Retaliação. A trilha casa perfeitamente com as cenas de ação e tensão, e muitas vezes, serve para sufocar o espectador, pois ela se desenrola em um ritmo alucinante. Ótimo trabalho.

Captão Phillips tem cara de filme de Oscar, mas ao contrário de muitos dos filmes “cults” que costumam caracterizar a seleção, esse eu curti. Excelente história, ótimo ritmo e interpretações sensacionais. Bastante recomendado.

Nota do Livro: 8/ 10.

Nota do Filme: 8,5/ 10.

Anúncios

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s