[FORA DE SÉRIE] 12 Anos de Escravidão (Livro&Filme)

“História real filmada por Steve McQueen choca, emociona, e nos apresenta um ‘filme de Oscar’ que vai além do comum”

 

Por Luís Gustavo Fonseca

(Colaboração no texto: André Luiz)

Todo ano, a história se repete: vem a temporada de premiações, surgem os “filmes do Oscar”, e fica aquela sensação: que esses filmezinhos “cabeças”, muitas vezes, são muito barulho por nada.

Pode reparar: a estrutura desses filmes, quase sempre, são iguais, tem o mesmo tom, a mesma dinâmica, e acabam virando algo repetitivo. Três exemplos que me vêm à cabeça dos últimos anos: Argo, Lincoln e O Artista.

Os três filmes são muito bons, cada um deles tem características especiais únicas, porém é difícil vê-los na lista de favoritos ou mesmo de filmes memoráveis das pessoas. De certa forma, é como se eles tivessem sido feitos só para ganhar a estatueta, e segue o jogo. Não ‘agregam valor ao camarote’.

12 anos 1

Com 12 Anos , porém, foi diferente. A trama, baseada em um fato real, conta a história de Solomon Northup (Chiwetel Ejiofor), um negro livre que é sequestrado no nordeste americano e levado para o sul, onde, depois de brevemente ser escravo de Ford (Benedict Cumberbatch), ele acaba caindo nas garras do vilanesco Edwin Epps (Michael Fassbender), e passa 12 longos anos longe de sua família.

Fazer diferente, falar das atuações primeiro. A sensação que o filme transmite é que o elenco não poderia ser melhor. Chiwetel Ejiofor (O Gângster) está muito bem, carrega o filme tranquilo, e demonstra talento durante as 2 horas de filme. Outro ator que se destaca muito bem é Fassbender, talvez o melhor ator desta ‘nova geração’. Ele tem meio que uma cara de filho da puta do mal, e encarna o personagem de tal forma, que é um prazer para os olhos.

Film Review 12 Years a Slave

Outro trabalho muito bom é da Lupita Nyong’o, que não à toa, levou a estatueta de Melhor Atriz Coadjuvante, sobretudo por ser o primeiro filme dela (mas que acabou sumindo depois disso). Mostrou personalidade em uma personagem interessante. O filme ainda tem outras boas atuações, mesmo que elas não tenham o mesmo destaque das demais. É o caso do Cumberbatch, Brad Pitt nas duas cenas que aparece, Paul Dano (com um personagem um pouco mais marcante), Paul Giamatti, e a sumida e impronunciável Quvenzhané Wallis.

A direção de Steve McQueen (Shame) também é outro ponto positivo do longa. A fotografia dele é muito bonita, várias vezes usando uma câmera estática que fazia parecer um quadro a imagem em tela, e vale destacar o curioso modo com qual é trabalhada a violência: crua, poderosa e nunca escondida, mas quase nunca há a presença de sangue. Talvez o ponto máximo da direção de McQueen seja o plano sequência presente em um dos momentos dramáticos da obra, onde sua competência é posta a prova.

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Aqui, vale fazer alguns comentários sobre o livro. Como obra, possui um valor inestimável, dado ao nível de raridade que é encontrar um relato de um negro sobre a escravidão, o que torna 12 Anos um livro único. É de se espantar que algo tão valioso como isso, rico em detalhes e preciso em diversas informações, já não estivesse na grade curricular obrigatória dos EUA até o sucesso do filme, já que trata o tema por um olhar diferente do que nos livros de história. Entretanto, apesar de sua preciosidade e esmero nos detalhes, o livro não é um primor. Ele é, em sua maior parte, um livro descritivo, e a falta de diálogos pode incomodar. Sobretudo, a direção de McQueen faz algo que o livro não obteve sucesso completo em transmitir: a dor dos escravos. Ver e ouvir o som das chibatadas, em tela, é bem mais chocante que a leitura das mesmas na obra original.

O roteiro assinado por John Ridley também é outra qualidade do filme. Proporciona bons diálogos, o filme não cansa (apesar de que poderia ser 10 minutos mais curto) e, mesmo que talvez ele tenha pintado os brancos de forma exageradamente diabólica, era um retrato da época e uma realidade. Incomoda o telespectador, e é impossível não se sentir envergonhado com as atrocidades que um humano faz a outro.

12 anos 3

A trilha sonora coroa o filme. Trilha esta composta por um dos grandes maestros de Hollywood, Hans Zimmer, que se encaixa muito bem com a trama. O destaque fica para a ótima edição em dado momento, em que a música está nas alturas enquanto é mostrado o motor de um barco vapor, mas quando corta para dentro do barco, ela emudece. Cria-se meio que a sensação de sufocação que o Steven Price fez em Gravidade, apesar de ser em uma escala BEM menor.

O figurino do filme está OK, mas a maquiagem do filme não possui o mesmo brilho, pois é quase imperceptível perceber que 12 anos se passaram no filme. Só no final mesmo que fica perceptível alguns fios brancos no cabelo do Ejiofor. Aliás, no filme, as referências a passagem de tempo são mínimas, o que provavelmente tira um pouco da força da trama, já que notar a dor do personagem com o passar dos anos é um dos pilares chaves da obra.

Escrituras sagradas eram tidas como justificativas para  as atrocidades humanas
Escrituras sagradas eram tidas como justificativas para as atrocidades humanas

Apesar de parecer, 12 Anos de Escravidão é muito mais do que um filme de Oscar, que não se resume a estatue de Melhor Filme que conquistou ano passado. Mostrando uma faceta cruel e real da escravidão, com um drama convincente e um protagonista cativante, 12 Anos conseguiu ficar facilmente gravado na mente das pessoas.

Nota do Livro: 8/ 10.

Nota do Filme: 9/ 10.

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