A Teoria de Tudo

Por Matheus Araujo

Stephen Hawking é um dos mais conhecidos físicos do século XX, mas desconfio que isso se deva muito mais à sua condição que a seu trabalho. Ainda mais triste é constatar que a curiosidade a seu respeito morra para nada além de sua exótica imagem tão propagada pela produção popular cultural. É por essas e outras razões que A Teoria do Tudo é tão bem vindo.

O longa-metragem é baseado no livro Travelling to Infinity – My Life with Stephen, escrito pela ex-mulher de Stephen, Jane Hawking, e, como sugere o movimento anti-horário do gênio britânico logo nos créditos iniciais, se trata de uma viagem no tempo aos principais acontecimentos de sua nada ordinária vida. Considero o físico britânico uma figura interessante, mas o filme de fato me conquista por sua proposta de ser uma biografia erguida da ótica de sua antiga conjugue, o que é um exercício interessante por mais que possam existir ressalvas. A visão de Jane, ao mesmo tempo em que não exclui uma vida dedicada à ciência, permite um filme mais humano – a meu ver, algo complicado de se atingir por outro ângulo.

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Para além de uma biografia de Stephen Hawking, a esta altura, o filme também chama atenção por suas cinco indicações ao Oscar, em importantes categorias: Melhor Ator, Melhor Atriz, Melhor Roteiro, Melhor Trilha Sonora e Melhor Filme. E, adianto, eu as julgo corretíssimas, sobretudo, devido à habilidade do filme em ser notável. Ele pode até não ser excepcional, mas sabe se expor e ser reconhecido por suas inegáveis qualidades. Mérito do diretor James Marsh que sabe como ressaltar/ explorar/ exibir seus elementos fortes, mas que pelos mesmos motivos, também acaba exagerando.

Existem duas distinções visuais de Marsh que muito significaram para a história: devido à esclerose lateral amiotrófica (a mesma doença degenerativa do desafio do balde de gelo), o diretor evidenciou a percepção dos movimentos, o que além de beleza, agregou dramaticidade; e, além disso, ele conseguiu tratar o tempo, a passagem dele, de uma forma que há tempos não me agradava tanto. Existem maneiras várias de como Marsh articula com este segundo, para mim, destacam-se: a cena inicial já citada; Jane subindo escadas tal qual um ponteiro percorre um relógio; a inversão das cenas; e até o próprio flashback total, retornando a “gênese”, que diferente de seu uso em tantas outras obras, não a torna burra. Pelo contrário, considero a direção de A Teoria de Tudo bastante inteligente. Sobretudo, em minha cena preferida do filme, que comentarei a seguir.

A cena em questão é aquela em que o gênio tem a ideia que o tornou famoso, que consiste, broncamente, na vaporização, na dispersão da matéria de um buraco negro. Não entrarei em detalhes, mas, nela, Jane está vestindo um agasalho em Stephen, que já possui seus movimentos bastante limitados. Todavia, antes que termine de colocar seu suéter, ela acaba saindo de cena e o larga com o agasalho por vestir, preso aos braços. O físico, na investida de passar sua cabeça pelo buraco, acaba se prendendo no suéter. É nesse momento de imobilização que Stephen percebe a irradiação térmica do fogo em sua lareira e a associa com a possível dispersão da energia de um buraco negro. O diretor retrata o instante de iluminação na reflexão das brasas em seu olho, emulando um buraco negro com sua pupila e o reflexo das chamas. Meu amigo, isso é cinema. Achei que tínhamos chegado a um definitivo quanto ao fenômeno em Interestelar, mas a criatividade se provou superior outra vez e o reinventou em cerca de três meses.

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Todavia, melhor que uma excelente direção é uma excelente direção acompanhada de todo o resto. Coerente com o título, considero A Teoria de Tudo uma obra completa e, antes de mencionar o mais chamativo dos fatores de uma biografia, aproveito para comentar componentes importantes dessa totalidade: a fotografia é corajosa e brinca sem medo com diversos matizes, além de atender as minhas preferências pessoais, e ser bem iluminada; a música de Johann Johannsson caracteriza bem a obra, tornando-se marcante. Deveras que mais pela repetição, mas a composição também possui diversas variações e passagens fantásticas. Aliás, adoro o principal instrumento da trilha, o piano, ter participação literal na trama; e, por fim, cito um cuidado e um respeito por parte da direção e do roteiro ao tratar do caso extraconjugal do filme.

Enfim, vamos ao mais badalado de uma biografia: os intérpretes.

Stephen Hawking está eternizado no cinema. Que atuação soberba! Jamais pensei que Eddie Redmayne, a quem fui apresentado n’Os Miseráveis, pudesse tal feito. Seu trabalho contempla com primor todos os desafios corporais e vocais de Stephen Hawking. É fabuloso vê-lo explorando cada vértice, cada trejeito, à medida que seus recursos se limitam e, literalmente, vai se perdendo o controle.

Tão forte quanto Hawking como personagem, temos a própria Jane. Imagine-se na posição da garota que em seus vinte e poucos está com o amor fadado ao fracasso pela perspectiva de vida de seu parceiro ser de dois anos devido a uma completa degeneração motora e ainda assim persistir ao seu lado. Hawking, obviamente, não morreu dois anos após ser diagnosticado, o que estendeu de certa forma o sofrimento de Jane por muito mais tempo. A deterioração física e mental dela se compara a de Hawking e o olhar apaixonado da origem se esfacela com o cansaço. A interpretação de Felicity Jones não tem a mesma força que a de seu colega, em especial, porque lhe exigia uma química com ele muito especifica, a qual Redmayne não podia devolver claramente. Ainda assim, estamos diante de um belo trabalho.

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Teoricamente, Stephen Hawking não poderia render um filme ruim. Mas jamais imaginei tamanha excelência. Fechar sua história em torno de seu relacionamento com Jane foi fundamental para esse sucesso e o roteiro habilmente soube conduzir um enredo, sem grandes chances de clímax, a um fechamento altamente satisfatório, num paralelo à própria busca da teoria de tudo. Uma breve história do tempo.

Nota: 8/ 10.   

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17 comentários sobre “A Teoria de Tudo

  1. Gostei muito da sua análise. Achei excelente o papel de todos.
    Mas o ator principal, sem dúvida emocionou, como pode ele fazer tão certinho os movimentos que aos poucos vão se tornando mais difíceis, as expressões de agonia quando queria dizer algo, ou de satisfação, quando do seu jeito sorria
    O ultimo filme que ouvi muitas pessoas chorarem como esse, foi o “A culpa é das estrelas”, mas esse pra mim superou

    1. Obrigado por seu elogio, Ana.

      O trabalho de Eddie Redmayne é realmente impressionante e espero que, como você está dizendo, tantas pessoas tenham a oportunidade de se comover com A Teoria de Tudo assim como se comoveram com A Culpa é das Estrelas, que foi o recordista de público do nosso país de 2014.

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