[REVIEW] Nebraska

“De Billings até Lincoln, a relação de pai e filho é reconstruída em cima de um falso prêmio”

 

Por Luís Gustavo Fonseca



Tenho uma queda por filmes de relação entre pais e filhos ou entre casais velhos. Não sei a quanto tempo gosto disso, mas o ponto alto desse sentimento foi quando eu terminei de ver Amour e quase chorei. Um dois filmes mais emocionantes de 2012, que espero nunca esquecer.

E se esse ano eu tivesse que dar um “Prêmio Amour” para algum dos indicados ao Oscar de 2014, seria Nebraska. Um FILMAÇO que eu não estava nem um pouco preparado. Com um foco diferente na exploração entre a relação (sai o casal de velhinhos, entra a relação pai e filho), o filme, no final, me transmite a mesma sensação de pureza e beleza que eu tive quando os créditos do filme francês começaram a subir.

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Nebraska, como a maioria dos filmes do Oscar do ano passado, eu só conhecia de nome. Bem, não só de nome. Além do pôster com um despenteado Bruce Dern, eu sabia que o filme era preto branco. Também, acompanhei superficialmente seu desempenho no mercado americano, e o respaldo que o filme teve na crítica por lá, o que depois acarretou à ele a indicação à 6 Estatuetas: Melhor Filme, Melhor Ator, Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Direção, Melhor Roteiro e Melhor Fotografia.

Na história, o velho alcoólatra Woody Grant (Bruce Dern) recebe uma carta contando que ele ganhou 1 milhão de dólares de uma revista. Para isso, ele teria que ir até Lincoln, Nebraska (cerca de 850 milhas de Billings, Montana, morada de Woody) para pegar o dinheiro. O velho decide ir a pé e, depois de algumas vezes ser ‘capturado’ pelo xerife ou parado pelos filhos, seu filho David (Will Forte) resolver ceder à fantasia do pai e levá-lo até o estado de Nebraska, mas sem antes parar na cidade onde o pai morava, e reencontrar parentes, amigos e ‘amigos’.

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Achava que eu desconhecia o trabalho do diretor Alexander Payne, mas ele fez o também excelente Os Descendentes. Para mim, aqui ele se supera. Em um típico road movie, Payne não poupa o uso de planos que incluam paisagens rurais americanas, celeiros, armazéns, estradas vazias, até mesmo um trem. O fato de o filme ser preto e branco (e a fotografia encanta por isso) junta-se a esses elementos, e traz um clima de nostalgia a obra, de uma América ainda naquela era do “sonho americano”. A direção do elenco também está fantástica, pois ele tira o melhor dos atores, conseguindo dar tons cômicos à história dramática.

Para falar disso, é melhor por na dança o nome de Bob Nelson, roteirista e estreante em Hollywood, que certamente teve uma ajuda de Payne. Lendo ali a ‘sinopse’, você não crê que um filme desses tenha um forte teor cômico, mas eu me surpreendi o quanto o filme é engraçado (muitas, MUITAS tiradas e situações hilárias… Como eu me diverti!) e, ao mesmo tempo, o filme não deixa fugir seu clima de seriedade e, porque não, de melancolia. As tensões existentes entre os personagens de Dern e Forte são cuidadosamente construídas e desconstruídas, e o próprio personagem de Dern é interessante: apesar dos problemas e do fato de estar desligado ao que acontece a sua volta, ele ainda é uma boa pessoa e, por isso, é enganado várias vezes.

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Um ponto que vale a pena ser destacado são os diversos problemas que envolvem a família Grant: a fase pela qual David passa; a eterna discussão entre Woody e sua esposa, Kate (June Squibb); os interesseiros de olho na suposta grana de Woody; e como ele e o filho lidam com eles, as memórias do passado. Entretanto, o balanço impecável entre o drama e a comédia é o grande destaque do quesito, o que justifica a indicação do Roteiro ao Oscar (que eu não me incomodaria nem um pouco se tivesse ganhado, mas Spike Jonze levou merecidamente por ter êxito em uma empreitada mais ousada).

As atuações deixam o filme mais formidável ainda. Dern merecia MUITO a indicação a melhor ator, pena que a concorrência da última estatueta estava pesada. Caiu como uma luva no papel de um velho desorientado, mas ainda sim perseverante e de certa forma, agradável e bonzinho (quase um Papai Noel). Will Forte (Vizinhos Imediatos de 3º Grau) também está muito bem. Ele faz meio que o papel do filho panacão, desacreditando e conflitando com a fantasia do pai a todo o momento, mas você repara que a química dele com Dern funciona muito bem, e a relação vai sendo facilmente construída. A indicada a melhor atriz coadjuvante June Squibb é outra de atuação elogiável, no papel da chata, mas ainda sim com um bom coração, esposa de Woody, Kate. Porém, na briga dela, ainda sou mais tanto a Lupita Nyong’o (vencedora) quanto a Julia Roberts (por Álbum em Família). O resto do elenco não tem uma atuação no mesmo patamar, mas ninguém ali atrapalha.

Film Review Nebraska

A trilha country melancólica de Mark Orton (O Verdadeiro Amor) coroa a beleza do filme, descontraindo e encantando no percorrer da fita. Finalmente, Nebraska é um filme que eu não dava muita coisa, mas que eu fico EXTREMAMENTE feliz de ter visto. Queria ter visto com meu pai. Aliás, deixo essa dica: veja com seu velho. Nebraska pode até ter sido esquecido pela Academia, mas como Amour, não será esquecido por mim… E agora, eu QUERO fazer essa viagem de Billings à Lincoln.

Nota: 9/ 10.

 

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