Capitão América: O Soldado Invernal

“Espionagem, porradaria e integração. Os elementos que fazem do 2º filme do Bandeiroso o melhor filme solo da Marvel”

Por Luís Gustavo Fonseca

Se tem algum herói que eu acho que é injustiçado, esse personagem é o Capitão América. Ele, criado em plena 2ª Guerra Mundial, é muitas vezes culpado por toda e qualquer ação do país que representa. Invasão ao Afeganistão? Culpa do Capitão América; Espiona a Petrobrás? Culpa do Capitão América; As petroleiras americanas são responsáveis pela miséria em algum lugar? Culpa do Capitão América; A política externa dos EUA é agressiva e intolerante? Já sabem de quem é a culpa.

E isso um pouco que me deixa puto, porque essa mistura com o nosso mundo com o mundo dos quadrinhos nem sempre estão diretamente ligado. Ou seja, muitas coisas ruins são atribuídas ao personagem sem necessidade. Motivos mais legítimos como “Falta de histórias interessantes” ou “Os poderes do personagem são chatos” ou “Não gosto de como o personagem pensa” são constantemente deixados em segundo plano.

Todo mundo odeia o Chris?
Todo mundo odeia o Chris?

ÓBVIO que em vários momentos, o cidadão É patriota. Mas pra isso, é necessário entender o contexto no qual ele foi criado. Porra, em 1940, era ele ou o Capitão Nazi. Com os ideais de quem você preferia ficar do lado? Ajuda aí né. Mas desde seu retorno em Avengers #4, vira e mexe ele toma uma posição contestadora em relação ao país que serve. Ou seja, ele está quase tão hater quanto os haters do mundo afora, mesmo que não seja pelos mesmos motivos.

E foi em meio a esse conflito com o público em geral que veio O Soldado Invernal. O primeiro filme foi um dos que menos rendeu para a Marvel (com quase metade da bilheteria sendo doméstica), e os executivos da empresa perceberam a necessidade de tornar o herói mais acessível ao resto do planeta. Com o lançamento do primeiro trailer, já esperava um baita filme, com um clima mais sério, de espionagem, mas ainda bem aventureiro e fantasioso. Havia um potencial para se tornar um dos melhores filmes da Marvel.

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Talvez um dos grandes desafios de se construir uma história do Capitão América, seja nos quadrinhos, seja no cinema, é como encaixar o personagem e seu lado patriota no contexto mundial atual. E nada melhor que um problema interno para ser plano de fundo dessa afronta que o personagem faz à organização na qual ele trabalha.

Na trama, Steve Rogers (Chris Evans) continua tentando se adaptar ao século XXI, descobrindo as maravilhas da Internet e anotando em um caderninho coisas que ele deve saber (brincadeira genial da Marvel. Em cada país, o que está escrito muda. No nosso, são coisas como Ayrton Senna e Xuxa), enquanto ele atua como uma espécie de ‘faxineiro’ de Nick Fury (Samuel L. Jackson). Porém, em uma missão específica, ele descobre que dentro de sua missão, a Viúva Negra (Scarlett Johansson) tinha outra missão. Ao questionar Fury, lhe é revelado alguns dos planos o mais obscuros da SHIELD, e ele começa a questionar esse sistema de “medo” no qual a organização passa a trabalhar, retirando a liberdade não só dos cidadãos americanos, mas de todo o mundo. Entretanto, Fury descobre que a SHIELD está comprometida, e ao tentar avisar ao Capitão, sofre um atentado do Soldado Invernal (Sebastian Stan), que entra nessa história como um grande catalisador das grandes mudanças que estão por vir no Universo Marvel.

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Por isso, acho justo começar falando do Christopher Markus e de Stephen McFeely, os mesmos roteiristas do primeiro filme e de Thor: The Dark World. POXA, MAS QUE SALTO DE QUALIDADE ELES DERAM em relação ao primeiro longa! A trama está bem mais séria, com questões mais atuais (poxa, espionagem? Vazamento de informações? Infiltrações? Steve Rogers se aliaria com o Snowden?), e com um forte teor político. Além disso, confronta o modo de ver do Capitão (aquele mais classicão, preto e branco) com o mundo cinza de hoje, adicionado ao teor político que é a chave da trama, mas que fica bem balanceado com a ação do filme.

A trama possui algumas boas reviravoltas, e dosa muito bem os alívios cômicos, muitos deles vindo por parte do Falcão (Anthony Mackie). Contudo, o clima de um thriller de espionagem é tão grande, que o primeiro ato do filme é mais cadenciado, pois é nele que se explica e se monta toda a situação atual da SHIELD, e é onde peças fundamentais, como o secretário Alexander Pierce (Robert Redford) são introduzidas no jogo. Mesmo assim, há espaço para retratar ainda o passado de Steve (entre elas, uma ótima cena do encontro dele com a Peggy nos dias de hoje); uma tensão romântica com a Viúva Negra; e o desenvolvimento da história do Soldado Invernal (bem construída); e da reviravolta chave do filme.

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A integração com o Universo Marvel é outra grande cartada do longa. Se em Homem de Ferro 3 e Thor 2 as tramas eram mais isoladas, aqui ela está ligada diretamente com tudo. A sensação de “E agora?” ao fim do filme é inevitável, e possibilidades para o futuro da Marvel são vários, com desdobramentos ocorrendo também em Agents of SHIELD e podendo reverberar nos futuros filmes.

De negativo, acho que só algumas tantas forçações de barra típicas de quadrinhos, coisas como “Claro que isso ia acontecer justo nessa hora né”, ou algumas coincidências. A pior parte foi o climáx do climáx. Achei que ficou bem aquém do resto da sequência, além de ser bastante previsível.

Outro fator que faz o salto desta continuação ser gigantesca em relação ao seu antecessor é a direção dos irmãos Anthony e Joe Russo. Responsáveis por vários episódios de Community, os irmãos foram o grande achado da Marvel. Como eles possuem competência!

Me pergunto se existe alguém que não tenha curtido essa luta
Me pergunto se existe alguém que não tenha curtido essa luta

Tenho certeza que o balanceamento do filme, em relação à trama, tem um mão deles. Mas esse balanceamento também é notado no ritmo. Falei que o primeiro ato é mais devagar, porém, não se engane, ele casa totalmente com sua proposta. E todo o teor dramático é pontuado com ÓTIMAS cenas de ação. Que saudade que eu estava de umas perseguições de carro, de uma confusão em um cenário urbano que não exigisse muito CGI.

Já reclamei disso em alguns filmes, mas as cenas de luta do longa estão bem coreografadas. Mas MUITO bem coreografadas. A execução está excelente, há tempo que eu não via esse tipo de coisa em Hollywood. Um dos bons exemplos é uma das primeiras cenas, entre a luta do Capitão com o Batroc (o lutador Georges St-Pierre). Showzão de bola. Tanto o posicionamento das câmeras, como a agilidade na troca delas (o que reitera uma sensação de urgência e de perigo, dada a velocidade das lutas), ajudam a lapidar essas sequências.

Lutas BEM coreografadas são um dos melhores trunfos do longa
Lutas BEM coreografadas são um dos melhores trunfos do longa

O Capitão usa seu escudo mais do que nunca, mostrando que de fato, o artefato é uma extensão de seu corpo. Muito feliz com essa exploração. Já a resistência do braço do Capitão continuará sendo um motivo de discórdia: depois do Mjonlir, ele aguentou “tranquilamente” socos de um braço de metal, tiros de lança granadas, tiros e mais tiros (ninguém atira na perna né?), escombros, e até mesmo um salto de uns 30 metros de altura.

O Soldado Invernal também se mostra o mestre das facas, enquanto a Viúva talvez tenha seus melhores momentos como espiã e agente no cinema. E o filme, comprova, também, o lado visionário de Sam Raimi: se o que ele planejava para o Abutre era algo parecido com o que foi feito com o Falcão, ele teria acertado em cheio. Uma das minhas grandes preocupações seria como ficaria a movimentação do personagem em ação, e poutz, o resultado foi ótimo. Falcão chuta muitas bundas, e mostra que pode, facilmente, ser reaproveitado depois.

Se o plano é fazer do Capitão um líder em Vingadores: A Era de Ultron, é necessário então que a primeira coisa a ser feita seja que o Chris Evans melhore. E ele parece ter percebido isso, em uma de suas melhores representações na carreira como personagem de quadrinhos (que ele faz bastante). Bem mais à vontade, ele está mais imponente, exercendo melhor o papel de um líder. Passou uma boa confiança. Espero que agora, vá!

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Outro bom desenvolvimento nesse universo foi da Scarlett, com um papel de maior importância para a trama. Acho que uma frase que resume bem como ela personifica a personalidade da agente russa é quando ela diz “Eu só finjo que sei de tudo”. Realmente, a Viúva parece estar no controle da situação em vários momentos; Outro que também está bem é o nosso querido MOTHERFUCKING Jackson que, entre outras, fez uma ótima cena de perseguição de carro.

Esperava mais de Sebastian Stan como antagonista (poxa, a primeira frase dele é pra depois da metade do filme), mas percebi que ele entrou bem no que é o personagem: uma máquina de matar, fria, calculista, quase perfeita, extremamente letal. E acho que muitas de suas expressões passaram isso muito bem, já que ele é vítima de uma lavagem cerebral.

Por parte dos atores, a introdução dos personagens de Redford, Mackie e da agente 13 vivida por Emily VanCamp foi satisfatória. O primeiro faz bem o papel de dualidade no qual se baseia o filme, e demonstra presença, vinda da longa experiência do ator; o segundo é um ótimo adendo ao suporte do filme, seja pelo lado cômico, seja pelo lado da ação. Espero muito que volte as telas em breve. Ele encaixou bem no papel. E a última, mesmo sendo trabalhada bem pouco, já demonstra que dará pano pra manga em uma continuação.

Se os efeitos dão conta da destruição de Helicarries (lembrando que Marvel foi indicada 2x ao premio de Melhores Efeitos Especias nos últimos 2 anos… Tudo bem que foi o prêmio que ignorou Pacific Rim e esse ano a responsabilidade disso no estúdio é do Guardiões), o 3D, DE NOVO, se mostra desnecessário, como era previsto. Praticamente, não existe na trama.

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O visual e o figurino estão OK (seja no uniforme do Capitão, o melhor até agora, seja no braço do Soldado Invernal), isso combinado com a boa fotografia do filme. A trilha de Henry Jackman é outro destaque. Eu, que gosto do compositor, reparei que ele largou um pouco de seus vícios e marcas, e mesmo que você não saia da sala cantando um tema, a trilha se faz bastante presente, principalmente nas cenas que envolve o Soldado ou as diversas cenas de ação do filme.

Dizer que o filme é o melhor solo da Marvel é contraditório e subjetivo (avá!), mas realmente acho que ele, de fato, superou o saudosismo que eu tenho pelo primeiro Iron Man, e devido a sua ótima construção, conseguiu chegar lá, mesmo que seja por uma vantagem minúscula. O caminho para A Era de Ultron não poderia estar mais bem encaminhado, e agora, é torcer para que esse nível permaneça. A combinação do conhecido humor com esse clima mais sério pode (e deve) ser utilizada em outros filmes do estúdio, e estou curiosíssimo para saber o que os Irmãos tem na cabeça para o 3º filme, terá “apenas” a responsabilidade de adaptar Guerra Civil, um dos arcos mais aclamados da editora. De certeza, somente que, AGORA, o Capitão está pronto para o duelo.

Nota: 9/ 10.

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