Sniper Americano

 “Competência e patriotismo embalam trama de herói americano”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Não nego. Entre os indicados ao Oscar de Melhor Filme deste ano, Sniper Americano foi, de longe, aquele com qual tinha mais antipatia. Não somente pela trama, que conta a história e o drama pessoal de Chris Kyle (Bradley Cooper), tido como o soldado com mais mortes em combate pelos EUA. Mas também pela mistura da minha raiva por Bradley Cooper ter tido sua terceira indicação consecutiva ao Oscar, e ter tomado o lugar de Ralph Fieenes (O Grande Hotel Budapeste).  E pela minha recente frustração com outros filmes de guerra modernos que foram indicados ao Oscar, como A Hora mais Escura e Guerra ao Terror.

Com este preconceito e três pedras na mão, não perdi a chance de conferir o longa. E fico satisfeito por estar enganado. Mesmo estando longe de ser o meu favorito entre os competidores deste ano, Sniper Americano possui diversas qualidades e consegue justificar, em boa parte, seu sucesso estrondoso nos EUA, onde já faturou mais de 300 milhões de dólares, e caminha para ser o filme de maior faturamento do ano de 2014 por lá.

AMERICAN SNIPER

Uma dessas qualidades seria a atuação do próprio Cooper. Ainda prefiro, claro, o trabalho de Fieenes, mas o ator consegue transmitir bem toda a tensão e personalidade forte do soldado americano. É um trabalho muito mais competente, por exemplo, do que o de Trapaça, que lhe rendeu uma indicação no último ano. Mas aquém do que já vimos em O Lado Bom da Vida. Contudo, nada a reclamar em relação ao ator.

É uma pena que o trabalho do ator, talvez pela importância que o roteiro lhe dá, seja o único destacável. Atribuo à isso o ponto mais negativo da direção de Clint Eastwood (que confesso estranhar na posição, mesmo após dois de seus quatro Oscars serem frutos desta posição). A sua direção de atores é mediana, e ele não consegue produzir uma harmonia entre o elenco, desperdiçando um potencial maior nas relações entre Cooper e os outros soldados (algo que Corações de Ferro acerta), e dele com a mulher Taya (Sienna Miller). A compensação do tropeço vem na competência de outros momentos, como na fotografia e nas cenas de ação do filme.

AS 1

O filme possui outros méritos, como a ótima edição de som nas cenas de tiroteio, momento em que a trilha emudece e o telespectador pode se sentir dentro da zona de conflito, o que justifica as indicações à Estatueta em Edição e Mixagem de Som (apesar de, particularmente, ainda preferir o trabalho sonoro realizado em O Grande Herói, filme de guerra do ano passado indicado nas mesmas duas categorias). Mas o maior mérito da obra reside no roteiro adaptado (e indicado) feito por Jason Hall (Conexão Perigosa).

Neste quesito, é possível destacar várias coisas boas: a dinamicidade proposta ao filme, que não cansa nem perde a mão no decorrer de seus mais de 120 minutos; os momentos de tensão ao longo do filme, não apenas durante a guerra, mas quando Kyle está em casa, e há a introdução de sutilezas que demonstram os traumas do conflito no personagem, como ele ficando alterado ao ouvir o som do cortador de grama ou encarando a TV; o próprio trabalho com o personagem, de seu amor pela pátria e de querer salvar seus compatriotas, até as cicatrizes psicológicas deixadas pelas batalhas.

E o que dizer do bebê falso utilizado no filme?
E o que dizer do bebê falso utilizado no filme?

De negativo, o fato que faltou um pouco mais de ousadia na romantização desta história.  Kyle pode até ser um herói americano e a obra serve como um tributo a sua vida e aos demais que servem o exército (ou um aviso sobre as possíveis consequências de uma geração que está há mais de 10 anos guerreando no Oriente Médio). Mas faltou trabalhar um pouco mais o outro lado da moeda, um lado de questionamento as ideias e os motivos deste conflito, se este vale a pena à vida dos soldados americanos e dos civis iraquianos. Ideias que chegam a ser apresentadas, mas param por aí, e podem atrapalhar a construção de uma empatia maior do público internacional.

Finalmente, Sniper Americano é um filme que se põe à prova e se mostra digno de suas indicações, tendo um resultado muito mais agradável que Guerra ao Terror e A Hora Mais Escura. Se sua qualidade e seu sucesso financeiro serão capazes de lhe render o Careca Dourado, apenas conferindo a premiação no próximo domingo. Mas Clint pretende colocar a Estatueta na mira.

Nota: 8/10.

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