[REVIEW] House of Cards

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Já falei em outras oportunidades, mas nunca é demais repetir que o mundo de séries de TV nunca foi muito minha praia. Nada contra o formato (que vem demonstrando um sucesso avassalador nos últimos anos), apenas a minha velha e não tão boa preguiça de acompanhar algo que levará meses (e pode se estender por anos).

Mas, se tem algo que eu posso dizer que fiz diferente em 2014, foi  passar a tratar o formato com maior carinho. Putz, nunca vi tantas séries em um mesmo ano: além da continuação de Agents of SHIELD (que melhorou consideravelmente), Legend of Korra, Sherlock e Game of Thrones, descobri novos seriados, como as estreantes Gotham, The Flash, Marco Polo, The Leftovers e Constantine; novas animações, como BoJack Horseman e Archer (que ajudaram muito a preencher o vazio deixado por Futurama); e o sucesso de crítica (e que não cansarei de recomendar) que foi Fargo.

Então descobri House of Cards.

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Geralmente, a minha preguiça com essas séries de renome e que caem nas graças do público (e que já estão na estrada há tempos) é 5x maior do que o normal, simplesmente porque não sinto a necessidade de ver algo que todo mundo já assiste e não cansa de falar nas redes sociais (Rapaz… Isso é um pensamento bem hipster). Foi por essas que acabei descobrindo Fargo, o que mostra até ser uma vantagem. House of Cards poderia ser mais uma dessas séries que eu poderia ignorar, MAS, justamente querendo sair um pouco dessa ‘zona de conforto’, e já levando em conta o selo de qualidade da Netflix, resolvi assistir a série.

Conclusão: assisti os 10 primeiros episódios em sequência, e a série foi finalizada em menos de 4 dias.

House of Cards possui tantas qualidades que não sei nem por onde começar. Talvez pela direção, que conta com o grande David Fincher (Garota Exemplar, Clube da Luta) no comando dos dois primeiros capítulos da primeira temporada, e que mais uma vez, realizou um grande trabalho. De certa forma, o estilo de Finch de filmar marcou o estilo de toda a primeira temporada, sobretudo na fotografia. Mas os méritos da direção não se restringem apenas ao renomado diretor (e nem deveria), já que além de outros nomes (incluindo nomes como da atriz Judie Foster, para minha total surpresa, e do Joel Schumacher), o responsável por dirigir 12 dos 26 episódios lançados até agora é James Foley, cabendo a ele os elogios à consistência da série e alguns dos melhores episódios.

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Mas acho, a exemplo de Fargo, o roteiro se destaca mais que a direção. Roteiro esse que narra à história de Frank Underwood (Kevin Spacey), um deputado (congressman) Democrata que, após ter tido o cargo de Secretário de Estado negado pelo presidente recém-eleito Garret (Michael Gill), trama, ao lado da esposa Claire (Robin Wright), uma forma de se vingar de todos aqueles que o traíram. Começa assim a escalada sensacional do anti-herói (?) Frank .

O roteiro é escrito por várias mãos, mas os nomes de Andre Davies, Michael Dobbs e Beau Willimon estão constantemente presentes. E os méritos no quesito são vários. A começar pela trama do próprio Frank, e no desenvolvimento do personagem. Putz, ele é um brilliant bastard! Brincando sempre com ética do personagem (já que ele está longe de ser a pessoa mais correta do mundo… Afinal, ele é um político!), acompanhar as tramoias, ações e pensamentos dele torna-se uma ótima viagem, já que muitas das vezes o espectador se pega torcendo para que tudo dê certo para ele, por mais que os meios para chegar a uma ‘vitória’ sejam inescrupulosos. Curiosamente, o roteiro possibilita que você não torça o tempo todo, pois qual seria a graça de Frank atingir seus objetivos de maneira fácil? Mostrar como ele e sua equipe lida com as situações mais adversas, reinventando dinâmicas e relações, é algo bom de assistir e é feito de forma espetacular.

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A própria ambientação da série ajuda muito nisso. Mostrar os bastidores da política americana, o dia-a-dia do Capitólio e da Casa Branca, como se dão os relacionamentos lá dentro, o esquema de ‘uma mão lava a outra’, intrigas, o papel da mídia, seja de cunho investigativo político, ou do sensacionalismo de fofocas de tabloides… Tudo isso é um prato cheio para os roteiristas, que podem trabalhar com várias frentes. E felizmente, é isso o que acontece.

Costumo dizer que ‘uma grande história é formada por grandes personagens secundários’. Não acho que esse seja o caso de House of Cards, pois dificilmente criei uma maior afeição que não fosse ao personagem principal e sua esposa. Não que isso queira dizer que só há personagens secundários desinteressantes, muito pelo contrário. Mas a carisma do casal principal é tamanha que é difícil ignorar o abismo existente. Uma boa exceção seria o pacato e amigável Freddy (Reg E. Cathey), dono de um pequeno restaurante no subúrbio de Washington na qual Frank muitas vezes se refugia. Por ser o único que está fora deste mundo da politicagem, intrigas, troca de favores, investigações, traições e afins, é bem mais fácil estabelecer simpatia e afinidade com ele, por representar (de certa forma) o público que assiste a série.

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Mas se House of Cards talvez não conte com personagens coadjuvantes tão memoráveis, o mesmo não se pode dizer sobre as tramas secundárias. Cuidadosamente amarradas à jornada de Frank, elas ajudam no desenrolar e desenvolvimento da trama, que sempre está sujeita a imprevistos. É de se destacar como tudo corre com naturalidade, sem pressa, e após um problema ser resolvido, já surge outro, maior e mais desafiador. Tudo bem, é como se cada temporada fosse um filme de quase 12h, mas a quantidade de coisas que acontece no meio tempo assusta… E como todas essas tramas se relacionam de forma tão eficaz é algo mais assustador ainda.

Na parte das atuações, o destaque fica, claro, para Kevin Spacey, em um dos seus trabalhos mais inspirados. Além de toda a ‘ajudinha’ do roteiro, na construção do personagem e com os diálogos, há outro recurso com total diferencial da série: a quebra da quarta parede utilizada por Frank. A cada vez que o personagem dirige-se ao público, é transmitida toda uma cumplicidade, uma afinidade, do personagem para com o público que combinada com o talento do ator, é quase impossível não desenvolver um carinho especial por ele; Robie Wright não deixa por menos e também é espetacular no papel da esposa de Frank, Clairie, sendo impressionante notar como o casal combina e tem uma química perfeita, já que ela é tão astuta, decidida e argilosa quanto o marido.

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Outros trabalhos destacáveis: Michael Kelly no papel de Doug Stamper, braço direito de Frank (e que possui um interessante arco pessoal); Mahershala Ali como Remy Danton, ex-funcionário de Underwood e que agora trabalha como lobista contra ele; Kate Mara, que vive a jornalista Zoe Barnes, e após um envolvimento amoroso com Frank, começa a investigar suas tramas; Gerald McRaney, que interpreta o bilionário Raymond Tusk e se torna o maior antagonista de Frank (as cenas com os dois sempre são boas); e Derek Cecil, que integra o time na segunda temporada como o chefe de imprensa da equipe de Frank, Seth, e mostra potencial para desenvolver-se mais ainda no futuro.

Por fim, a nova temporada, que será lançada no Netflix no próximo dia 27, está carregada de expectativa. A nova posição política de Underwood permitirá novas abordagens, e mais uma vez, a série terá que se reinventar, sempre mantendo a qualidade do produto final. Mas isso não deve ser grande obstáculo para quem foi capaz de fazer tanto.

Nota: 9/ 10.

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