Noé

“Criacionismo, evolucionismo, dilemas e reflexões são alguns dos temperos da releitura bíblica de Darren Aronofsky”

Por Luís Gustavo Fonseca

Suponho que TODO MUNDO já tenha ouvido a história da Arca de Noé. É uma história que crentes e não crentes tem no imaginário: o cidadão responsável por construir uma gigantesca arca, que comportaria 2 animais de cada espécie, e os salvaria da punição prevista pelo Criador, que, “desgostado” de sua principal criação, resolve limpar nosso mundo com uma chuva que duraria 40 dias e 40 noites, causando um dilúvio inimaginável e exterminando a raça humana.

Tal plot, claro, gera controvérsias, assim como 99% dos assuntos ligados a religião. Para cientistas, um cataclismo de tal magnitude seria impossível, enquanto alguns arqueologistas apontam que o dilúvio seria, na verdade, um tsunami que atingiu a região da Mesopotâmia. O acontecimento teria sido interpretado como um castigo para a população daquela época.

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O fato é que estamos no século XXI, e o mundo moderno e super tecnológico está em crescente conflito com o tradicionalismo religioso. Eis que em meio a essas discussões, surge o agora ateu Darren Aronofsky, que resolve fazer uma versão épica/fantasiosa da famosa passagem bíblica, em um filme que (des)agradará pessoas de todas as religiões, e quem não acredita também.

O diretor de Fonte da Vida não é um dos meus mais queridos (seu trabalho que mais aprecio é o ótimo Cisne Negro), o filme o princípio não ganhou meu apoio imediato, mas à medida que os trailers se repetiam nos cinemas, e principalmente empolgado pela aquela trilha do trailer, eu fui ficando cada vez mais ansioso pelo longa.

Russel Crowe e o diretor Darren Aronofsky
Russel Crowe e o diretor Darren Aronofsky

Com a “sinopse” lá em cima, digo de cara que o Aronofsky roteirista, pra mim, brilhou muito mais que sua versão diretor. Não que esta segunda esteja ruim, longe disso. Com uma ótima fotografia, o diretor se destaca por interessantes e acertadas decisões, tais como: o tom dado a trama, uma mistura de fé com ciência (na verdade, algo evolucionista, evidenciado pelos animais únicos presentes no filme; a direção com atores, fazendo com que personagens vividos por Emma Watson, Logan Lerman e Ray Winstone tenham destaque e permitindo o bom trabalho desses; e o clima fantasioso do longa, que não deixa de ser um épico de ação.

No roteiro, escrito por ele ao lado de Ari Handel (Fonte da Vida), acho que moram suas maiores virtudes. Além da já da citada liberdade, e da combinação entre religião e ciência, destaco também o ritmo do filme. Ele começou meio travado nos primeiros 30, talvez 40 minutos, destinados à um background daquele universo, e eu temi que o filme de 2h10 não conseguisse se sustentar. Mas a partir da construção da Arca, a história sobe de nível (apesar de que acho que o filme poderia ter tido 1h50), com a obra possuindo dois grandes momentos (o “clímax do meio” e o de verdade), que colaboraram com essa dinâmica.

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O tom dramático também é de se chamar à atenção. Eu, particularmente, nunca parei para pensar como teria sido para a o Noé receber um fardo tão grandioso, mas felizmente, Darren trabalha bem isso. Ao longo da trama, notamos como o personagem vivido por Russel Crowe sofre a pressão da missão, e como ele é desumanizado por isso. Longe de ser um herói (o que o leva a dilemas e, em alguns casos, a tomar decisões nada honrosas), Noé apenas quer cumprir à ordem que lhe foi dada. As visões que o personagem tem da destruição também são bem feitas e inseridas. Uma, em particular, praticamente justifica o porquê de a humanidade receber essa punição: no acampamento dos homens inimigos, mulheres e crianças, principalmente, sofrem, enquanto observamos a faceta mais obscura do ser humano, capaz de fazer atrocidades para alcançar seus objetivos… Ou apenas conseguir um pouco de carne.

A fantasia de Aronofsky é mais um ponto positivo. O inventivo diretor utiliza bem o CGI do filme, principalmente ao incluir na história os Vigilantes, anjos que seriam responsáveis por proteger o Éden, e que resolvem interferir na Terra (e agradeço MUITO nada deles terem sido mostrados no material de divulgação. Grata surpresa). Méritos também ambientação do filme, com cenários e situações que ajudam a contextualizar a decisão pelo dilúvio, além de apresentar uma pegada um tanto ambientalista, já que Noé parece muito um biólogo, enquanto o rei Tubal-cain (Ray Winstone) representa os humanos mineradores e sedentos por retirar as riquezas do solo. Destaco, por último, o momento em que há uma sequência de fotos, enquanto Noé narra a Criação do mundo em 7 dias, claramente tenta unificar ciência e religião. Belíssima junção de opostos.

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As coisas boas do filme se estendem as atuações. Russel Crowe, que tudo bem, PODERIA ATÉ estar devendo nos seus últimos trabalhos, mostra versatilidade ao mostrar um multifacetado Noé, hora bondoso, hora determinado, hora recluso, e em alguns (vários) momentos, bem soturno. Ótimo trabalho, talvez o seu melhor nos últimos anos. Enquanto a Jennifer Connelly talvez tenha ficado um pouco sumida (se bem que tem uma cena que ela manda MUITO bem), o trio feito por Ray Winstone, Emma Watson e Logan Lerman é o suporte necessário. O primeiro é um contraponto interessante, sendo um antagonista necessário e bem composto para a trama (afinal, o desastre não poderia ser o vilão né?); Watson, que faz a menina acolhida pela família de Noé, Ila, cada vez mais se afasta de sua imagem de Hermione, e ao ganhar um papel decisivo no 3º ato do filme, mostra competência ao executar bem seu papel na trama. Por fim, Lerman mostra que os problemas de Percy Jackson, definitivamente, não são provenientes dele, e me surpreende com um papel (o filho do meio de Noé, Cam) bem mais importante que eu imaginava, sendo também uma forma de contraponto ao Noé, mas temperado de inocência e também pelo carinho pelo pai. E Anthony Hopkins, na pele do ‘eterno’ Matusalém, é um ótimo coadjuvante de luxo. Sem muito brilho, mas sempre, SEMPRE, acrescentando a obra.

Se por um lado o 3D é algo completamente desnecessário, acho que o que mais me deixou feliz no filme foi a trilha de Clint Mansell, velho conhecido de Darren e também responsável pela trilha de Lunar, que é BELÍSSIMA e empolga na hora exata. Assim como em Cisne e, provavelmente, Réquiem para um Sonho, outro trabalho impecável do compositor.

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Por último, o visual e o figurino do filme, que vestiu todo mundo muito bem com aquelas peles de couro e semelhantes, mas que me chamou a atenção pelas várias ‘versões’ de Noé: tem ele cabeludo, tem ele careca barbudo, tem ele com cabelo espetado e feições mais duras, e ele de cabelo grisalho mais sábio. Achei interessante, principalmente porque foi casando com a personalidade do personagem no decorrer do filme. Antes que eu me esqueça, tem que APLAUDIR o pessoal da produção por ter construído a arca de verdade. Isso dá uma verossimilhança e imersão na obra incrível.

Apesar dos elogios, Noé não é meu filme favorito de Aronofsky, título que ainda recaí sobre as ‘asas’ do Cisne Negro, estando este no patamar de O Vencedor. Que as próximas obras do diretor permaneçam com essa qualidade e, por que não, retornem com esse tempero de polêmica do filme.

Nota: 8/ 10.

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