[FORA DE SÉRIE] Selma e o ‘Oscar White’

Por Luís Gustavo Fonseca

Mesmo tendo assistido Selma, um dos 8 filmes indicados a Melhor Filme do Oscar deste ano, não iria escrever sobre ele. Acabei vendo-o sem legenda, e apesar da boa compreensão da língua inglesa, sinto que perdi momentos chaves dos diálogos do filme, e não queria avaliar o filme de forma incompleta. Contudo, ao notar a presença da resenha dos outros 7 indicados aqui no Filmaiada!, me senti na obrigação de falar sobre ele. E aproveito para juntá-lo a um assunto que há tempo me incomodava.

Quando os indicados ao Oscar deste ano foram anunciados, a primeira reação nas redes sociais foi comentar a ausência de Uma Aventura LEGO na disputa de Melhor Animação. Contudo, após a poeira abaixar, uma constatação muito mais aterradora veio à tona: todos os 20 atores e atrizes, protagonistas ou coadjuvantes, eram brancos, mais os 5 diretores indicados ao prêmio. Selma, longa que mostrava a luta de Martin Luther King (interpretado por David Oyelowo) pelos direitos civis dos negros na cidade, era um dos cotados a receber várias indicações. Porém, acabou sendo lembrado apenas em Melhor Filme e Melhor Canção (???), enquanto Foxcatcher, por exemplo, que recebeu indicações por atuação e direção, não concorre no prêmio principal.

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A conclusão rapidamente levantou crítica do público e de nomes da indústria Hollywoodiana, representados na hashtag #OscarWhite. A crítica não apenas abordou a questão racial escancarada nesta edição do Oscar, mas aproveitou para abordar outros temas semelhantes, como a ausência de mulheres no cargo de diretoras e/ou protagonistas bem representadas nos filmes, e da falta de oportunidade para os latinos (uma cultura bem forte nos EUA) na indústria cinematográfica.

Claro que entra em questão também o mérito dos indicados. Se o ator X foi melhor que o Y, não tem porque o Y entrar só por causa de uma suposta cota racial. Mas não acho que seja o caso. Mesmo optando, pessoalmente, pela atuação de Ralph Fieenes (que não foi indicado), julgo que o trabalho de Oyelowo em Selma é superior que o de Bradley Cooper em o Sniper Americano. Já vimos trabalhos melhores de Cooper (que recebeu sua 3ª indicação seguida), enquanto provavelmente temos o melhor trabalho de Oyelowo até agora, já que o ator consegue dar presença e imponência para um dos ativistas mais importantes da história americana.

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Muito do bom trabalho de Oyelowo (e do elenco de Selma, de forma geral) se deve a ótima direção de Ava DuVernay, que se destaca pela excelente condução na direção de atores e no manuseio das câmeras, que permite um certo clima intimista entre os atores e os personagens. A diretora tinha chances de ser a primeira mulher negra a ser indicada ao prêmio na história, mas foi preterida ao trabalho de Bennett Miller (que faz sim um bom trabalho em Foxcatcher, mas não consigo ver com mais méritos do que o trabalho de Ava).

O curioso é que a decisão da Academia vem de certa forma, em contramão do reconhecimento que ela vinha dando nos últimos anos. Atrizes como Mo’Nique, Octavia Spencer e Lupita Nyoong’o levaram a Estatueta (apesar que todas foram em papéis coadjuvantes, é verdade), enquanto atores como o veterano Denzel Washington e Chiwetel Ejiofor não foram esquecidos. Aliás, Ejiofor estrelou o vencedor do ano passado, 12 Anos de Escravidão, produzido e dirigido por um negro (Steve McQueen); Kathryn Bigelow venceu em 2010 e se tornou a primeira mulher a vencer o prêmio de Melhor Diretor, mas sua vitória pouco favoreceu as mulheres na indústria do cinema: desde então, nenhuma outra mulher conseguiu ser sequer indicada, fruto da discrepância alarmante entre o número de diretores e diretoras; e a situação dos latinos pouco mudou, mesmo com o destaque de diretores mexicanos nos últimos anos, como a indicação de Alejandro Iñarritu por Birdman este ano, e a vitória de Alfonso Cuáron no último ano.

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Em um mundo cada vez mais globalizado e que permite (e clama) por uma diversidade maior entre os povos, seria interessante o cinema servir como plataforma para quebrar paradigmas e ousar mais em suas abordagens e escolhas, apresentando inovações (algo que sempre foi bem vindo no cinema). Se uma mudança de postura talvez não venha do público de uma maneira geral, são prêmios de peso como o Oscar que se habilitam como o caminho ideal para que uma mudança de mentalidade possa acontecer e ajudar a criar uma sociedade melhor.

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