[REVIEW] Agente Carter

A ‘namoradinha’ do Capitão América estrela uma baita transposição das HQs para a TV”


Por Luís Gustavo Fonseca

 

A fase pela qual a Marvel Studios está passando é algo difícil de descrever. Após o sucesso dos (até então) heróis B da editora, como era o caso do Homem de Ferro, que culminou no sucesso estrondoso de Os Vingadores, o estúdio está ‘se dando ao luxo’ de ir além e continuar apostando e lapidando possíveis novos sucessos. Já mostrou que é capaz de fazer isso no cinema, vide o barulho que Guardiões da Galáxia fez (e como eles podem ter mudado o gênero). Na TV, mídia que ela não mostra o mesmo brio e teve um começo um tanto vacilante com Agents of SHIELD, a mentalidade de apostar permaneceu, a ponto que Peggy Carter, até então apenas o interesse amoroso de Steve Rogers no primeiro filme do herói, ganhou sua própria minissérie de TV.

Assim como a série protagonizada pelo agora Diretor Coulson, que sofreu (e ainda sofre) uma desconfiança do público, os produtores de Carter tiveram que lidar com os receios de sua audiência.  Se por um lado, a série oferece diversidade, sendo a primeira obra protagonizada por uma mulher, ao universo construído pela Marvel, por outro ela teria que superar a carência de rostos conhecidos e personagens de grande peso, além do fato que, justamente por se passar no passado, ser improvável de causar impactos profundos na trama que se passa nos dias atuais.

agente carter 3

Ambientada em 1946, Carter mostra um EUA pós-guerra, acompanhando a personagem principal (vivida por Hayley Atwell) em seu trabalho pela Strategic Scientific Reserve (SSR), o embrião do que viria ser a SHIELD. Apesar do valor apresentado durante a Segunda Guerra, Peggy sofre para mostrar do que realmente é capaz aos seus novos colegas, já que eles, fruto de uma sociedade machista, não confiam em suas habilidades, e relegam a ela o trabalho de secretária e semelhantes. A situação não melhora quando o velho amigo de Peggy, Howard Stark (Dominic Cooper) é acusado de traição pelo governo americano, pela suposta venda de armamento e invenções aos inimigos do Estado. Em segredo, Howard pede ajuda para que Peggy possa ajudá-lo a limpar seu nome e descobrir quem está por trás disso, com a ajuda do mordomo de Stark, Jarvis (James D’Arcy).

Agente Carter não é uma série que engrena de primeira, o que pode ser um grave problema para uma obra de apenas 8 episódios. A primeira metade da série (que possui, inclusive, a direção dos irmãos Russo, diretores de Capitão América: O Soldado Invernal, em um dos episódios)  ameaça se perder na tentativa de oferecer ao telespectador um feminismo forçado, pouco convincente e que atrapalha o dinamismo dos episódios. A ideia de fazer uma série estrelada por uma mulher não deveria se basear na mentalidade de “Olha como ela faz tudo que os homens fazem, de forma melhor, e de salto alto!”, mas sim “Olha que protagonista interessante temos aqui!”, onde o gênero não deveria importar, desde que haja qualidade no desenvolvimento dos personagens principais.

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O desenvolvimento (da história, dos personagens e da agenda feminista, entre outros) acontece de forma muito mais eficaz na segunda metade da minissérie. O mérito do roteiro, assinado principalmente por Christopher Markus e Stephen McFeely, é tamanho neste ponto, que é bem possível chegar ao final de Agente Carter e imaginar a série como uma graphic novel, um arco fechado que sustenta por si só, algo que a estrutura deste universo Marvel interligado pouco permite (Aliás, a estrutura narrativa de 8 episódios de Carter se mostra mais acertada e me agrada bem mais do que de séries semelhantes, como Flash, Gotham e SHIELD). Claro, não é por ter esses elementos de uma história fechada, que não há ligações. Estas, aliás, são feitas de maneira muito mais acertada do que SHIELD tentou no começo. Interligações como os experimentos do Dr Faustus (Ralph Brown) com o surgimento do Soldado Invernal, o possível lugar de onde saiu a Viúva Negra e a participação especial de Dum-Dum Dugan (NealMcDonough) e sua trupe em um dos episódios são elementos que acrescentam a obra e divertem os fãs, mas não retira dela sua autonomia. De negativo, a carência de um antagonismo de maior peso. Ele é bem elaborado, mas falta uma presença que consiga levar isso a outro patamar.

Outro mérito da série está em sua ambientação, seja no figurino variado utilizado pelos personagens, ou nos ambientes mais visitados, tais como o escritório da SSR e a pensão só para mulheres onde vive Peggy. Tudo isso reforçada pela fotografia de tom saudosista aplicada na série, que ajuda a dar um tempero especial para a série.

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Se a trilha não chama a atenção de uma forma geral (salvo a inclusão de músicas da época), é nas atuações que mora o maior mérito da obra. Atwell e D’Arcy possuem uma química digna de aplausos, e o humor britânico dos dois é utilizado sob medida, evitando exageros. Individualmente, a partir do momento que o roteiro lhe dá essa liberdade, Atwell mostra sua capacidade de sustentar o protagonismo da série com tranquilidade, enquanto D’Arcy apresenta a figura de um Jarvis tão fácil de ser lembrado como a tecnologia inspirada nele utilizada por Tony Stark nos filmes. Mesmo sem o mesmo peso, outras atuações são feitas com competência, como o contraponto de Peggy na agência, o agente Jack Thompson (Chad Michael Murray); o chefe dela, Roger Dooley (Shea Whigham); e Daniel Sousa (Enver Gjokaj), outro agente marginalizado, devido ao seu ferimento na perna, fruto da recente Guerra.

Finalmente, é inegável a satisfação ao fim da minissérie, que consegue justificar sua existência repleta por méritos. Ainda é cedo para dizer se haverá uma segunda temporada, mas o roteiro permitiu deixas que podem ser aproveitadas, ou ainda pode-se explorar, por exemplo, o passado de Peggy. O importante é que Peggy Carter conseguiu algo que nem a Viúva Negra de Scarlett Johansson fez até agora: brilhar como a estrela principal do show.

Nota: 8/ 10.

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