Kingsman: Serviço Secreto

“A megalomania de Mark Millar, mais uma vez, pelo olhar brilhante de Matthew Vaughn” 

Por Luís Gustavo Fonseca

Desde que eu comecei a ler HQs com uma maior intensidade (e mesmo assim, cobri superficialmente várias das leituras dadas como clássicas), nenhum autor conseguiu despertar mais meu gosto e interesse do que Mark Millar. Mesmo que ele não esteja no patamar de lendas como Alan Moore, Neil Gaiman, Frank Miller, entre outros, o autor escocês é o responsável por várias das histórias que mais aprecio, sobretudo Kick Ass, talvez sua melhor criação.

Kingsman: Serviço Secreto é mais uma das obras do autor que ganha vida no cinema graças a Matthew Vaughn, diretor de Kick Ass (que acabou tendo boa parte de seu sucesso no home vídeo), que aqui é produtor, diretor e roteirista, quesito que realiza ao lado de Jane Goldman. Vaughn é um diretor de carreira curta, mas que prezo bastante, já que além do excelente trabalho em Kick Ass, também foi o responsável por dar ao mundo uma nova visão aos mutantes da Marvel em X-men: Primeira Classe (que é ótimo!) e que acabou levando ao também excelente X-men: Dias de um Futuro Esquecido. Com isso em mente, o novo casamento entre Miller e Vaughn não poderia ser mais bem vindo.

Kingsman 4

Na trama, Eggsy (Taron Egerton) é um jovem com potencial para brilhar, mas que o desperdiça graças à vida difícil que leva, onde sua família (sobretudo, sua mãe) é maltratada pelo seu padrasto. Após se envolver em uma confusão e terminar na delegacia, ele acaba pedindo ajuda para a organização secreta dos Kingsman, na qual seu pai trabalhava anos atrás, e sacrificou a vida para salvar Harry Hart, o agente Galahad (Colin Firth). Como retribuição a este sacrifício, Hart não apenas solta Eggsy da prisão, como lhe dá a oportunidade de se tornar um agente secreto e ajudar a salvar o mundo dos perigos constantes.

O lado diretor de Vaughn acaba brilhando muito mais do que seu lado roteirista. Atrás das câmeras, ele é o responsável por proporcionar cenas de ação espetaculares, com uma assinatura própria. A porradaria que permeia vários momentos do longa é extremamente bem feita, tomando a forma do equilíbrio agradável entre as cenas de luta de um filme mais fantasioso, como Capitão América: O Soldado Invernal e as cenas de luta mais cruas, como tivemos ano passado com O Protetor e De Volta ao Jogo. É uma qualidade que ele já havia demonstrado em Kick Ass, e que aqui se repete: os cortes rápidos, em close ups, aliados a uma velocidade que parece aumentar e diminuir a todo o momento, dando um ritmo único às sequências. Caro leitor, a cena da Igreja é a prova viva disso. Que realização assombrosa! Já abro aqui o pleito para ela concorrer a Melhor Cena do Filmaiada Awards do ano que vem.

A palavra VISCERAL descreve a cena
A palavra VISCERAL descreve a cena

No roteiro, não há um trabalho ruim, mas ele não se equipara a direção. É verdade que talvez essa seja uma crítica que se estenda aos roteiros do Millar que, em sua grande maioria, são bastante exagerados, com ele quase sempre perdendo a mão no clímax, querendo fazer as coisas serem grandiosas demais (Michael Bay feelings). No filme, há um acerto no ritmo do longa, mas poderia ser realizado um trabalho quinze minutos mais curto, já que se dá um grande foco ao treinamento de Eggsy, e ele acaba desperdiçando a oportunidade de explorar, aprofundar mais seus personagens. Mas nada que chegue a destruir o argumento principal do filme, a grande sátira fantasiosa (e põe fantasiosa nesse caso!) aos filmes de ação e espionagem.

Ao falar das atuações, pode-se sentir a mão de Vaughn em relação à direção dos atores, sobretudo de tornar o trabalho de atores menos carismáticos em personagens de maior empatia, assim como fez com Aaron Taylor-Johnson em Kick Ass. Taron Egerton está longe de ser o melhor ator do mercado, mas para a proposta do longa, ele casa perfeitamente com o papel.

Kingsman 3

O trabalho dos coadjuvantes também é bem realizado, aproveitando-se de outra boa característica de Vaughn: sua capacidade de tirar bom proveito de seu elenco de apoio, como em Primeira Classe (com Kevin Bacon e Nicholas Hault) e Kick Ass (com Chloe Grace-Moretz e Nicolas Cage). Característica que, aqui, acerta e erra: é louvável a participação de Colin Firth, um ator que me agrada, mesmo tendo visto pouco de sua filmografia, pela versatilidade do que já assisti: do rei dramático em O Discurso do Rei, passando pelo inglês cético na comédia romântica Magia ao Luar, até o agente badass de Kingsman. e de Samuel L. Jackson, o vilão Valentine na obra, que dispensa comentários (e aqui nos brinda com uma voz chamativa).

Contudo, essa característica é falha, ou melhor, desperdiçada, no trabalho das atrizes Sophie Cookson (que faz Roxy, parceira de Eggsy na Kingsman) e Sofia Boutella (que interpreta Gazelle, a lacaia de Valentine com próteses mortais nas pernas). O filme poderia ter criado estratégias para explorar mais o potencial de suas personagens, principalmente de Gazelle. PUTZ, ela tem duas espadas nas pernas! Aproveite isso, cara! Por fim, Michael Caine e Mark Hamill fazem participações de luxo.

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A trilha de Henry Jackman é mais uma vez peça chave no filme, já que ajuda a tornar ainda mais bela toda a ação presente no filme. Contudo, ela é, às vezes, repetitiva, sem contar que bebe um pouco mais do que o necessário da trilha de O Soldado Invernal. O figurino do longa também chama a atenção, já que além de ser bem feito, é ao menos curioso ver o contraste em cena das roupas despojadas usadas por Eggsy com os ternos de Hart.

Por fim, mesmo sendo o trabalho de Vaughn que menos gostei, Kingsman: Serviço Secreto ainda é um filme indispensável, sobretudo para quem tiver a oportunidade de vê-lo no cinema. Ainda gostaria muito de ver um filme do diretor com um personagem mais conhecido (putz, um filme dele do Justiceiro seria SENSACIONAL). Mas se quiser continuar trazendo mais obras do Millar à vida, com esta qualidade, não há o porque reclamar!

Nota: 7,5/ 10.

 

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