7×1: Demolidor (2003)

Por Matheus Araujo

Com o Demolidor da Netflix saindo do forno, pensei em trazer a discussão quais são os motivos dessa nova adaptação ser uma NOVA adaptação. Ou seja, por que o antigo Demolidor jamais foi continuado? Quais foram as razões da Fox ter devolvido os direitos do personagem a Marvel? Todas essas respostas eu esperava encontrar na fracassada adaptação deles, lançada em 2003 e estrelando Ben Affleck como Matt Murdock.

Ao reassistir ao filme, fiquei estupefato, e considerei maldoso simplesmente escrever uma resenha sobre a obra – seriamente discorrendo sobre uma inevitável nota ZERO. O desempenho é tão catastrófico, patético, que se tornava piada. Melhor, então, seria abraçar esse lado e trazer algo de divertido de toda essa penosa experiência. E se há algo na memória recente do brasileiro que transcreve esse sentimento é o “7×1” – o que também achei um bom nome com o pretexto de listar 7 erros e 1 acerto da película.

ERROS:

1. A coerência desse roteiro é inacreditável. A cena do metrô, logo no começo, exemplifica bem o espírito do negócio e é digna de se aplaudir de pé. José Quesada está sendo perseguido pelo herói e se refugia numa estação de metrô. Ao adentrar no recinto, Matt sente dificuldade para localizar o bandido escondido devido às interferências causadas pelo som do distante metrô. O Demolidor, sagaz, se vira quanto a isso e encontra Quesada a ponto de surpreendê-lo e imobilizá-lo. Todavia, Matt não contava com a inteligência superior do roteirista, que o concede uma memória curta e o faz esquecer que o trem, que antes o atordoava, estava cada vez mais perto da estação em que se encontravam. Claro, esse trem o pega de surpresa também, colocando o herói de joelhos com seu barulho. Felizmente (?), o roteirista não se esqueceu de que o mocinho não pode ser vencido por um simples capanga, e mais uma vez nos agraciando com seu dom para contar histórias bem amarradas, faz com que o Demolidor reaja e derrube o vilão nos trilhos a espera do trem. E quando chega o dito cujo, o nosso herói que antes o havia percebido a distância, sofrido com sua presença, nenhuma reação esboça ao colar os ouvidos no barulho. Para coroar a cena, após superar sua bipolar e super sensibilidade auditiva, Matt ainda utiliza-se de todo seu domínio do discurso para proferir: “Sabe aquela luz no fim do túnel? Não é o Céu. É o trem C”.

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O Demolidor de 2003 não tem qualquer sentido.

Mas, acalme-se, não levante e ovacione tamanho talento em se contar uma história coerente – ou um mísero 1 minuto e meio de cena – e lembre-se que nem em seu clássico momento tenebroso nos quadrinhos, A Queda de Murdock¸ nosso diabo do bem pensa em matar alguém. Mas ser coerente com uma das bases do personagem nos quadrinhos seria pedir de mais… SÓ que, no final do filme, ele não mata o REI DO CRIME! Minha mente ficou meio turva depois disso tudo, mas suspeito que essa fosse uma tentativa de criar uma curva dramática para o personagem – embora, levando em conta essa linha de raciocínio, eles também se esqueceram de que, momentos antes, o Demolidor tinha matado o Mercenário! E por pura vingança, já que o vilão havia se rendido. E, como uma ação em Demolidor nunca vem sem uma contraditória, desnecessário dizer que este mesmo cara disse “a vingança mata a alma e envenena” quando a Elektra a desejava.

2. Com tamanho brilhantismo demonstrado no roteiro até o momento, você já consegue imaginar o tipo de diálogo presente. É uma frase de efeito por cena. E uma tentando superar o fator clichê da anterior: “a justiça é cega”, “vida passar diante dos olhos”, “luz no fim do túnel”, “pode um homem fazer a diferença?”, “você é cego?”, o dilema “eu não sou um cara mal”, “quantas mulheres você já trouxe aqui?”, “não quero te perder de novo”…

E os clichês não param nos diálogos. Eles vão de elementos batidos nos enredos dos combatentes do crime (corpo repleto de cicatrizes, dente perdido ao longo do banho, o símbolo ardendo em fogo) à toda uma forma de apresentar esses elementos de forma medíocre (zoom, slow motion, edição preguiçosa, centenas de tomadas aéreas). Mais trágico é que a direção e toda estrutura, além de péssima, parece ingênua. Ela não sabe sequer diferenciar drama de diversão e, por isso, não consegue o tom em nenhum dos opostos. Equívoco atrás de equívoco.

3. A ação, que é importante para qualquer filme de super-herói, não é tão desprezível quanto o restante. Ainda assim não é menos vergonhosa do que aquele pornô acidental na sala com a família reunida. Seu ápice é a luta contra a Elektra no parquinho.

4. A Elektra é um erro à parte. Para começar, na introdução do personagem, ela já começa a sentar a porrada num cego porque ele a segurou no braço! E pior, quando por algum milagre ele se desvia da agressividade dela, ela com dúvidas se ele era cego ou não, opta por enfiar o cacete de vez no cara. E então temos a assombrosa luta no parquinho das crianças. Acompanhados pelos diálogos sensacionais de sempre e o cântico favorito de todas as torcidas mirins: “Briga! Briga! Briga!”.

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Jennifer Garner está surpreendentemente gata! Até porque para um cara cego, a beleza é o principal.

E todo o restante acompanha isso. O uniforme, os desenhos de demoniozinho nos sacos de areia… Para se ter a ideia, em um momento se ouve que o problema dela era estar na família errada, no TEMPO errado. Pensei a respeito. Não cheguei a nenhuma conclusão.

5. Não é necessário muito para explicar o motivo de a trilha sonora figurar dentre os erros. A música do longa-metragem é tão zoada que a escolha para seu momento dramático é Evanescence. DUAS VEZES.

6. Tratando-se do Demolidor, cria-se bastante expectativa por parte do leitor dos quadrinhos quanto à exploração das deficiências e poderes do herói. A forma como essa particularidade foi trabalhada já rendeu mecânicas interessantes para cenas e cenas. E o filme até tenta. Logo de início, ele opta por representar os poderes do herói como um sonar, evidenciando por meio dos sons ambiente a percepção do Demolidor. Visualmente o resultado para 2015 não é interessante. Envelheceu e não é bastante criativo ou explorado. Sonoramente ele é uma catástrofe.

Aparentemente uma regra, todo o áudio é exagerado. E não só quando perto do personagem poderoso ou dramaticamente, como julgo que teria sido melhor. Por exemplo, quando o Rei do Crime é apresentado, com uma tosquíssima trilha sonora e uma câmera que o revela todo pomposo, a sonorização ainda desponta como a maior fraqueza. Em um momento específico, ele vai liberar a fumaça do charutão e a sopra, mas o efeito sonoro é o da ventania que bate a porta. O Michael Clarke Duncan tem uma puta voz e ela sozinha já é o suficiente para passar todo o poder do Rei do Crime. E se isso se restringisse ao Rei estava ótimo. Com o personagem de Colin Farell parece piada.

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O Mercenário é a síntese desse desastre. Vergonha alheia. Ele não passa por uma cena impune. Ele faz uma velha engasgar com amendoim, arremata um lápis em uma azeitona e até enche o saco de um rato. E aquele sotaque?

Só para terminar com a tristeza do Rei, relembro as linhas que o consagraram. Segundos depois de descobrir que o Demolidor estava a caminho, ele ordena a seu assistente que esvazie o prédio de todos seus subordinados e justifica: “Eu fui criado no Bronx. É algo que você não entenderia”. O Rei do Crime não tem motivos para brigar com o Demolidor. Tudo que o Demolidor  fez, pelo menos do que aparece no filme,  foi matar uns terceirizados que cumpriram todas as suas tarefas… Até dá para entender que eles tem um histórico, já quando ficou pessoal ninguém sabe. Pelo menos, quem não é da galera do Bronx.

7. O Demolidor. Como de praxe, todo mundo sabe quem é o encapuzado. No entanto, diferente de outros super-heróis, aqui ninguém sabe o porquê dele ser o encapuzado. Falta background. O uniforme existe porque sim. Até a explicação dos poderes é tosquíssima. Uma das menos bacanas de todas. O diretor tenta o lado dramático e, covarde, logo faz uma edição com uma trilhazinha esquisita aspirando a ser descoladinho. No fim, as motivações e as habilidades do Demolidor soam mais como algo inato que treinado. Como se fosse natural para Matt e seu pai, dois derrotados, se determinarem a serem melhores.

Sem falar que o personagem está deturpado. Não digo isso nem pelas regras dos quadrinhos, mas pelas do próprio filme. Pow, ele deixa de combater o crime para foder. E esse senso de justiça? O cara virou as costas para uma pessoa em necessidade. Não passa de cúmplice maldito. Sem falar que Matt Murdock tá muito volátil. Ele praticamente ameaça um réu no tribunal e manda o Fisk tomar no cu no primeiro encontro deles. O Fisk responde “Ninguém é inocente” e eu concordo que pelo menos o Demolidor não é.

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E a atuação do Affleck não redime nada. Nem perto de ser a pior coisa do filme, ele usa todos os estereótipos. Eu até queria defender o cara por tudo que ele já fez de bom, mas…

E sobre quando os quadrinhos são lembrados as coisas se tornam a faca de dois gumes. Existem citações e referências legais. Por exemplo, Jack Murdock luta contra John Romita. Mas tem hora que eles tem a pachorra de deturpar clássicos como “um homem sem esperanças é um homem sem medo”.

ACERTO:

1. É tão irrisório que resolvi juntar dois: o intérprete de Ben Urich e os créditos iniciais. Urich é a cara do Marcelo Tás e os créditos aparecem em braile. Isso é legal.

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Marcelo Tás como Ben Urich.

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