Demolidor (Netflix)

“Primeira temporada do Homem Sem Medo leva o Universo Marvel a um novo patamar”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Uma definição “clássica” que tenho para o Demolidor é que “Ele é a mistura perfeita entre o Batman e o Homem Aranha: o estilo de luta e senso de justiça de um, e os apertos na vida civil do outro”. Isso já é o suficiente para chamar a atenção de qualquer um que se interesse por super heróis. Mas o legado do Homem Sem Medo vai além e, em suas décadas de existência, já nos entregou arcos incríveis como A Queda de Murdock e Diabo da Guarda, e personagens que mudariam todo o Universo do Marvel.

Infelizmente, o personagem que faz de sua “fraqueza” sua maior arma na luta contra o crime, nunca teve uma adaptação digna para o meio audiovisual. Por não alcançar o status quo de personagens como o Homem Aranha ou os X-men, não teve a oportunidade de ganhar uma animação própria, e quando teve seu próprio filme… Bem, foi um desastre digno do nosso 7 x 1, em uma das mais estapafúrdias adaptações dos quadrinhos para o cinema. O desastre foi tamanho que a Fox, detentora dos direitos do personagem na época, deixou-o esquecido em seu acervo até quando foi obrigada a devolver os direitos para a Marvel.

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E o Demolidor acabava de entrar em um bonde que vinha andando muito rápido. Após emplacar a popularidade de outros heróis menos conhecidos pelo grande público, como o Homem de Ferro e Thor, a Marvel acabava de vir do sucesso estrondoso de Os Vingadores. A essa altura, o estilo dos filmes do estúdio já estava consolidado: aventuras com um forte teor de fantasia, repleta de ação e efeitos especiais deslumbrantes, temperado por um humor que viria a se tornar sua marca registrada. Sendo assim, como encaixar um personagem urbano com um background mais pesado e pés no chão, com um passado manchado por um filme pífio, neste carrossel?

Ora, colocando ele em um “filme de 12 horas” produzido pela empresa que despontou nos últimos anos produzindo séries como Marco Polo e House of Cards, é claro!

A ideia de levar o Demolidor para a televisão foi a melhor sacada que a Marvel teve até hoje em seu Universo Cinematográfico. O novo formato não permite o mesmo alcance de público, nem uma superprodução mirabolante costumeira das telonas, mas oferece algo muito mais vantajoso: a capacidade de diversificar seu universo, de oferecer novas nuances, de se reinventar.

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Com horas e horas a sua disposição, Demolidor ganha uma vantagem que pouquíssimos outros heróis possuem: tempo para estabelecer seu próprio universo. O mundo criado por Drew Goddard é certeiro ao apresentar cada novo elemento deste Universo Marvel. Em poucos minutos no primeiro episódio, já se estabelece a origem de Matt Murdock (vivido por Charlie Cox), dispensando aquela velha necessidade de um filme de origem. Personagens importantes do mundo de Murdock, como seu amigo e sócio do escritório de advocacia, Foggy Nelson (Elden Henson), ou seu futuro interesse romântico, Karen Page (Deborah Ann Woll), são introduzidos de forma eficiente e de fácil entendimento para aqueles que não estão familiarizados com o universo do personagem. A fé do herói e todo seu teor religioso, sempre presente nos quadrinhos, também estão presentes ao longo dos episódios, com os mais variados dilemas morais se desenrolando ao longo da trama. A ambientação da história também é outro trunfo da trama: em uma Hell’s Kitchen que se recupera dos efeitos da batalha de Nova York, o clima mais pé no chão ajuda mostrar um outro lado do mundo Marvel, pouco explorado até agora.

Aliás, o tom da história é uma das maiores virtudes da obra. Se o caráter comercial dos filmes os obriga a uma classificação mais branda, Demolidor se aproveita de seu formato para possuir uma vibe bem mais pesada, não tendo medo trabalhar a violência em diversos momentos durante a história. Como um crítico gringo bem definiu, “É o que o Batman de Christopher Nolan sempre quis explorar, mas não pode”.  As lutas estão bem coreografadas, igualando ou mesmo superando o trabalho de Capitão América: O Soldado Invernal, mas com o advento do sangue, causa um impacto maior. Ossos saindo pelo corpo e cabeças sendo esmagadas são apenas um dos “detalhes” que complementam uma execução impecável das cenas de porradaria, filmadas com competência em planos mais abertos e longos, não confundindo a cabeça do telespectador. O plano sequência que encerra o segundo episódio talvez seja um dos melhores exemplos disso. Interessante perceber, também, como cada capanga dá trabalho para Murdock: nada de dar 2 ou 3 socos e o adversário está derrotado. Ele tem que usar uma verdadeira gama de golpes para vencer seus oponentes (e apanha MUITO no processo), o que enfatiza o nível de realismo proposto pela obra.

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Com a duração e bem estruturada, a série se aproveita para explorar as relações entre os diferentes personagens. E é incrível como essas relações ajudam a construir a imagem dos personagens: a de Karen e Foggy, que ajuda a aliviar o clima da série, mas que também corrobora para a sustentação das relações existentes dentro do escritório de advocacia Nelson & Murdock; a de Matt com Claire (Rosario Dawson), enfermeira que descobre sua identidade secreta e passa a ajudá-lo, estabelecendo um relacionamento de confiança; a de todo o núcleo mafioso da série, com seus diferentes interesses entrando constantemente em conflito, e proporcionando uma boa dinâmica; e, principalmente, a relação de Wilson Fisk (Vincent D’Onofrio) com Vanessa (Ayelet Zuer), que talvez seja a que mais me agrada. Ela não só é bem desenvolvida, como mostra uma outra faceta de Fisk, mais desconcertada e, por isso, mais humana, colaborando para mostrar que esta primeira temporada não é apenas mostra como Matt Murdock virou o Demolidor, mas como Wilson Fisk se tornou o Rei do Crime.

Bato, mais uma vez, na tecla de como o formato de série de TV é essencial para notarmos a qualidade do produto no fim. Nada é feito com pressa. Os personagens são construídos aos poucos, e as relações não precisam ser alavancadas de forma abrupta. E essa falta de urgência, de fazer tudo acontecer de uma vez, é muito bem vinda. Existem, sim, momentos de arrasto, mais cadenciados, que podem prejudicar a experiência daqueles que não são tão fãs de quadrinhos ou do personagem, e que não fará uma maratona para assistir essa temporada. Mas todo momento mais tranquilo é em prol da obra: os flashbacks são bem inseridos na trama, e não atrapalham a dinâmica; e os episódios que mostram o treinamento de Matt com Stick (Scott Glenn) e o passado do Rei do Crime, não poderiam ser mais bem vindos.

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A série explora, também, o talento dos atores que fazem parte do elenco. Charlie Cox assume o manto do herói sem problema, e demonstra sua capacidade de convencer tanto como advogado quanto vigilante. A química dele para com os demais personagens funciona muito bem, como é com Elden Henson, que na pele do simpático sócio de Murdock, mostra que ainda sim é possível haver o “humor Marvel”, de qualidade, neste mundo mais sombrio. Deborah Ann Woll tem espaço para possuir brilho em sua própria subtrama, sabendo dominar tanto uma faceta mais dramática como uma mais leve. Há espaço, também, para que os personagens de Rosario Dawson, Wesley (Toby Leonard Moore), Leland Owlsley (Bob Gunton) e o jornalista Ben Urich (Vondie Curtis-Hall) possam ser bem trabalhados e, consequentemente, os atores possam acrescentar a obra. O que coroa o quesito é a fodocitude de Vincent D’Onofrio como Wilson Fisk. Se uma crítica constante aos filmes da Marvel é a falta de força, de presença, de seus antagonistas, D’Onofrio irá provar o contrário. Quando em tela, tudo gira em torno do ator, que sabe dominar a cena com maestria, mostrando toda a imponência do Rei do Crime.

A série não se arrisca em uma miríade de efeitos especiais, se concentrando mais em seu teor dramático e nas coreografias das lutas, mas visualmente, não há como não falar dos uniformes usados por Murdock. O preto, apresentando na célebre passagem de Frank Miller pelos quadrinhos do personagem, me agrada mais e combina totalmente com a proposta da série. Já o vermelho… Não acho ele ruim, como muitas reações que vi desde sua divulgação. É crível. Mas causa estranheza, um certo desconforto. Espero que o uniforme seja apenas um primeiro modelo e, ao desenrolas de séries futuras, um novo traje seja apresentado.

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E há de se destacar o trabalho sonoro da obra. Tanto na presença dos mais variados sons ambientes, que nos dão um vislumbre de como Matt se localiza neste universo (ao contrário do “sonar” do filme), como na própria trilha composta por John Paesano, que consegue colaborar no ritmo dado durante toda a obra, com seu trabalho se destacando em vários momentos. Outro quesito que merece destaque é a presença deliberada de diálogos em outras línguas (espanhol, russo, chinês, japonês), o que evita sotaques em inglês toscos e estereotipados.

Finalmente, Demolidor talvez seja o maior game changer da Marvel Studios até agora. Se Guardiões da Galáxia foi o filme que abriu novas portas para os super heróis no cinema, Demolidor pode ter causado o mesmo impacto nas adaptações de quadrinho para a TV. Claramente, a série está em outro patamar se comparada a Gotham, The Flash e Agents of SHIELD (e diria até mesmo que Arrow, apesar de não assistir esta última). Com mais tempo e independência do que Agente Carter, o seriado mostra capacidade de fazer parte do Universo Marvel, mas ainda ser algo totalmente diferente, novo, e incrivelmente atraente. Ao fim do último episódio, não há alegria maior em saber que ainda teremos as séries de Luke Cage, Jessica Jones e Punho de Ferro e a união de todos em Os Defensores, produzidas pela Netflix. E de que, agora, o Demolidor possui uma adaptação digna de sua história no meio audiovisual.

Nota: 9/ 10.

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18 comentários sobre “Demolidor (Netflix)

  1. Finalmente uma série de super herói que vale a pena ser assistida. História muito bem conduzida e encaixada com exito no universo já existente.
    De todos os acertos o que mais me agrada é o desenvolvimento do Fisk, culminado naquele discurso épico do ultimo episódio. Anos luz melhor que o Loki.
    Também é muito interessante a possibilidade criada para os heróis da Marvel que são mais humildes no quesito poder, eles podem ocupar um território esquecido pelos grandões Avengers. Enquanto no cinema Tony Stark e seus amigos enfrentam alienígenas e deuses mitológicos, o Daredevil está chutando a bunda de bandidos comuns nos seriados.
    Entretanto, as demais series que estão por vir me preocupam. Não conheço nenhum dos outros personagens principais e é por isso que fico com o pé atras quanto a seus papeis como protagonistas. Mas espero que eu esteja equivocado e que daqui pra frente a nova frente só melhore.

    ps: A ultima imagem não é um spoiler do caralho? E esse uniforme ta muito feio, podiam melhorar isso ai. Mas de qualquer forma não importa, o Murdock não vê mesmo o quão feio esta hahahaha

    1. Bem, saiu um dia antes da estreia a imagem do uniforme, e passou uma semana desde a estreia, então não vi problema em colocar ele.

      E ninguém conhecia Guardiões da Galáxia também, e deu no que deu… Então, deve-se apostar no retrospecto! =D

      Agora, sonhando aqui com uma série do Justiceiro e do Cavaleiro da Lua neste formato. Como você mesmo disse, é a chance dos heróis mais humildes brilharem e terem acesso ao público em geral.

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