Chappie

“Neill Blomkamp ainda fica devendo, mas proporciona outro bom filme”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Essa não é a primeira vez (e, provavelmente, não será a última) que irei recorrer ao futebol para fazer uma analogia com o cinema: Neill Blomkamp pode ser considerado o clássico exemplo do jovem jogador, das categorias do clube, que entra em campo em uma partida decisiva e desequilibra. Faz gol, dá passe, dribla e proporciona um verdadeiro baile. É escolhido o melhor em campo, vira capa de jornal no dia seguinte e é foco das discussões de mesas redondas por todo país. Enfim, do anonimato, se transforma em uma grande estrela.

E a partir do momento que temos noção desta qualidade, do que o jogador, ou melhor, o cineasta, é capaz de fazer, vem também a pressão da indústria e do público. Após proporcionar o excelente Distrito 9, uma das melhores ficções científicas dos últimos 15 anos, esperava-se que ele não só mantivesse a qualidade, como ainda a melhorasse ainda mais.

Chappie 3

Infelizmente, não foi o que aconteceu. Há dois anos, tivemos o lançamento de Elysium, que sofreu, injustamente, nas mãos da expectativa. Como eu disse na review que fiz sobre o filme, ele está longe de ser ruim, mas fica, sim, o gosto amargo na boca, de ver algo inferior ao que foi mostrado. Paciência. Era apenas o segundo filme do diretor, e ele ainda tinha um longo caminho pela frente, nos “gramados” de Hollywood.

Chegamos, então, a estreia de Chappie, neste ano. O novo longa, baseado em um curta produzido por Blomkamp, conta a história de Chappie (com a voz de Sharlto Copley, parceria do diretor desde Distrito 9), um robô policial de Joanesburgo que após ter ganho uma consciência de seu criador, Deon (Dev Patel), é acolhido (após um sequestro de Deon, é verdade) por três bandidos, que passam a ensinar e cuidar do robô, na esperança que Chappie possa ajudá-los em um grande assalto.

chappie 1

Blomkamp é diretor e um dos roteiristas da obra (função que ele divide com Terri Tatchell, também de Distrito 9). Na direção, ele continua em alta comigo: me agrada muito o modo de filmar do sul africano. Bons planos, é uma ação limpa, que passa longe de ser confusa e escura, o que corrobora para uma fotografia bem feita. Outra característica do diretor pela qual sou fã é o design de seus mundos: seja os alienígenas de Distrito 9, ou os robôs de Elysium e Chappie, percebo uma assinatura que me satisfaz e ajuda a enriquecer bastante a obra.

Já na elaboração do roteiro, começo a me preocupar. Assim como Elysium, Chappie pra mim tem ótimas ideias, mas que se perdem ao longo da obra. É bastante interessante uma das discussões propostas pelo filme: você cria robôs para tomar o lugar de humanos no papel da polícia, visando não só uma força tarefa mais eficiente, mas a preservação de vidas humanas, ao menos pelo lado dos policiais. Contudo, a partir do momento que esses robôs podem ganhar uma consciência, e serem capazes de sentir, pensar e viver de forma autônoma, o que difere eles de nós ou de outros seres vivos? Por que a vida deles valeria menos do que a nossa? Um robô pode ser concertado após ser avariado, certo, mas seria o mesmo robô de antes? É justo esse tipo de banalização? Perguntas que passam na cabeça do telespectador e são brevemente abordadas no longa, mas que, infelizmente, não são aprofundadas.

Chappie 4

Outra discussão que me agradou é como o meio que cerca o cotidiano do robô afeta o seu modo de viver e sua concepção de mundo. Como ele é praticamente um bebê em um corpo de titânio no começo, toda e qualquer influência, seja ela positiva ou negativa, afeta na sua formação de caráter. Um último tópico interessante são os questionamentos do Chappie acerca do comportamento humano, como “por que mentimos” ou “por que causamos mal uns aos outros”. Uma reflexão válida.

Uma pena que discussões tão interessantes sejam diluídas por um roteiro de ritmo atrapalhado. Devido ao tempo dedicado ao acompanhamento de Chappie, esquece, por vários minutos, a existência e consequente desenvolvimento de outros personagens, como o de Deon, ou o de seu rival na empresa que trabalha, Vincent (Hugh Jackman). Aliás, os personagens são o calcanhar de Aquilles do roteiro: superficialmente desenvolvidos, é difícil criar qualquer empatia por eles, talvez salvo por Yolandi, a “mãe” de Chappie.

?????????????????

E o trabalho fraco com os personagens afeta diretamente na atuação dos atores. Assim como em Elysium, que tinha um elenco razoável, quase a totalidade da equipe passa despercebida aqui. É o caso de Sigourney Weaver, por exemplo, ou até mesmo de Hugh Jackman, que mesmo com seu talento, não deixa marca. Dev Patel idem. O destaque fica mesmo com a dupla de atores sul africanos, Ninja (!) e Yo-Landi Visser, ao lado do trabalho de Sharlto Copley. A química entre os três funciona e ajuda a carregar o filme.

O visual já mereceu elogios, que pode ser estendido também aos efeitos especiais (e que ótimo que esse filme não é em 3D!) e também a trilha sonora, composta pelo mestre Hans Zimmer. Acho que assim como em Elysium (não lembro no caso de Distrito 9), a trilha ajuda muito a ditar o ritmo do filme, e tem presença garantida nas cenas de ação.

?????????????????

Finalmente, Chappie não é um novo Distrito 9, mas não via a necessidade de ser isso. Dessa vez, não sinto o gosto amargo na boca. Poderia ser melhor? Claro, mas mesmo com seus tropeços, ainda se revela uma obra interessante, digna de ser apreciada. Lamento apenas que o filme tenha sido um fracasso de bilheteria (arrecadou apenas 81 milhões de dólares pelo mundo), e que isso possa interferir negativamente na carreira de Blomkamp, que ainda tem muito “futebol” pra mostrar. Se ele voltará a ser o centro das conversas nas mesas redondas, com o novo filme do Alien? Apenas o tempo poderá dizer.

Nota: 7/ 10.

Anúncios

3 comentários sobre “Chappie

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s