Vingadores: Era de Ultron

“Mais maduros, mais humanos, mesmo heroísmo. Marvel e Joss Whedon conseguem novamente”


Por Luís Gustavo Fonseca

Muitas coisas passaram na minha cabeça em 27 de Abril de 2012, após a minha sessão de Os Vingadores. De “Putz, mas como esse filme é bom!” até “Mas quem diabos é o cara da cena pós créditos?”. Havia muito para assimilar, para ser discutido com os amigos. Mas havia uma certeza: eu mal poderia esperar para ver a continuação da saga da equipe. Quatro filmes e três séries de TV depois, é chegada a hora do grande reencontro.

A essa altura do campeonato, com tantos trailers e clips divulgados, uma sinopse poderia ser desnecessária, mas nunca é de mais: com intuito de proteger a Terra de ameaças exteriores e, ao mesmo tempo, dar um fim a necessidade dos Vingadores, permitindo que cada integrante possa viver sem correr riscos de vida, Tony Stark (Robert Downey Jr.) resolve desenvolver o Projeto Ultron. Contudo, claro, o desenvolvimento do projeto vai todo por água abaixo quando Ultron (James Spader) se rebela e resolve exterminar a humanidade. Cabe, então, aos Heróis Mais Poderosos da Terra acabar com esta nova ameaça.

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Vingadores: Era de Ultron tem uma miríade de qualidades. Mas as mais importantes estão atreladas a um nome, ao MAIOR Vingador das duas obras da equipe: Joss Whedon. O diretor e roteirista da obra prova, mais uma vez, o quão importante sua liderança e suas ideias são decisivos para a qualidade final. A direção de Whedon é um espetáculo, de um capricho e impecabilidade assustadora. A cena que abre o filme já mostra sua capacidade não só de criar cenas de ação de explodir cabeças, mas também de mostrar a sinergia vital que a equipe precisa ter nestas cenas. Uma sequência de combinações de golpes para deixar de queixo caído qualquer fã. A câmera sempre está no lugar correto, sempre faz uma movimentação tranquila, que não te faz perder o foco nas batalhas, e que nas cenas mais calmas, também não decepciona. O mais importante: vários takes da obra parecem ter sido tirados diretamente dos quadrinhos! Congeladas, as cenas são storyboards prontos, e somos capazes de imaginar aquilo em qualquer HQ. Esse tipo de transição, mesmo com os diversos filmes de heróis que tivemos nos últimos 15 anos, é algo que poucos, muito poucos, conseguiram dominar tão bem quanto ele.

Mas Whedon não apenas dá uma forma bonita e deslumbrante para sua obra. Não. Se existe algo mais agradável que o Whedon diretor, é sua faceta de roteirista, que preenche a obra com uma paixão e honestidade perceptível. É um quesito que ele domina com perfeição. A dinâmica do longa funciona de maneira brilhante, com um belo ritmo, que não cansa, enquanto os diálogos, mais uma vez, criam um balanço essencial entre a parte dramática dos personagens e o lado cômico, marca registrada da Marvel. E, neste novo capítulo, nos apresenta heróis cada vez mais maduros, com conflitos internos mais humanos e com camadas mais profundas.

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O desenvolvimento dos personagens, e de como dão suas relações, também são de suma importância para a obra em, algo que é desenvolvido em várias frentes: a equipe como um todo; o conflito de pensamentos entre Stark e Steve Rogers (Chris Evans); do ‘climão’ entre Bruce Banner (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff (Scarlet Johansson); de Ultron para com os Vingadores. Aliás, outro mérito do roteiro: a apresentação dos novos personagens. Todas as novas introduções são feitas com esmero e de maneira eficiente. O ‘nascimento’ de Ultron, espetacular, só é superado pelo surgimento ainda mais sensacional do Visão (Paul Bettany), o provável novo queridinho do público. Os gêmeos Maximoff, Wanda (Elizabeth Olsen) e Pietro (Aaron-Taylor Johnson) também não ficam atrás. E o trabalho com eles também é bem feito, ficando claro o porquê eles estarem contra os Vingadores em um primeiro momento e, posteriormente, se juntarem a equipe. As diversas subtramas e conflitos pessoais dos personagens também possuem sua importância, havendo um balanço certeiro na condução e no tempo de tela de cada uma delas.

Mas creio que a nuance que mais merece destaque nesse quesito é a transformação pela qual Clint Barton/Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) passou ao decorrer do longa. Se no primeiro, Renner reclamou que “Em 90% do filme, fiz algo que não queria”, é notável que Whedon ouviu suas reclamações e tratou de fazer algo diferente desta vez. O personagem ganhou várias novas camadas, sendo mostrado ao público um lado ainda inexplorado do herói. Possui cenas de ação melhores, falas mais engraçadas (muitas das melhores linhas do texto), e colabora também na parte dramática, como servindo de espécie de mentor para os gêmeos, especialmente para Wanda.

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Esse tipo de desenvolvimento, consequentemente, acaba influenciado nas atuações, que estão ainda mais refinadas. A exemplo de Renner, houve uma melhora no trabalho de todos, que possuem uma química ainda mais agradável desta vez. RDJ e Scarlet dispensam comentários; Chris Evans está cada vez mais a vontade no papel de líder do Capitão América, conseguindo contrabalancear o peso da presença de Downey Jr; mais a vontade, também parece Chris Hemsworth como Thor, apesar de em uma escala menor; Mark Ruffalo consegue, cada vez mais, fazer com que as pessoas esqueçam que um dia o papel já foi feito por Edward Norton, sendo não apenas um bom Hulk, mas um ótimo Bruce Banner.

Participações menores, como de Maria Hill (Cobie Smulders), Máquina de Combate (Don Cheadle), Ulisses Klaw (Andy Serkis, em carne e osso) e Nick Fury (Samuel L. Jackson) também possuem sua importância. E os novos integrantes também possuem seu espaço e sua contribuição de peso: Paul Bettany transmite uma serenidade que transforma o Visão em um dos melhores personagens presentes; nas mãos de Whedon, conhecido pela construção de boas personagens femininas, Elizabeth Olsen mostra seu ótimo potencial de trabalho, funcionando muito bem ao lado de Taylor Johnson (que eu ainda prefiro no papel do Kick Ass, mas aqui não compromete). E James Spader… Que vilão! Consegue ser assustador, transmitir os sentimentos do personagem, ser engraçado e um tanto melodramático. Conseguiu construir um personagem carismático. Tudo isso possível graças à voz do ator, que traz uma presença de peso para as cenas envolvendo ele.

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Nos últimos anos, a Marvel conseguiu sucessivas indicações ao prêmio de Melhores Efeitos Especiais (duas ano passado, com Capitão América: Soldado Invernal e Guardiões da Galáxia). Este ano, não deve ser diferente, já que outro trabalho bem feito. Não em relação em 3D, péssimo, que não produz UMA cena que valha a pena, e ainda escurece a película em diversos momentos. Mas pelo conjunto da obra, a qualidade de momentos como a esperadíssima luta entre Hulk e a Hulkbuster, ou a corrida do Mercúrio. Agradeço ao Whedon por não ter ousado imitar o Bryan Singer em X-men: Dias de um Futuro Esquecido. Ele sabia que não conseguiria igualar uma cena tão visceral com o personagem e, salvo uma única vez que ele tenta utilizar, rapidamente, o mesmo efeito, é sábio em querer explorar o personagem de outras maneiras. Os elogios ainda podem se estender aos visuais acertados de Ultron e Visão, com destaque para esse último, que foi guardado a sete chaves, e é um dos melhores trunfos da obra. Merece umaa menção o próprio figurino dos heróis, que também deu uma melhorada em relação ao primeiro.

A princípio, a trilha composta por Bryan Taylor (Thor: O Mundo Sombrio e Homem de Ferro 3) e Danny Elfman (trilogia Homem Aranha do Sam Raimi) me havia incomodado, pois não senti nela nem a presença, nem a maestria do trabalho que Alan Silvestri conseguiu no primeiro. Ouvindo ela separadamente, noto que ela tem mais qualidades do que eu julgava a princípio, sendo perceptível um vício ou outro do Taylor, e a mão do Elfman nas composições, sobretudo no tema modificado da equipe. Mas ainda opto pela trilha do primeiro.

Esse frame...
Esse frame…

E talvez justamente por ter sentido falta da trilha, no cinema, e por outros motivos de caráter mais subjetivos (não que o resto da review não seja subjetiva, mas acho que dá para entender), como uma decisão mais drástica aqui, uma forçada na barra ali, um climáx até apressado, que enxergo uma diferença primordial entre esse e o primeiro Vingadores.  Me atrevo até a, superficialmente, comparar aos primeiros Star Wars, Uma Nova Esperança e O Império Contra Ataca. A Era de Ultron possui o salto qualitativo que Império possui, melhorando e expandindo vários quesitos de seu antecessor. Contudo, não senti (e tenho medo de ser o único) a MAGIA presente no primeiro nesta continuação. Os Vingadores não é a melhor coisa do planeta, mas foi um marco, um evento, uma realização de, finalmente, ver aqueles personagens juntos em tela. E até hoje, mesmo com todas as suas imperfeições, ele continua me fazendo pirar a cabeça, e embarcar totalmente naquela aventura. Como bem dito na avaliação sobre como o filme mudou o Universo Marvel, ele “Não era mais um filme. Era O filme”. A sensação que tenho é que Era de Ultron está mais para “mais um” do que “o”.

Isso quer dizer que o novo é ruim? De maneira alguma, pelo contrário, é excelente, e na dúvida, é só reler os parágrafos acima. Contudo, não consigo gostar mais dele do que do primeiro. Talvez isso seja culpa da monstruosidade que foi esperar por ele, e a expectativa influenciou diretamente na experiência. Mas acho que só vendo novos longas dos Vingadores para saber se essa magia pertence apenas ao primeiro.

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Por fim, o fã da Marvel (e de heróis, em geral) não poderia sair do cinema mais feliz com o resultado. E a esse resultado devemos agradecer, mais uma vez, à Joss Whedon, o responsável por isso tudo, por termos chegado aqui. A sua ausência nos próximos longas da equipe será sentida. Os irmãos Russo já mostraram sua capacidade de assumir o fardo após o sucesso de Soldado Invernal, mas, definitivamente, não será a mesma coisa. Assim como o Universo Cinematográfico Marvel (MCU), mais uma vez, não será o mesmo pós Ultron. Muita coisa mudou entre 2012 e 2015. E até 2018, teremos Ragnarok, o primeiro filme de três novos heróis, séries da Netflix, a vinda do Homem Aranha (!!!!) para esse Universo e, claro, Guerra Civil. É… Parece que essa espera não será das mais dolorosas.

Nota: 9/ 10.

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Comentário Pós Review: A rápida cena pós-créditos é um ótimo fan service e bem empolgante, é verdade. Mas depois percebi que levanta questões que me incomodam, como “quando, onde, como, por que?”, e isso prejudicou a experiência.

 

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29 comentários sobre “Vingadores: Era de Ultron

  1. Concordo com o Adriedson. O que mais tem nesse filme são coisas desnecessárias e até aquelas que possuem potencial são desperdiçadas. É um filme que não vale a pena, se não pelo contexto em que está inserido. É um tropeço muito grande dado o momento em que a franquia estava. Infelizmente, não conseguiria dar mais que 6 para este filme – sem ser muito exigente.

  2. discordo dos dois, o ultron está longe de ser horrível, de desnecessário achei só a viúva com o hulk (mas não muito também, é aceitável), o desfecho foi bom. não é profundo, longe disso, fez o que foi proposto, tudo o que prometeu tá ali, diversão do início ao fim. concordo com o 9.

  3. Ultron com discurso clichê de melhorar o mundo destruindo ele.
    Não deu trabalho nenhum, os robozinho pareciam os capangas que tinham no power ranger, vinham e morriam.
    Mercúrio morreu e parece que ninguém deu a mínima, não se falou mais nisso.
    Família do Gavião desnecessária, romance também.
    Com certeza foi divertido. Mas no máximo um 7,5.

    1. Falar o que o Ultron não deu trabalho acho que é querer enxergar muito a parte + vazia do copo. Concordo que no fime, no “best he can do”, foi algo bem rápido (“um climáx até apressado”) e que fico com a impressão que deixou a desejar mesmo.

      Em contra partida, ele deve ter sido o vilão que mais pôs em risco a vida dos civis, algo que depois de Homem de Aço e de todas as críticas que o filme recebeuo, acho que deve ser uma preocupação sim dos filmes de super herois. Ele ameaçou a vida dos cidadãos de Wakanda, quando a Feiticeira encantou o Hulk; os de Seul (com maior enfase os do trem); e, obviamente, da cidade do leste europeu lá. Todo o planejamento para socorrer e ajudar essas pessoas dá um trabalho do cacete.

      “Ah, mas vc não prefere tirar esse tempo e por em pancadaria?” Claro! Tanto que devo gostar do mesmo Homem de Aço por causa disso, pq tem 1 hora de pancadaria desenfreada, de Smallvile até o centro e além de Metrópolis. Porém, mesmo com esse preferência, estou longe de achar que ele foi um adversário fácil ou que não deu um trabalho para os caras.

      Para não dizer que eu só discordei, concordo 110% que a morte do Mercúrio foi bem bosta. Tipo, MUITO bosta.

  4. Desta vez eu bato no peito e concordo com o DJ.
    -Se todo robo fosse dar trabalho, que nem os capangas do Demolidor, o filme ia ter 4h e ia ser chato pra caralho
    -Família do Gavião é crucial pro desenvolvimento do mesmo, e pro nivelamento como seres humanos pro resto do grupo
    – O romance não me agrada, mas é mais um dilema médico/monstro pro Hulk e agora um conflito também pra Viuvá, que até então não tinha problemas concretos
    -A morte do Pietro foi como disse o Gavião, ninguém notou
    Galera vamo rever o filme, acho que vocês tão precisando.

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