Mad Max: Estrada da Fúria

“Após 30 anos, universo pós-apocalíptico de George Miller retorna em toda sua glória”

 

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Já falei, aqui, em como me apaixonei pelo universo de Mad Max no início deste ano, quando vi a trilogia pela primeira vez. Após ver um dos trailers, o meu hype foi jogado lá pra cima. É verdade que ele ficou um pouco ofuscado pela presença de Vingadores: Era de Ultron, que estreava semanas antes, mas com o filme da Marvel em cartaz, finalmente pude me concentrar na expectativa pelo longa. E PUTZ, como essa espera valeu a pena!

Em uma sinopse básica, poderia resumir que o filme é uma grande perseguição. Max (Tom Hardy) é um personagem assombrado pelos erros do seu passado, e acaba sendo capturado pela Cidadela, comandada por Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne). Lá, ele se transforma em uma “bolsa de sangue” de Nux (Nicholas Hoult), um dos servos e adoradores de Joe, que controla seu povo com mãos de ferro e pitadas de uma cegueira religiosa. Porém, tudo muda quando uma das tenentes de Joe, Imperatriz Furiosa (Charlize Theron), se rebela contra ele, iniciando uma jornada que irá alterar a vida de todos.

Mad Max FR 2

De cara, digo meu maior problema com o filme: Tom Hardy. E surpreendo de estar escrevendo isso. Gosto dos trabalhos do ator, seja em algo maior como o Bane de O Cavaleiro das Trevas Ressurge, ou seu papel mais intimista, no ousado Locke. E não é o caso de sua atuação estar mal. Claramente, ele tenta criar o seu próprio Max, a sua versão badass do personagem:  voz rouca, o modo de falar, muitas caras e bocas (perceptíveis no trailer, aliás). Mas não senti, no seu trabalho, uma empatia que pudesse se igualar a de Mel Gibson. Ela existe, mas não convence de cara.

E muito dessa falta de empatia com Max é devido ao excesso de empatia com a personagem de Charlize Theron. Eu suspeitava, mas ela, de fato, rouba o filme, nos proporcionando uma personagem muito interessante e devidamente bem desenvolvida. Essa divisão de holofotes merece destaque por contrapor os filmes antigos, que acabavam ficando muito nas costas de Gibson. O bom trabalho com a personagem de Theron, uma verdadeira heroína, demonstra que George Miller não parou no tempo, e soube atualizar seu universo para os dias atuais, criando uma personagem feminina tão forte e tão badass quanto Max e outros vários protagonistas homens. O elogio da atuação pode ser estendido a Nicholas Hoult, provavelmente em um dos melhores papéis de sua carreira, e Hugh Keays-Byrne, que funciona muito bem como antagonista da obra.

A dona do filme com seu 'brinquedinho'
A dona do filme com seu ‘brinquedinho’

O grande responsável pela qualidade gigantesca presente em Estrada da Fúria é (e suspeito que não poderia deixar de ser) George Miller. Um gênio! Pensava que, para que o filme funcionasse, ele deveria conciliar os efeitos especiais que ele não tinha acesso há três décadas, com os efeitos práticos que consagraram a franquia. E foi exatamente o que aconteceu! A direção dele encanta mais uma vez, com takes maravilhosos e que sempre sabe onde se posicionar na ação, pondo em tela toda a insanidade do filme. A fotografia de John Seale também merece aplausos: casa as cenas quentes e áridas do deserto com cenas noturnas, que estão longe de ser escuras, mesmo com o 3D. Aliás, o formato pouco acrescenta, mas também não atrapalha. Quem desejar dar uma conferida, procure um dia de promoção.

VEJA TAMBÉM: F!CAST: O Monstro da Expectativa: Estrada da Fúria

A parte mais formidável do trabalho de Miller é o roteiro. Impecável. Há acertos em todos os quesitos, como o desenvolvimento dos personagens e suas relações; a apresentação do universo, que sempre foi uma de suas características mais fortes, e que volta com tudo aqui, ao apresentar uma organização social diferente das anteriores, misturando um teor religioso (em que Joe é uma espécie de líder e profeta) com elementos de mitologia nórdica (!) e adoração ao motor V8; o ritmo da obra, que é excelente. Correu o risco de anestesiar o espectador, já que pelo menos ¾ do filme são de ação ininterrupta. E até acho que o filme peca um pouco nesse aspecto, já que prefiro a ação presente na primeira metade do que a do clímax. Mas nada que comprometa. Quando o filme para, ele para em prol da narrativa, e não perde a mão. O ritmo e a perseguição, como um todo, é algo para rivalizar com o que foi feito em O Exterminador do Futuro 2. E esse é um dos melhores elogios que o filme poderia esperar.

Mad Max FR 5

Esteticamente, o filme é um espetáculo. Os efeitos do século XXI vieram a calhar, e dão um gás novo ao universo de Miller. Mas é no vestuário e na maquiagem, velhos pontos fortes do universo, que mora mais um dos méritos da obra. É impressionante como o bom trabalho nesse aspecto, que põe em tela: personagens com uma espécie de elefantíase, roupas de couro bizarras, braço mecânico, e um tocador de guitarra from hell em um carro alegórico (!!!), aliados ao tom do filme e aos excelentes designs dos veículos, tornam o universo de Mad Max muito palpável. É um tipo de imersão que apenas obras de fantasia, do calibre de Senhor dos Anéis, conseguiram exercer em mim até hoje.

Coroando tudo isso, a excelente trilha do DJ Junkie XL (Divergente, Noite Sem Fim), repleta de uma mistura eletrizante de tambores e instrumentos de sopro. Ela dá ritmo e empolgação às perseguições, assim como emoção nos momentos mais dramáticos, mas sempre se fazendo presente. A trilha Brother In Arms é um excelente exemplo disso. Agora, a certeza que o compositor irá fazer um excelente trabalho em Batman v Superman, quando será o responsável pelo novo tema do Cavaleiro das Trevas.

Poucas imagens resumem esse universo tão bem, quanto ESSA.
Poucas imagens resumem esse universo tão bem quanto ESSA.

Nunca esperava que gostaria mais deste filme do que de The Road Warrior, mas foi o que aconteceu. Certamente, será um dos meus favoritos do ano. Mas não importa se você tem a trilogia antiga em mente ou não: Mad Max: Estrada da Fúria é um dos melhores filmes de ação da última década, e pode E deve ser contemplado por qualquer um. Ressalto apenas que, se for a primeira vez que você esteja em contato com esse universo de Miller, e você se apaixonou, não deixe de ver os outros porque “Eles são antigos”. Acredite em mim, vale tão a pena quanto.

Nota: 9/ 10.

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41 comentários sobre “Mad Max: Estrada da Fúria

  1. Pra mim Tom Hardy fez um excelente trabalho, talvez seja pelo fato de que eu não goste dos filmes antigos e acho que o Max antigo não era tão “Mad” assim. Pouca conversa e atacar antes de ser atacado é a essência do personagem, além da falta de empatia com a causa pois como o personagem mesmo diz a única coisa que ainda lhe resta é o instinto de sobrevivência.
    O desinteresse pela vida dous outros também é algo fordístico no filme, o descaso com uma mulher gravida e seu bebê natimorto não é algo que se vê todo dia no cinema e isso e todo o resto de insanidade é o que faz a obra ser tão do caralho.

      1. Cara, que Belissima review, continue sempre com essas reviews, foi lindo ler tudo, que trabalho maravilhoso , sou fã de madMax precisava ler essas criticas positivas e negativas

  2. Em 1982, com 18 para 19 anos, fui ao cinema em Campinas assistir ao filme Mad Max 2 – A caçada continua, do diretor e produtor australiano George Miller (tradução literal seria “O guerreiro da estrada”. Fiquei impressionado com o filme. E não apenas eu, porque três anos depois veio Mad Max 3 – Além da Cúpula do Trovão. Estes filmes lançaram um até então desconhecido ator australiano por nome Mel Gibson ao estrelato e ao primeiro escalão de Hollywood. Alguns anos depois apenas é que assisti em VHS (os mais novos não fazem ideia do que é isso…) Mad Max, o primeiro da série. Considero o primeiro filme como sendo bom: Max, um policial rodoviário australiano fica completamente “Mad” quando uma gangue de motoqueiros que vandalizava pequenas cidades, cometendo todo tipo de delitos e violência gratuita (mais ou menos como a turma do Alex em Laranja Mecânica do Anthony Burguess) mata seu parceiro de patrulhamento e por fim, sua esposa e seu filhinho pequeno. Ele toma a justiça nas mãos e executa sua vingança contra a gangue. Um filme com início, meio e fim. Foi de certa forma uma surpresa que este filme tenha tido continuação – esta, a meu ver, a melhor daquela primeira trilogia (os filmes respectivamente de 1979, 1981 e 1985). O filme é uma distopia, isto é, uma ficção que apresenta um futuro trágico, dramático, catastrófico, chamado pela mídia – equivocadamente, se julgado em perspectiva teológica – de “apocalíptico”. Na cronologia de Mad Max, entre o primeiro e o segundo filmes aconteceu a Terceira Guerra Mundial, uma guerra nuclear, que quase devastou por completo a população do planeta. Os sobreviventes em um mundo desértico tentam reconstruir a sociedade e a existência, mas de um modo exótico, estranho mesmo. A estética dos filmes não se enquadra em padrão nenhum, a não ser talvez um estilo punk, mas muito exagerado. Os filmes são cheios de personagens esquisitos, e têm como ponto em comum a trajetória de um homem atormentado pela dor de sua perda, que não se perdoa pelo que considera seu pior fracasso, o de não ter conseguido impedir o massacre de sua família, e que mesmo sem querer acaba sendo um herói, ajudando pessoas: um grupo que mora em uma refinaria no meio do deserto (Mad Max 2) e meninos perdidos que vivem em um oásis (Mad Max 3 – este eu tenho como o pior da primeira trilogia. Tina Turner cantando “We don’t need another hero” não combina com Mad Max de jeito nenhum…).
    Esta introdução é necessária para uma compreensão mínima de Mad Max – Estrada da Fúria, que surge exatos 30 anos depois do último filme da primeira série. Max Rockatanski agora é encarnado pelo jovem ator britânico Tom Hardy. E o diretor é o mesmo George Miller, que faz um trabalho primoroso. O filme é tenso e intenso. As cenas de perseguição no deserto são as mais insanas que o cinema já viu. Charlize Theron, tão bela, está simplesmente irreconhecível como a Imperator Furiosa (engraçado ver anglófonos pronunciando “Furiosa” – sai algo mais ou menos como “Furiôssa”). O filme está cheio de gente surtada, pessoas esquisitas, deformadas por conta de exposição à radiação nuclear, é surreal e psicodélico demais, mas demais mesmo. Não sei de onde George Miller tira tanta inspiração para as sequências bizarras e incrivelmente malucas de seu filme. É um filme de ação, mas é muito mais que um filme de ação. Depois de Mad Max – Estrada da Fúria vai ser muito difícil dirigir um filme de ação, porque querendo ou não as comparações serão inevitáveis. E vai ser muito difícil alguém fazer algo que chegue ao menos perto deste filme de Miller. É um filme que é muito mais que um mero blockbuster. Não é a ação pela ação, não é a aventura pela aventura, como se um fim em si. Muito pelo contrário: o filme propõe questões seríssimas para nossa reflexão, questões para nosso futuro, mas que urgentemente têm que ser vistas com a maior seriedade agora, hoje, já, pelos governantes e pelo povo. Dentre as questões seríssimas que o filme apresenta encontram-se: a questão dos combustíveis fósseis, que um dia acabarão, a questão da água, este sim o líquido mais precioso do planeta (e não o diesel e a gasolina, tal como apresentado em Mad Max 2), a questão da escravidão do ser humano pelo ser humano e a questão do fanatismo religioso (o vilão do filme, Immortan Joe, se apresenta como um messias, e usando figuras da mitologia escandinava e da cultura japonesa, leva seus jovens escravos a matar e a morrer – qualquer semelhança com jovens membros de grupos terroristas radicais de inspiração religiosa hoje não é mera coincidência). O filme é muito louco, mas é inteligentíssimo. Faz pensar. Tem um enredo bem pensado, coerente. Vou querer ver o filme de novo.

    1. Muito boa sua análise do filme! Eu assisti duas vezes e poderia assistir mais dez pois tem tanta informação que apenas duas vezes não é o
      bastante para captar.

      1. Opa! Obrigado Cesar, agradeço suas palavras! Sim, o filme é muito bom, mas muito bom M E S M O! E tem que ser visto mais de uma vez sim. Tem muito material ali para ser discutido!.

  3. Mad Max deve ser o melhor filme de açao de todos os tempos,açao desenfreada(badum tss) todo tempo do inicio ao fim,eu nunca fui de fazer caretas vendo filme e ele conseguiu,faz Velozes e Furiosos parecer hot wheels,o unico erro do filme foi n ter tido um reebot ou uma re-estreia 3D dos classicos deixando o pessoal q n viu a triologia(como eu)ficar sem conhecer direito a historia,mas nada q comprometa o filme talvez ate ganhe com isso,pois vc n centraliza so em mad mas em todo o elenco pq vc quer saber quem e quem,o q se intensifica pelo fato de n existir nem o bem nem o mal,se quiser vc pode se comover e entender o imortal joe(o novo governador),isso faz vc realmente sentir alguma coisa quando eles se ferem ou pior morrem,Nux me lembra muito dobby vc comeca implorando sua morte e dps chora por ele(-.-sim chorei por ele e o guitarrista),n existe personagem background todos tem seu brilho,desde Nux ate o cara de espinha q sobe no elevador(ri muito dele e do “bebe”de joe)

  4. O filme é lotado, LOTADO de críticas sociais. Acqua Cola. Morrer e comer numa mesa de McDonalds. Tinha o contador de empresa que ficava pesando custos e benefícios da operação do Joe. Terra Devastada, sem saída. TODOS contaminados por radiação e obrigados a escolher entre morrer na estrada da fúria ou aos poucos por conta do câncer. (lembra do grito de FUKUSHIMA no comecinho?). Terra Devastada, sem saída, terra de “quem matou o mundo”. Não quero dar spoilers, mas queria muito falar do final e o quanto ele é bom.
    Por isso aviso que agora terão spoilers
    …..
    ….

    ……
    As sementes que a menina leva para a Cidadela representam a esperança. Mas é uma esperança vã, como o próprio Max diz, pois toda aquela cidade está condenada. Conseguiram abrir as comportas de água. Legal. Mas água não pode curá-los agora. Já mataram o mundo. E quem derruba o ditador no final “sobe”. As estruturas sociais naquele micro cosmos continuam as mesmas. E quem viu a verdade do Deserto vai embora no final. Tem muita coisa ali, só observar…

  5. INSANO!

    Curto sincretizar filmes e reduzi-los a uma palavra (claro que sempre muito polêmico). Para mim, Mad Max: Estrada da Fúria é definido como INSANO!!!
    1) Seja pelas viagens de roteiro e direção, com incorporação de elementos místico-religiosos (diversas citações da Valhalla nórdica, algumas manifestações pagãs), diversidade psicológica, “grupalidade”, política, suspense, mensagens claramente subliminares – por assim dizer – e uma série de outro elementos;
    2) Seja pela fantástica atuação do elenco, que adotou a ideia INSANA do filme e de seus personagens;
    3) Seja pela paisagem, sonografia/sonoplastia e fotografia do filme, com destaque à ultima, em minha opinião; e
    4) Subjetivamente, por me lembrar um jogo de video-game que eu curto há muito tempo. Para quem não conhece, o game se chama Borderlands, e carrega muita coisa em comum com o filme.

  6. O problema não é a atuação, o trabalho do Tom Hardy, mas sim a falta de carisma, de brilho próprio. Não tem jeito, uns nascem com, outros sem, e os q nascem com, possuem diferentes níveis de cativação. Discordo quando você fala que Miller não parou no tempo ao criar uma personagem feminina osso duro de roer. Ele é um diretor visionário, e já tinha feito isso 30 anos atrás com Tiazinha (Tina Tunner). A trilha sonora original, que sempre foi um problema na franquia (tendo melhor momento em Além da Cúpula do Trovão) continua falha aqui, sendo genérica e no tema principal, que é energizante, se assemelha muito aos trabalhos do Hans Zimmer para os filmes do Nolan. Inclusive pensei que era ele o compositor quando vi o longa. Para mim todos os 3 filmes anteriores são melhores. Mas esse Estrada da Fúria é bom e é um sopro de alívio, apesar de ser uma releitura de Road Warrior, numa indústria cada vez mais focada em adaptações de super-heróis.

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