Gotham, The Flash e os Heróis na TV: qual o melhor formato?

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Depois de um longo inverno (na verdade, do outono, inverno e parte da primavera americana), FINALMENTE chegaram ao fim às primeiras temporadas de Gotham e The Flash (que terá seu último episódio exibido na noite de hoje, nos EUA). E apesar do sucesso e dos fãs que conseguiram arrebanhar neste período, o suficiente para garantir futuras temporadas, ambas tem algo que eu particularmente não suporto.

Antes de qualquer coisa, vamos aos elogios. Em ambas, aprovo a escolha para o protagonista, seja de Ben McKenzie para um jovem comissário Gordon (o que me faz até perdoar a ausência do icônico bigode), seja a de Grant Gustin como Barry Allen. A meu ver, os dois conseguiram carregar as suas respectivas séries nas costas, construindo uma rápida empatia com o público (o que é vital para temporadas tão longas). O elogio pode ser estendido a outros dos elencos, já que a química entre a “força tarefa” que ajuda Berry funciona muito bem em Flash, e temos excelentes coadjuvantes em Gotham, como o Oswald Cobblepot vivido por Robin Lord Taylor, Edward Nygma (Cory Michael Smith), Fish Mooney (Jada Pinkett Smith) e Harvey Bullock (Donal Logue). A ambientação também é um trunfo de Gotham, que mistura carros antigos uso de novas tecnologias, tornando-a atemporal e lhe concedendo uma assinatura própria. Enquanto isso, Flash tem um tom mais leve e brincalhão, uma das melhores coisas do personagem e que, graças aos céus, foge da linha “sombria e realista” que parece ser a marca registrada das produções da DC.

Tudo muito bom, tudo muito bem, mas a pergunta que faço é: são REALMENTE necessários os 22 episódios por temporada?

O uniforme a princípio me incomodou, mas funciona
O uniforme a princípio me incomodou, mas funciona

Para quem é ligado em séries há muitos anos, esse sistema com 22 episódios por temporada é a coisa mais normal do mundo. No universo dos super heróis mesmo, vale lembrar que essa era a média de episódios de Smallville, bem antes do gênero de quadrinhos estourar no cinema e na TV. Contudo, para alguém que passou a dar maior importância e dedicação a TV apenas nos últimos anos (como eu), esse é um modelo fadado ao desgaste rápido e irremediável.

As duas séries usam de assassinatos como plano de fundo: a morte dos Wayne em Gotham e da mãe de Berry em Flash. É o plot que servirá de norte para o enredo, como uma espécie de main quest, mas que fica de lado no desenvolver da trama, à medida que outros problemas (ou side quests) vão surgindo. É uma estratégia que funciona, já que você pode jogar este problema maior, indefinidamente, para o futuro, para que o seriado não perca sua função de existência. Em paralelo a isso, você vai construindo os respectivos universos dos personagens, apresentando aliados e vilões que passarão a fazer parte da história.

A grande estrela dessa primeira temporada
A grande estrela dessa primeira temporada

The Flash se saiu melhor neste quesito, já que o velocista tem uma galeria louvável de vilões (Capitão Frio será sempre o nome “mais vilão de quadrinho” de todos os tempos) e, apesar de flertar demasiadamente com o modelo do Power Rangers (toda semana, um vilão diferente, mesma estrutura narrativa, mesma conclusão) em um primeiro momento, não chega a errar mão.

Gotham, que quis apostar em uma trama mais audaciosa (uma Gotham pré Batman, mas já com a presença de seus futuros vilões), errou feio nesse quesito. Criou episódios de pouco significado como o do The Balloonman; apressou e se estabanou com uma aparição precoce do futuro Coringa (tanto que plantou o personagem em The Blind Fortune Teller, mas também beliscou a outra origem do personagem no episódio seguinte, Red Hood); e fez o favor de implodir uma de suas melhores qualidades, Fish Mooney. A personagem, inexistente nos quadrinhos, tinha uma liberdade para crescer muito no seriado. Enquanto na primeira metade ela encanta, na segunda, cai em uma confusa e maluca trama, que pode ter culminado no não retorno da personagem para a próxima temporada. Não vou nem citar o sumiço inexplicável dos agentes Renee Montoya (Victoria Cartagena) e Crispus Allen (Andrew Stewart-Jones) depois dos primeiros episódios, ou o fato que Barbara Kean (Erin Richards) também ser deixada de lado, voltando apenas em um estranho arco envolvendo uma espécie de Mr. Grey assassino de Gotham, nos episódios finais desta temporada.

Tá, o episódio até ensina algo pro jovem Bruce Wayne, mas... Que episódio CUÉN!
Tá, o episódio até ensina algo pro jovem Bruce Wayne, mas… Que episódio CUÉN!

Parafraseando uma célebre frase do desenho do Pica-Pau, “Se Gotham tivesse comunicado a polícia, nada disso teria acontecido”. Ao invés de querer focar mais nos personagens que serão de maior importância no futuro, como Mooney e o Pinguim, a série acabou indo, mais de uma vez, a caminhos desnecessários, que pouco acrescentaram a trama como um todo. Se pelo menos a temporada fosse mais curta…

Aliás, paralelo ao desenvolvimento das duas, a rival Marvel foi e apresentou dois modelos diferentes: um deles foi com Agente Carter, que apostou em uma minissérie de 8 episódios; a outra foram os 13 episódios de Demolidor, lançados pela Netflix. E por coincidência ou não, acho que ambos se saíram de uma maneira melhor.

Que tiro no pé...
Que tiro no pé…

Enquanto talvez seja muita maldade comparar uma personagem secundária (ou mesmo de 3º escalão) como Peggy Carter a um herói top de linha de como o Flash, repito o que disse na review da minissérie: como ela seria uma baita transposição das HQs, com um arco fechado e direto, que arrisca menos e, portanto, tende a possuir menos coisas desnecessárias. São propostas diferentes, claro, e não acho que o universo do Flash caberia em um número tão pequeno de episódios. Mas um pouco dessa objetividade seria muito bem vinda na trama do personagem.

Já o modelo do Demolidor, eu considero o ideal. Enquanto a estrutura de 22 episódios já é normal para muitos, todas as minhas referências de séries de qualidade são com temporadas mais curtas: além da série do Homem sem Medo, temos outras produções da Netflix, como House of Cards e Marco Polo (13 e 10 episódios, respectivamente); Breaking Bad (a última temporada foi a única que passou do ‘teto’ de 13 episódios, com 16); Game of Thrones (10 episódios); Fargo (10 episódios); True Detective (8 episódios). Não que as únicas séries boas sejam as mais curtas (adoro 24 Horas, por exemplo, que tinha 24, mas até ela teve 12 episódios na última temporada), mas são modelos que, justamente por serem mais comprimidos, correm menos risco de cometerem erros.

Mesmo não assistindo Arrow, acho excelente quando os dois núcleos fazem um team-up
Mesmo não assistindo Arrow, acho excelente quando os dois núcleos fazem um team-up

Se Gotham seguisse o modelo de Demolidor e, em 13 episódios (tá vai, até mesmo 15), tivesse tido um foco em Gordon-Pinguim-Mooney, a exemplo da dualidade de Murdock e Fisk, o resultado seria bem mais promissor. A galeria de vilões do Batman é grande? É sim. Mas é por isso que você faz mais temporadas, para ir encaixando tudo com seu devido tempo. Não precisa jogar Selina Kay e Poison Ivy (aliás, que praticamente aparece em cameos), logo na primeira temporada.

Isso tudo para não dizer que eu tenho medo da ganância subir a cabeça dos executivos e essas séries se arrastarem de forma indefinida, preenchendo toda essa caminhada por episódios. Já imaginou 7 temporadas de Gotham? Isso são 154 episódios! Mesmo que eu fique feliz em ver novos episódios e continuar a visitar aquele mundo, tem que saber a hora de parar. O que é mais vantajoso: 2 temporadas que totalizem 44 episódios, ou três, que podem abordar 3 momentos diferentes do personagem principal, que somem 39? Aqui, menos parece ser mais.

O visual do Grodd foi uma das melhores coisas da primeira temporada de Flash
O visual do Grodd foi uma das melhores coisas da primeira temporada de Flash

Um último adendo: Agents of SHIELD também corre o mesmo risco, já que também possui 22 episódios, mas irrita muito menos porque só teve um intervalo de 3 meses entre seus episódios (e pôs Agente Carter nesse período, distraindo a audiência). Tanto Gotham quanto Flash tiveram dois brakes, o que aumenta, mais ainda, a sensação de arrastamento que os longos meses de exibição causam.

Os heróis na TV pelo visto vieram para ficar. Além de mais temporadas dessas duas, teremos mais Arrow; um spin off desse universo Flash/Arrow, Legends of Tomorrow; a série da Supergirl; a segunda temporada de Agente Carter; e também mais material baseado em HQs, com as séries de Lúcifer e Preacher.

Como (e com que qualidade) essas séries irão se desenvolver, não é possível dizer agora. Mas fica a pergunta: na sua opinião, qual é o melhor modelo para mostrar o mundo dos heróis na TV?

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