[REVIEW] Sense8

“Série de múltiplas narrativas da Netflix é a redenção dos Wachowski”

 

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Na última década, não sei quem teve uma derrocada pior na carreira: se M. Night Shyamalan ou os irmãos Wachowski. Mas enquanto eu penso que o primeiro conseguiu o feito de arruinar uma história com elementos tão bons quanto Avatar, contesto, em parte, essa queda dos Wachowski (acho que depois desse texto, nunca mais irei errar o nome deles).

As duas únicas coisas que eu vi dos irmãos, eu gosto. O primeiro Matrix é considerado um marco, e por mais que suas sequências sejam movidas mais pelo dinheiro, quero acreditar que existem elementos que valham a pena nelas; esse ano, já disse como gosto de Cloud Atlas (não consigo chamar de A Viagem), um filme que, OK, não é perfeito, mas tem uma proposta interessante e que vale a ousadia; e também não quero crer que o roteiro escrito por eles para V de Vingança seja algo de se jogar fora. Pelo menos, o material base é de qualidade extraordinária.

Enquanto, esse ano, muitos se lembrarão dos irmãos pelo fracasso de público e crítica que foi O Destino de Júpiter (repercussão que até hoje fazem com que eu adie dar uma conferida no longa), tenho a esperança que o público volte a dar chance a eles após Sense8, série criada por eles e exibida pela Netflix.

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Para quem gostou de Cloud Atlas, Sense8 vem com uma proposta semelhante. Oito pessoas, chamadas de sensates, estão espalhadas pelo mundo: Lito (Miguel Ángel Silvestre) no México; Sun Bak (Doona Bae) na Coreia do Sul; Nomi Marks (Jamie Clayton) em São Francisco; Kala (Tena Desae) em Mumbai; Riley (Tuppence Middleton) em Londres; Will (Brian J. Smith) em Chicago; Wolfgang (Max Riemelt) em Berlim; e Capheus (Aml Ameen), em Nairóbi. Quando Angel (Daryl Hannah) ativa esses sensates, instantes antes de sua morte, logo no início do primeiro episódio, esses sensates começam a sentir, ver e pensar o que os outros estão passando em suas vidas, forjando uma ligação entre eles.

Sei que a descrição do enredo e a cachoeira de nomes causa uma confusão (em parte, pela minha habilidade deplorável de criar sinopses), mas em tela, as coisas se encaixam de maneira mais fácil.  Assim como em Cloud Atlas, acho interessante e louvável essa iniciativa dos Wachowski de mesclar diferentes narrativas, perdendo, na minoria dos casos, a condução delas. Cada um desses personagens enfrenta um drama próprio, precisa superar uma adversidade singular, mas problemas diferentes acabam se complementando quando as narrativas se cruzam, como por exemplo, a habilidade de luta de um ajudando o outro em um momento de necessidade.

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A diversidade é um dos pontos altos da obra, e consegue atingir e agradar uma gama enorme de audiências. Existem cenas que poderiam horrorizar aqueles que estão “estupefatos” com uma mera propaganda de perfume, já que existem dois casais homossexuais na série. Mas é justamente essa diversidade, esse tipos variados de personagens, cada um incluso em sua cultura e suas referências, que proporciona riqueza a trama, e possibilitam a criação e desenvolvimento de interessantes relações. Apesar disso, em certos momentos, sinto a falta de um maior conflito entre os 8 personagens principais, de questionamentos em relação a suas identidades e atitudes, sobretudo quando eles ainda estão se conhecendo, o que poderia causar uma dinâmica diferente entre eles. Nesse sentido, o ponto mais ousado são os questionamentos de Wolfgang, alguém mais cético e sem motivos para ter fé em alguma divindade, em relação às crenças hindus de Kala.

E o trabalho com essas diferentes narrativas requer um calibre certeiro da edição, quesito que julgo que os irmãos obtiveram êxito, na maior parte do tempo, proporcionando toda a dinamicidade da obra. Acho muito bacana ver que os atores, realmente, tiveram que gravar em cada uma dessas localidades.  Não é um aspecto perfeito, já que existem momentos que podem confundir o telespectador, sobretudo visualmente, já que um diálogo, por exemplo, se inicia em algum parque em São Francisco, e termina em Londres. Não se sabe, ao certo, qual personagem está aonde, se ele foi ‘teletransportado’ para lá ou é algo que apenas o outro personagem vê. Mas à medida que se vai acostumando com a série, essa confusão diminui, e esse caráter sci-fi da obra é melhor compreendido. Ainda sobre os méritos dos irmãos, é possível destacar a fotografia desta temporada, principalmente nos episódios dirigidos por eles; e o figurino que, mesmo que estereotipando em alguns momentos, sabe caracterizar bem cada um dos núcleos da série.

As histórias de todos são interessantes, mas nenhum deles tem uma curva dramática tão destacável como a de Riley. Ponto para o roteiro.
As histórias de todos são interessantes, mas nenhum deles tem uma curva dramática tão destacável como a de Riley. Ponto para o roteiro.

Essas interações entre os personagens não ocorrem logo de cara na série, que precisa preencher suas 12h de narrativa. Por isso, mesmo para uma série de arco fechado e menor do que aquelas tradicionais de 23 episódios (das qual já falei aqui), existem momentos de enrolação e arrasto na trama, principalmente em sua primeira metade (o que, felizmente, muda em sua segunda parte). O momento mais baixo em relação ao roteiro é a falta de exploração do vilão, o misterioso Mr. Whispers (Terrence Mann), que é deixado de lado na maior parte do tempo, ganhando espaço apenas nos dois últimos episódios, causando uma certa correria no fechamento do enredo.

Um desbalanço entre as narrativas também parecia inevitável: existem episódios que um ou dois núcleos aparecem em menos de 5 minutos na tela, em um episódio de mais de 50 minutos. Tropeços que, apesar de notados, não chegam a comprometer a obra como um todo. Quando as múltiplas interações acontecem, como a do episódio 8, o capítulo ganha um fôlego extra, e é bastante agradável ver elas acontecendo em cena.

Mr. Whispers é explorado somente no final
Mr. Whispers é explorado somente no final

Com tantos personagens, fica difícil destacar algum trabalho. Mesmo porque, julgo, não existem atuações excepcionais na trama, mas um amontoado de trabalhos honestos e realizados de forma competente que, juntos, funcionam. Se existe alguma carência no carisma dos atores, o background e as dificuldades dos personagens ajudam a criar a empatia necessária. A trilha de Johnny Klimek, que trabalhou com os irmãos em Cloud Atlas, passa por dois momentos: a princípio, a parte instrumental é ausente na maior parte do tempo; contudo, ganha notoriedade na segunda metade da série, e combina com a técnica de utilizar-se de músicas dentro da narrativa, servindo de ferramenta para criar as interações entre os diferentes personagens.

Sense8 pode não ser espetacular e, entre as séries da Netflix que assisti, é até mesmo a mais fraca. Contudo, ela possui méritos e qualidades suficientes para quem procura uma narrativa um tanto diferente e consegue, com sobras, renovar o interesse para uma segunda temporada. O mais importante, a série consegue restabelecer a esperança e a fé em futuras obras dos Wachowski. E se você ainda quer acreditar neles, Sense8 é um bom começo.

Nota: 8/ 10.

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