Divertida Mente

“Carrossel de emoções é recheado de brilho e competência em novo trabalho da Pixar”

 

Por Luís Gustavo Fonseca

Terei que ser clichê e introduzir este texto com a frase “A Pixar voltou!”. Não, não em relação a sua qualidade que, como expliquei aqui, nunca tinha ido embora. Mas já havia dois anos que não tínhamos uma nova animação do estúdio, portanto, a saudade era muita. E nada como matar essa saudade com uma ideia inovadora.

O plot de Divertida Mente é simples, porém ousado: acompanhar como funcionam os 5 sentimentos uma garotinha, Riley: Alegria, Medo, Nojo, Raiva e Tristeza. Uma ideia que, desde sua divulgação, me chamou a atenção, pois estava curioso para ver como a dinâmica desta proposta iria funcionar.

Inside Out 3

Para felicidade geral da nação, a proposta funciona de forma brilhante. O diretor e roteirista Pete Docter (responsável “apenas” por Up e Monstros S.A) nos entrega mais um trabalho encantador. Visualmente, a mente de Riley (e por que não, a nossa) é um espetáculo! Colorida, rica nos mais variados elementos que compõe a nossa cabeça. O visual das emoções é um detalhe a parte. Mesmo que partam de algum estereótipo, como o baixinho invocado ou da tímida desastrada e tristonha, acontece uma identidade visual muito forte. O Medo, de perfil, lembra, mesmo que vagamente, um F, de fear; o Nojo é mais claro nesse sentido, já que possui um cinto com D, de disgust; e a Alegria, claro, tinha que ser radiante!

VEJA TAMBÉM: [F!CAST] O Monstro da Expectativa: Divertida Mente

É deslumbrante e prazeroso fazer um tour pela cabeça da personagem, e o fascínio pela caracterização da mesma vem com facilidade. A criatividade para nos apresentar cada um desses elementos é fantástica: o trem do pensamento; as bolinhas de gude onde são guardadas nossas mais diversas memórias; como cada uma delas são classificadas; as ilhas de personalidade; o estúdio dos sonhos; a terra da imaginação; o porão do subconsciente; o buraco ENORME onde jogamos tudo aquilo que esquecemos… É inevitável não criar uma identificação com esses diversos elementos e, principalmente, querer que seja realmente daquela forma que nossa mente funcione.

Inside Out 5

Mas é no roteiro que Pete Docter mais chama a atenção. A maneira como cada emoção age e coordena as ações de Riley, dando um direcionamento à trama, é por si só interessante. Mas é na dinâmica entre as próprias emoções que mora o coração da obra. Merece destaque como, por exemplo, logo quando Riley nasce, o próprio sentimento de Alegria não compreende o que é, ou qual é o seu propósito na mente da garota. Essa sensação de auto descoberta é muito bem apresentada, assim como a introdução das demais emoções, à medida que a garota vai crescendo e interagindo com mundo. O texto, no decorrer do longa, é bem escrito, sabendo proporcionar momentos de riso, assim como de fortes emoções (!).

Mas nenhum aspecto no filme é tão interessante, brilhante e profundo como a relação entre a Alegria e a Tristeza. Sentimentos opostos, mas que são extremamente bem trabalhados e criam uma dinâmica singular. É acertado a história mostrar como a Alegria é incapaz de entender a natureza da Tristeza, o porque ela ser daquela forma. Existe uma espécie de “ditadura” da Alegria, já que ela tenta controlar tudo e deixar a Tristeza num canto, quieta, sem atrapalhar a vida de Riley. O que faz muito sentido, se pensar que um dos objetivos da vida é ser feliz! Contudo, acho louvável como o roteiro procura mostrar como a Tristeza também é importante nas nossas vidas, já que é a partir dela que é possível desencadear novos momentos, experiências e reflexões, o que pode resultar em algo bom.

Gostaria de ouvir a opinião de alguém formado em Psicologia, só para saber o quão
Gostaria de ouvir a opinião de alguém formado em Psicologia, só para saber o quão “pé na realidade” o filme é

O trabalho, contudo, não é perfeito. Em alguns casos, a dinâmica da obra se atrapalha um pouco, quando há um estimulo exterior, e os sentimentos demoraram vários segundos para determinar uma ação/reação. Compreensível, se pensar que, tecnicamente, a discussão entre os sentimentos dura apenas uma fração no tempo do filme, mas visualmente, o resultado causa estranhamento em alguns momentos. Outro aspecto que me incomoda é a “ditadura” da Alegria no que tange a criação das ilhas de personalidade, ou seja, da personalidade de Riley. Ilhas criadas pela Tristeza, a Raiva e o Nojo estão bem mais sujeitas aos acontecimentos da vida, e são mais fáceis de serem evitadas. Entretanto, julgo ser primordial há existência de uma ilha formada pelo Medo, já que o mais tememos é, sem dúvidas, uma característica forte para moldar nossa personalidade e para determinar quem somos. O filme dá uma maquiada nesse aspecto, mas acho uma saída, no mínimo, conveniente e muito confortável, para um roteiro que é marcado pela ousadia. Nada que chegue a arruinar o enredo estabelecido, mas que merece uma ressalva.

Um aspecto que me preocupava, mas me surpreendeu positivamente, é a dublagem. Estava extremamente magoado pelo fato da Disney ter feito uma pré estreia com uma versão legendada, e a mesma ter sido praticamente extinta após seu lançamento oficial. Contudo, o trabalho da dublagem, se não é espetacular, é ao menos competente, e sabe transmitir muito bem os trejeitos de cada uma das emoções.

Inside Out 2

Finalizando, Michael Gianchinno já pode ir pedir música no Fantástico. Ou melhor, pode compor para o programa. Foi a terceira semana consecutiva que um filme estreia com uma composição sua, e a trilha de Divertida Mente é, sem dificuldade, a melhor entre a animação, Tomorrowland e Jurassic World. E o tema principal merece ser destacado, já que ele não sai da minha cabeça (e o filme me explica como isso funciona).

Ousado, divertido, inteligente, sensível. Algumas das características que marcam a nova animação da Pixar, e que revigora seu caráter inovador. Após Divertida Mente, é inevitável que crianças e adultos terão um novo modo de ver (e lidar) com suas mentes e emoções.

Nota: 9/ 10.

 

P.S.: Um ponto “negativo”: o curta Lava é visualmente encantador, tem uma boa mensagem e a música é bacana. Mas é um curta que está longe de ser marcante. Aliás, eu acho que a Pixar consegue muito mais êxito no formato quando quer ser engraçada, como nos clássicos O Jogo de Geri, do Vida de Inseto, ou Coisas de Pássaro,de Monstros S.A, ou mesmo nos mais recentes Party Cloud (Up) e Day & Night (Toy Story 3), do que quando ela quer dar esse tom mais aprofundado e até um pouco melancólico, como em Lava e O Guarda Chuva Azul (Universidade Monstros).

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