Homem-Formiga

“Pequeno herói chega para dar um novo toque de humor ao Universo Marvel”


Por Luís Gustavo Fonseca

Assim como o herói, as minhas expectativas com o filme do Homem-Formiga aumentaram e diminuíram com o passar do tempo (e já aviso que esse texto conterá vários desses trocadilhos toscos). Começaram pequenas já que, quando o longa finalmente foi oficializado, eu mal conhecia o personagem (talvez o meu eu do passado deveria ler esse pequeno perfil do personagem). O envolvimento do diretor Edgar Wright jogou as expectativas lá para o alto, já que o timing de Wright pra comédia é ótimo, e ainda sim, diferente do humor que o público costuma ver na Marvel. E se você já viu algum filme da trilogia do Cornetto, ou a adaptação de Scott Pilgrim, sabe que Wright tem um baita talento como diretor. Contudo, as expectativas voltaram a diminuir quando ele saiu da direção, e Peyton Reed (Sim, Senhor!) assumiu cargo. Wright passou quase uma década ligado ao projeto (que já existia muito antes de Homem de Ferro sair do papel), e eu considerava o longa praticamente sua cria. Sem ele, muito da essência de toda a proposta poderia se perder. Por fim, voltei a criar expectativa depois de ver alguns trailers. Mas o filme ainda era uma incógnita.

Mesmo sendo um projeto antigo, Homem-Formiga vem ao mundo na hora certa. Num momento onde heróis são muito mais disseminados pela cultura pop do que há 10 anos. E não apenas heróis do mais alto calibre, como Homem Aranha, X-men e Batman, mas até mesmo completos desconhecidos, como os Guardiões da Galáxia, caíram nas graças do público. Se essa semana a Internet foi ao delírio com o primeiro trailer do Esquadrão Suicida, foi consequência das mudanças causadas pelo sucesso de Star Lord e sua turma. E o Homem-Formiga tem tudo para surfar nesta onda também.

No longa, o Dr. Hank Pym (Michael Douglas) cria as “partículas Pym”, um elemento capaz de diminuir a distância entre os átomos ou, basicamente, de encolher qualquer coisa. Ciente do perigo que sua criação ofereceria a partir do uso militar (mesmo que feito pela SHIELD), ele decide aposentar o traje que criou e não dividir a fórmula do encolhimento com ninguém. Anos mais tarde, o seu “pupilo”, Darren Cross (Corey Stoll) está prestes a lançar um exército de trajes militares encolhedores, chamados de “Jaqueta Amarela”, algo que, certamente, mudaria o rumo do planeta. Neste momento, Pym terá que contar com a ajuda de sua afastada filha, Hope (Evangeline Lilly), para aliciar o recém-saído da prisão Scott Lang (Paul Rudd) a voltar ao mundo do crime, e destruir o projeto de Cross.

O melhor trunfo do filme é, justamente, o poder do herói. Sempre considerei que um dos principais chamarizes do filme seria a dinâmica visual que os seguidos encolhimentos e crescimentos do personagem teriam em tela. Se o filme quisesse funcionar, isso teria que dar certo. E o resultado é um espetáculo! Fluído, as cenas de ação transcorrem com facilidade, sem confundir o telespectador. O poder do encolhimento abre um leque de possibilidades na hora da pancadaria, aspecto que é bem explorado, e proporciona ótimos momentos na obra (principalmente em um encontro muito esperado). Não sei o quanto de Edgar Wright há nessas cenas, mas Peyton Reed provou que dá conta do recado e soube aproveitar de forma exemplar os momentos em que Scott Lang está pequeno.

Em tela, poder do herói flui e se transforma em um dos principais trunfos da obra.
Em tela, poder do herói flui e se transforma em um dos principais trunfos da obra.

São nesses momentos, também, que o filme mostra outra de suas qualidades: Homem-Formiga tem, disparado, o melhor 3D de um filme de super herói, talvez até mesmo um dos mais destacáveis 3D dos últimos anos. Não se resume apenas as coisas sendo jogadas na sua cara, mas também, a profundidade das cenas, dos ambientes. O espectador se sente pequeno junto com o personagem.

O roteiro original de Wright e Joe Cornish (Hot Fuzz) recebeu um retoque do próprio Paul Rudd e de Adamn McKay, que trabalhou com Rudd em O Âncora e Tudo Por um Furo. E no decorrer da obra, é possível sentir onde as mãos de Wright e Rudd se fazem presentes. Várias das piadas ao longo do filme tem a assinatura do tipo de humor que Wright coloca em suas obras. Um humor diferente do que a Marvel costuma apresentar em seus filmes e, por isso mesmo, um humor bem vindo. Os diversos alívios cômicos da “gangue” de Scott , composta por Luis (Michael Piña), Dave (T.I) e Kurt (David Dastmalchian), recicla o tipo de dinâmica que Rudd e McKay já mostraram que funciona em O Âncora. Sobretudo, há um equilíbrio entre o humor e a ação, o que nem sempre a Marvel consegue acertar.

Essa cena já é um clássico do Universo Marvel, né?
Essa cena já é um clássico do Universo Marvel, né?

Contudo, o roteiro oscila mais que a direção. Os primeiros 25, 30 minutos do filme, ficam deslocados, pois não parecem, nem de perto, um filme de herói. A partir do momento em que Lang veste o uniforme pela primeira vez, o filme engrandece (RÁ!) e passa a fluir de uma maneira melhor. O roteiro também utiliza alguns velhos clichês, como o cara que tem que ganhar a confiança da moça; a difícil relação entre pai e filha; o treinamento do “o escolhido”, que envolve, claro, vários erros, até ele acertar. Recursos narrativos que mostram falta de ousadia em trabalhar isso de forma diferente, mas que não chegam a comprometer a qualidade da obra (ora, o Homem de Ferro também passou por um momento de treinamento, e ninguém achou ruim). O que mais me incomodou no texto do filme é a abordagem do Pym. Conhecido nos quadrinhos pelo seu gênio difícil, arrogante e seu temperamento mais explosivo, o personagem é agradável, com uma empatia fácil de obter (ainda mais com a cara serena de Michael Douglas). Apenas em um momento, o seu lado mais obscuro é sutilmente arranhado, mas nada além disso. E julgo que agora, esse lado “gente fina” do personagem já ficou bastante marcado, o que pode dificultar uma exploração de seu outro lado no futuro.

O longa não chega a possuir uma profundidade excepcional de seus principais personagens, mas os bons diálogos propostos pelo roteiro conseguem tirar atuações satisfatórias do elenco. Paul Rudd tem uma veia de comédia que combina muito bem com o clima do filme, e é explorada. Evangeline Lilly já mostrou que é capaz de mostrar mais talento, mas seu trabalho não compromete e, no futuro, pode ser melhor aproveitado. O Jaqueta Amarela de Corey Stoll talvez não entre no Hall de Vilões memoráveis (assim como muitos outros da Marvel, cá entre nós), mas também deixa uma boa impressão e corrobora nas cenas de luta contra o nosso herói. Consigo até entender que o trio de bandidos de Peña-T.I.-Dastmalchian possa irritar alguns, mas acho que o humor deles colabora muito com o trabalho deles e o filme em geral. Por fim, eu sempre estranhei a escalação do Michael Douglas, assim como até hoje estranho ver alguém do calibre do Anthony Hopkins fazendo filme de herói. Contudo, mesmo que não seja seu trabalho mais marcante, o oscarizado ator trás experiência e competência a obra, e cria uma boa química com o elenco em geral. Uma boa carta na manga para ser utilizada futuramente.

Esse joinha resume a sensação ao ver o filme
Esse joinha resume a sensação ao ver o filme

Se os efeitos e o 3D, como dito, são um dos pontos altos da obra, o mesmo não pode ser dito da trilha de Christophe Beck (No Limite do Amanhã). Eu suspeito que o som da minha sala não era dos melhores, mas a composição é, no geral, ausente e pouco eficaz nos grandes (RÁ!) momentos do filme. E como em alguns de seus outros filmes, a Marvel não conseguiu criar um tema que crie uma memória auditiva que conecte diretamente a imagem de seus heróis, o que é uma pena.

Homem-Formiga está longe de ser o maior (RÁ!) filme da Phase 2 da Marvel, mas no fim, o saldo é positivo. A tradicional história de origem é bem contada, a obra não vive em detrimento da integração do Universo Marvel (mas aquela menção àquele herói é de fazer o coração bater mais forte), e apresenta um herói que tem tudo para crescer (calma, o texto tá acabando já) de popularidade e, claro, dentro do Universo Marvel. Mais uma vez, é a Marvel entregando material de qualidade e, principalmente, divertindo seu público… Fazendo crescer (!) o sorriso no rosto.

Nota: 8/ 10.

P.S.: As duas cenas pós créditos são bem maneiras, e servem para empolgar qualquer fã da Marvel.

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11 comentários sobre “Homem-Formiga

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