[REVIEW] Better Call Saul

Por Matheus Araujo

Better Call Saul revalida a fórmula – trocadilho elegante – de Vince Gilligan. Sim, comparações com Breaking Bad são inevitáveis e diria que até necessárias, pois apesar da possibilidade de ser assistido independentemente, grande parte do sentido de um spin-off se perde sem a matéria que o originou. E perder os “sentidos” com Gilligan é um pecado.

Assistir a Breaking Bad sem reflexão é o mesmo que assistir a uma novela (curto aquelas doses de exageros, okay?). Se você não se enveredar nos significados por trás do texto superficial, não digo que desperdiçará 60 horas da sua vida, mas deixará de aproveitar 90% do que leva Breaking Bad a ser Breaking Bad. Por mais que seja popularmente adorada – acredito, triste, que devido a uma mera questão de status – essa série não é para todo mundo. Não afirmo isso com a intenção de segregar melhores ou piores espectadores, mas diferentes tipos. Assim como há quem curte um futebolzinho e há quem se considere um verdadeiro apreciador do esporte, sou daqueles que defendem que os dois são capazes de se emocionar com igual intensidade. E, retornando aos meios audiovisuais, não é que eu veja Breaking Bad ou Better Call Saul refletindo sobre cada take (e olha que eu amo pra caramba tudo isso), mas admito que boa parte do meu gosto por essas séries advêm daí. Enfim…

Better Call Saul é um derivado de Breaking Bad e, como o próprio nome indica, narra as peripécias de Saul Goodman, o advogado de Walter White. Entretanto, a nova série não se limita aos outros golpes de Saul, mas a prosperar este personagem a exemplo do primeiro seriado. Desta forma, tal qual Heisenberg é Walter White, Saul é Jimmy McGill.

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McGill, também conhecido como Jimmy “Sabonete” em vista de seu talento natural para trambiques, é um advogado “entrada” de cadeia. Um trabalhador restrito aos mais perdidos casos de Albuquerque e sem quaisquer perspectivas de melhora. Ao menos, sem aquele certo ~bom homem~ capaz de influenciar essa balança das injustiças. De um dos lados, pesa seu irmão, famoso advogado, agora enfermo, e responsável pela endireitada na vida de Jimmy; doutro, as citadas dificuldades do ambiente e as facilidades que suas práticas do passado lhe renderiam.

Iniciando a alvejada inicial de elogios: há em Better Call Saul toda a primazia de Breaking Bad em direção e roteiro. Constante em sua excelência do prólogo ao fim, Better Call Saul é capaz de divertir o espectador mais desatento quanto àquele que admirará o cuidado nas transições de cena, que evidenciam paralelos de uma história bem montada, ou posicionamento de câmera, claros em seus motivos de ser, longe de meramente estéticos. A identidade ainda é a de Breaking Bad, definitivamente estamos no mesmo universo. Vince Gilligan dota de significado cada detalhe dos seus quadros, validando seu spin-off num piscar de olhos.

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Lembra da moeda rara do JFK? Não olhando para o leste… Ah, orgasmático! Quando nem aquele despretensioso “meu melhor lado para as câmeras” é só uma fala jogada fora lá na metade inicial da temporada.

Todavia, existem diferenças em relação ao original. Especialmente quanto ao tom, afinal o protagonista da vez era o alívio cômico da outra. Mas, surpreendentemente, Better Call Saul me soa mais contido. Atribuo a isto ao fato de que a mudança não é de um professor de química ao grande criminoso. É do advogado, com o passado de golpes, ao advogado golpista. Há, sim, o que se discutir analogamente na graduação da índole do personagem, entretanto, Saul, quando no pior de seus dias, é mais light que várias das tardes de terça-feira de Walter.

E indispensável para a nivelação das séries é o protagonista. Seria um exagero colocá-lo de igual para Bryan Cranston, uma vez que este se construiu ao longo de cinco temporadas. Mas é sem nenhum exagero que evidencio esse potencial. Bob Odenkirk representa a lapidação perfeita de Jimmy McGill em Saul Goodman. Para além de Cranston, ele possui o humor, extremamente bem colocado em toda a série, e a transição dele ao drama é de bela execução.

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Dentre o restante do elenco, é preciso destacar um dos personagens mais queridos e também oriundo de Breaking Bad. Mike, interpretado por Jonathan Banks, recebe maior destaque e ganha um episódio solo facilmente confundível com um média-metragem do personagem. Assim como Saul, é evidente que estamos diante de uma versão beta em relação ao já visto do personagem. Independentemente, toda sua participação é um adendo interessantíssimo.

Em suma, vamos às ressalvas desta primeira temporada: existem elementos de Gilligan, suspeito que legado de seus tempos de Arquivo X, que caracterizam certos aspectos da trama responsáveis por me distanciar da história. Particularmente, não curto as “viagens” em Breaking Bad, citando representativamente, dos gêmeos na terceira temporada ou do envolvimento com neonazistas na última. Sei das interconexões desses elementos com outros na história, mas são coisas que se tornam fantasiosas demais em uma obra tratada como tão palpável. Em Better Call Saul, vejo bastante disso no irmão de Jimmy. De certa forma, é algo que recebe uma abordagem bem mais pé no chão do que qualquer outra esquisitice de Breaking Bad, mas, ainda assim, toda a sua insanidade faz com que eu dê aqueles dois passos para trás. E o mais chato é que julgo tudo aquilo, além de desnecessário, bem irritante na maioria esmagadora do tempo em tela.

Por último, aquele alerta. O ritmo, tão criticado por outras bocas, é à la Breaking Bad. Se você achava o correr da história vagaroso por lá, dificilmente sentirá o relógio passar mais rápido por aqui, apesar dos três episódios a menos. É a forma do Gilligan contar suas histórias e, lembrando que a priori assistimos a séries (ou filmes) a fim de entretenimento, sugiro que confira séries que se adéquem a você. Claro, experimentar coisas novas é ótimo também. Fugir da zona de conforto e tudo mais… A dica é, antes de escolher, confira nossos textos! Veja se você está realmente a fim de, verdadeiramente, se dedicar a essa nova experiência. Já tratamos por aqui de uma variedade bastante considerável: Lost, Fargo, True Detective, Doctor Who, Futurama, The Office, Sense8, BoJack Horseman, House of Cards, Marco Polo, Demolidor, Flash ou Gotham… Confira.

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E terminando sobre Better Call Saul, SE apreciando a fórmula de Gilligan, a grande certeza é que não importa se já sabemos aonde essa história termina. É impossível nos desviarmos desse escorregadio caminho de Jimmy até lá.

Nota: 8,5/ 10.

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