Hércules

Por Matheus Araujo

Continuo minha cruzada particular para elevar certas animações, verdadeiros clássicos da minha infância, ao posto dos grandes longa-metragens da Disney. A obra da vez dispensa quaisquer apresentações: Hércules.

Acredito que o primeiro passo para apreciar as verdadeiras qualidades de Hércules é entender que o filme não pretende ser a retratação definitiva da cultura grega. Seu louvável objetivo é aproximar o universo mitológico da criança. Transformar algo histórico e acadêmico em algo contemporâneo e mais palatável. Desta forma, modificações (drásticas) são inevitáveis. A começar que o filme é infantil e os gregos bem que curtiam uma sacanagem daquelas.  Adaptações são necessárias, afinal nem mesmo o ponto de partida do Hércules original é menos chocante. Sai a tragédia, não totalmente, e entra a comédia. Além do tom, a fim de maior abrangência e atratividade, ocorre ainda um grande mix de mitos, tornando Hércules um verdadeiro apanhado de lendas gregas.

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O projeto trata-se, enfim, de uma revisão geral norte-americana dos mitos gregos. Abordagem semelhante, porém mais contida, havia sido vista anos antes em Aladdin, sobretudo, através da figura do Gênio – um humor irreverente capaz de transitar livremente por elementos dentro e fora do enredo. Explico: Ao mesmo tempo em que escutamos uma brincadeira sobre Hades “morrer de trabalhar”, expressões soltas como “troianos apostaram no cavalo errado” ou “presente de grego”, ou até uma referência ~mais cabeça~, tipo “aquele tal de Édipo era… E eu pensei que tinha problemas!”, existe um humor que escapa a Grécia Antiga, tal quando o oráculo prevê um “banheiro dentro de casa vai ser demais” ou piadinhas referentes a extensa linha de produtos baseados no herói, como bonequinhos, as sandálias Air-Herc ou o tônico Herculaid. Além disso, marcam presença inúmeras referências cinematográficas, a exemplo do Karete Kid na imagem acimaTodavia, a comédia exagerada se torna um calcanhar de Aquiles, afinal ao se confundir com o pastelão,  por infelizes momentos, o envolvimento com a história pode ir pelo Estige abaixo.

Com alguns dos exemplos acima, é perceptível o nostálgico trabalho da dublagem brasileira. Não só nas expressões, mas a liberdade em utilizar sotaques e gírias foi capaz de construir uma atmosfera própria para a versão. Entre tantos talentos, destaco Márcio Simões como Hades, uma interpretação precisa ao equilibrar o humor e a maleficência do personagem.

Todavia, para além da vida recebida pelas vozes, os personagens de Hércules são bem escritos. Hades é maligno (uma visão norte-americana da mitologia, já falamos disso), bastante ameaçador, mas também engraçado. Uma composição extremamente desafiadora que, aliada ao seu grande visual, o transcendem de carismático a inesquecível. Outra curiosa personagem é Meg. Ela é “adulta”, possui uma visão debochada, pouco inocente e pessimista. Para ela, todos são mesquinhos e desonestos. Possui uma dualidade bem trabalhada e um background pesado, pois vendeu sua alma. Complexidade e características inesperadas em uma animação Disney. Filoctetes e seu garoto possuem uma história bacana, mas que ao lado das outras duas é um tantão comum – freaks dando sua volta por cima. Ainda assim, destaco que os roteiristas foram hábeis o suficiente para criar situações em que o imbatível herói fosse falível.

A já comentada brilhante aparência Hades possui companhia à altura. Hércules talvez possua o mais modificado design de todos filmes Disney. As formas e linhas da arte grega habitam todos os cenários. Para além disso, os monstros também chamam atenção. Uma “novidade” tecnológica na época, a criação digital da hidra talvez seja o ponto mais fraco da animação hoje. Recurso que seria melhor dominado dois anos adiante com O Gigante de FerroContudo, pesando-se os ganhos e as perdas, creio num saldo positivo. Ademais, gosto bastante da representação dos titãs, talvez bem simplificada, mas mostrá-los como criaturas elementais é uma tradução visual coerente com a ideia de vários deles.

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Por fim, a última e mais ousada mistura do filme: a trilha sonora. Antes de assistir ao filme, você provavelmente não pensaria em Gospel e Rhythm&Blues para trilhar Hércules. Pois as Musas são um quinteto divino e um dos grandiosos acertos do longa. A introdução delas, cortando a tal narração acadêmica de, pasmem, Charlton Heston é sensacional. Todavia, minha nostalgia não é capaz de me ensurdecer ao ponto de não reconhecer que existem músicas não tão boas assim, mas… Vencer Distâncias é uma das músicas que levo pro resto da minha vida (descobri fazendo esse texto que o Hércules é dublado nessa canção pelo vocalista do LS Jack!); a introdução, Foi o que passou, é maravilhosa; Zero a Herói, contagiante… Alguém disse algo sobre música não tão boa? Hein?! O calcanhar da vez fica mesmo por conta da direção, que peca no levar videoclipístico de certas canções.

Hércules é, sem dúvidas, um dos mais prazerosos filmes da minha infância. Eles conseguiram, alcançaram suas distâncias. Transformam a tragédia em uma comédia épica. Para qualquer um capaz de entender seu cerne, Hércules é radiante.

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Nota: 8,5/ 10.

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2 comentários sobre “Hércules

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