[FORA DE SÉRIE] Missão: Impossível

Por Matheus Araujo

Como já é tradição do Filmaiada, se há estreia com histórico, há um panorama dessa história. Missão: Impossível – Nação Secreta estreia logo mais e aqui estamos novamente.

Em 1996 foi lançado simplesmente Missão: Impossível, baseado na série de TV dos anos 60 e, como tenho que falar de quatro filmes em uma quantidade “okay” de palavras, isso é o quão longe irei comentar sobre a série (até porque, o quão longe eu li a respeito, as semelhanças não vão muito além do nome do personagem de Jon Voight, o mesmo do protagonista do seriado). Estrelado por Tom Cruise e dirigido por Brian De Palma, o primeiro filme não se preocupa em se apresentar mais do que se fosse uma sequência. Eu que não curto introduções, origens e afins, adorei. É como se você já estivesse acompanhando a série de missões impossíveis dos agentes e a própria abertura é uma clara alusão a isso.

Aliás, a história em questão não só não é o começo, como é um momento crítico da vida do herói, Ethan Hunt, na agência da IMF (Impossible Mission Force). Em uma missão aparentemente comum, seu time é emboscado e, a princípio, apenas ele sobrevive. Ao contatar seus superiores, Hunt descobre que a missão em questão possuía um objetivo oculto, revelar a identidade de um agente duplo e, sendo ele o único sobrevivente, acaba sendo o candidato perfeito para a culpa. Ao ser acusado, Hunt foge e tenta provar sua inocência.

Se eu tivesse visto em 96… Certamente não me lembraria, eu mal tinha um ano de vida. Mas se eu tivesse apenas idade o suficiente para lembrar, cresceria comigo o sonho de seguir carreira na espionagem. Que espetáculo! Admito precocemente que esse é meu favorito de toda franquia. Para além da premissa, o desenvolver do filme é excelente. Uma ação aliada a um suspense num contexto excepcional. Uma sobrevida aos espiões sem guerra fria e a mais brilhante gênese para um vilão que experimento em tempos. Brian De Palma, responsável também por Scarface, Os Intocáveis e Carrie, se mostra um dos cineastas mais versáteis.  A cena da reconstituição dos fatos e a imortal incursão do Tom Cruise pendurado… Sem mencionar a forma como posiciona os elementos que entregam agente duplo. Aliás, por mais fantasioso que possa parecer, todos os elementos do roteiro são bem inseridos e reutilizados no enredo. Meu solo e sério problema com todo o filme é o vilão atirar para matar em sua parceira, mas sequer disparar contra Ethan. A felicidade é que, justamente por este engano, chegamos à cena do trem. 20 anos de sua execução e por ser tão orgânica (grata característica da franquia) sobreviveu bem ao tempo.

mission-impossible-2-tom-cruise-as-ethan-hunt-on-bike

Com estes resultados, como não continuar? Se desde a primeira narrativa do homem, Homero decidiu por uma sequência, digo que a nossa tara por “mais” é biológica. E é mesmo um balde de água fria descobrir que Missão: Impossível tenha dos melhores e piores filmes de ação já feitos. Missão: Impossível 2 é terrível. Minhas reclamações partem de Jon Woo, o novo diretor, e sua obcessão por câmera lenta (e pombos). Sem o recurso, o filme deve ser 30% mais curto. Por sinal, como o cabelo do Tom Cruise tá longo nesse, por causa da incessante câmera lenta, o gênero da franquia sai da ação-suspense para ação-comercial de shampoo.

Arrumam espaço até para uma comédia romântica ruim, fundamentada em uma tensão sexual entre Tom Cruise e Thandie Newton. 20 dos primeiros 25 minutos são um desperdício. Com esse mesmo tempo no primeiro filme, tínhamos tudo pronto, por aqui, NA-DA. Mesmo quando o filme decide começar, as sequelas são evidentes.  O pior é que esse romance forçado é constantemente enfiado goela abaixo. Eu não tô exagerando, eles honestamente sugerem que esse tipo de coisa forme um casal:

Perdão por reclamar do roteiro do primeiro, quando este é digno somente da lata de lixo. Entre diálogos e buracos, o mais nojento chorume  é oriundo do vilão. Uma espécie de Ethan Hunt nêmesis, maligno. E a dualidade herói-vilão que o texto tenta trabalhar é pré-escolar. Eu até curtiria a ideia de colocar um agente tão habilidoso quanto o Ethan Hunt para brigar… Mas quando fazem isso. Cena da moto (acredite, essa discreta mudança na trilha sonora deixa as coisas bem mais tranquilas).

Último comentário sobre esta bomba. Nesses passeios históricos por franquias, eu curto observar como a tecnologia vai sendo incorporada. No primeiro Missão: Impossível, ela é bem fantasiosa, como: uma goma de mascar explosiva; máscaras ultra-realistas; pequeninos comunicadores; óculos com câmera; ou uma espécie de iwatch rudimentar, com um display para transmitir, por exemplo, a imagem captada com os óculos. No segundo, ela é estúpida. Observe: rastreadores impossíveis de se perceber, que possuem seus dados enviados para um satélite que os retorna para exclusivamente um (!) computador; um abuso nível Scooby-Doo dos disfarces; e até a grande arma biológica do filme, um super-vírus, que em determinado momento, ao mostrar seu funcionamento, o perspicaz Woo apresenta um vídeo de destruição celular como se realmente tivesse sido filmado. Nada se salva desse cara. Nem o Tom Cruise, nem a trilha…

Ainda bem que o segundo não foi suficiente para Tom Cruise encerrar a franquia. Ao invés disso, ele ainda trouxe sangue novo para o cinema. E dos bons. O promissor J.J. Abrams, ainda em seus tempos de Alias e Lost, estreou com Missão Impossível 3. Meu primeiro elogio vem do fato de que seu longa se parece mais com o trabalho de Brian De Palma, pois o quê complementa a ação é o drama e assim recuperamos a decência. Todavia, apesar da essência ser a mesma, há muito de Abrams. Sim, isso significa flares (aqueles reflexos de mentira, sabe?) e uma linguagem visual mais moderna, com câmeras frenéticas, que deixam de ser espectadora para participar da ação.

image
Lens flare.

Além do mistério em torno da tal arma, o formato é bem Lost também. Aquele flash inicial, uma das suas marcas, é a melhor cena. Se há algo aqui que sobressalta em relação aos melhores momentos da franquia, é o vilão. Essa cena introdutória, que já apresenta Davian, interpretado por Philip Seymour Hoffman, é matadora. A performance dele é tão poderosa que exige a melhor atuação de Cruise na franquia. Seja no drama, seja correndo como nunca!

Minha mais pertinente reclamação? Absolutamente tudo girar em torno do relacionamento do Hunt é bizarro. Por que ele não pode ter uma conversa no filme que não envolva as dificuldades de namorar enquanto espião? Alguém não sabe que isso só pode dar merda? De resto, tudo volta aos eixos. Volto a destacar o uso da tecnologia, que volta a ser inteligente e contida (no que está palavra possa a vir a significar em Missão: Impossível). A cena do disfarce é um deleite, enquanto a trilha sonora volta a marcar presença. Até a mão para fazer uma eventual parte mais leve Abrams é competente – algo que apenas Brad Bird iria fazer melhor.

mission-impossible-ghost-protocol

Missão: Impossível – Protocolo Fantasma (sem mais números daqui pra frente) marca outra estreia. Brad Bird já havia feito verdadeiras obras primas na animação (Gigante de Ferro, Os Incríveis e Ratatouile), mas seu primeiro trabalho live-action é aqui. Debuta tão bem que ouso dizer que reproduz as melhores cenas de ação desde o primeiro filme. E como já havia sugerido, outro ponto para Bird é sua bem sucedida investida na comédia ao manter e expandir a participação de Simon Pegg. Ao lado dele, Jeremy Renner é um acréscimo, não tão bom, mas é.

Outra primeira vez é quanto ao plot. Finalmente, o problema de Cruise não é com sua agência empregadora. Esta ainda não é uma missão impossível legítima, mas, se dependesse de mim, eu comemoraria. O departamento de recursos humanos agora tá funcionando! Desta forma, sem exageros, o diretor também reduz o drama, tornando-o pontual e transformando Protocolo Fantasma em um mix perfeito de toda a série. A competência do primeiro, o espírito “brincalhão” do segundo e a linguagem moderna do terceiro. A melhor característica retomada por Bird desta missão cabe à tensão – o pavio volta a queimar como no primeiro. É tão bom quanto? Não. É ótimo, mas não encanta como o primeiro.

tom_cruise-mission-impossible-4-01.jpg-mygeekblasphemy.wordpress

E não vou aliviar nas reclamações só porque está terminando… Em condições naturais, Tom Cruise teria escapado da tempestade de areia. Só não rolou porque é computação gráfica.

Anúncios

4 comentários sobre “[FORA DE SÉRIE] Missão: Impossível

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s