O Pequeno Príncipe

“Animação de 2015 traz toda a magia desta eterna obra literária.”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Talvez uma das maiores ausências no meu currículo de leitura seja a d’O Pequeno Príncipe. Não que eu tenha, definitivamente, lido as obras mais importantes existentes, ou algo do tipo. Mas justamente pela obra do frânces Antoine de Saint-Exupéry ser mundialmente conhecida, de fácil acesso e, principalmente, de uma linguagem acessível para as crianças, que sua ausência é notável. Felizmente, a minha colega Luiza Fonte Boa já falou da importância desta obra, no texto que você pode conferir aqui.

E mais felizmente ainda, em 2015, o Principezinho ganha uma nova releitura para o cinema. A produção francesa, produzida pela Paris Filmes, narra à história de uma pequena garota, que tem todo seu plano de vida (!) traçado por sua controladora mãe. As duas se mudam para uma casa vizinha a de um velho Aviador. Enquanto a mãe trabalha fora, a menina acaba trocando a rígida rotina pela história que o Aviador começa a contar, de um Príncipe que ele encontra no deserto e lhe pede para desenhar um carneiro. A partir daí, nasce uma amizade entre os dois, resultando em uma grande aventura.

O filme se revela acessível mesmo para aqueles que nunca leram o livro. A narrativa do Aviador sobre sua história com o Príncipe, acredito eu, aborda várias passagens presentes no livro. O texto corre, principalmente nos seus dois primeiros atos, com uma naturalidade e fluidez assustadora, criando uma empatia rápida e simples com seus protagonistas, assim como desenvolvendo de maneira agradável o relacionamento entre os protagonistas. Os diálogos são repletos de importantes sutilezas e o filme mostra (acredito eu) outra característica do livro: um texto cheio de camadas, com várias mensagens importantes. Nesse aspecto, a obra é impecável, sem dúvida requisitando uma nova visita para conseguir observar e absorver todas elas.

Outro dos méritos do filme é a direção de Mark Osborne (Kung Fu Panda). Visualmente, a obra dá um show, tendo vários elementos que merecem destaque: a vizinhança para onde a menina e sua mãe mudam, cheia de casas retas, brancas, criando uma atmosfera artificial, que reforçam a ideia de que aquele não é o ambiente ideal para uma criança ter uma infância adequada. Por conseguinte, a casa do Aviador, colorida, cheia de curvas e objetos curvilíneos, cria o contraponto essencial para a história. Mais um aspecto chamativo são as mudanças de estilo artísticos presentes no filme: da animação 3D convencional para uma espécie de desenho misturado no que me aparenta ser papel machê. A alternância não poderia ser mais bem vinda, já que a arte desenhada lembra os traços do livro, tornando a roupagem do Pequeno Príncipe muito mais interessante e encantadora. Outros detalhes menores, como quando a menina está molhada pela chuva, ou até mesmo o fato de ela não ter um sorriso perfeito, são coisas que embelezam ainda mais a produção.

Eu tô chamando essa arte de papel machê, mas eu não tenho certeza se é isso. Seja como for, a arte é lindíssima.
Eu tô chamando essa arte de papel machê, mas eu não tenho certeza se é isso. Seja como for, a arte é lindíssima.

Não são aspectos perfeitos, contudo. Julgo que o filme se estende um pouco (a obra tem 1h48, um pouco maior do que normalmente é padrão nas animações ocidentais), o que acaba prejudicando o seu ritmo. E o terceiro ato do filme é o seu momento mais problemático. Apesar de se encaixar na proposta criada pela narrativa, ele parece descolado dos demais. Não apenas na história, onde seu momento de “homenagem” é deixado de lado, mas também no próprio visual. As decisões tomadas levam a um choque visual que, particularmente, não me agrada, e que tira parte da magia apresentada antes. Contudo, os tropeços deste momento em nada retiram os méritos do filme.

Por fim, outros dois elogios: o primeiro, a dublagem brasileira, principalmente a dupla principal, Marcos Caruso (o Aviador) e Larissa Manoela (a Menina), que transmitem o clima do filme, e mostram ter uma boa química. Geralmente, sou receoso com a nossa dublagem (menos em animação do que em live action), mas o trabalho de O Pequeno Princípe merece aplausos, fazendo com que as vozes originais de atores como Marion Cotillard e Vincent Cassel não criem nenhuma saudade. E uma obra tão rica em história e com um visual tão deslumbrante, não poderia receber composição mais digna e bela do que a da dupla Richard Harvey e Hans Zimmer, que trabalharam juntos em Interstellar. O trabalho sonoro colabora e muito a criar essa ambientação da história do Pequeno Príncipe.

O Pequeno Principe 02

O Pequeno Príncipe de 2015 cumpre seus objetivos: encantar uma legião de fãs com um material à altura, assim como proporcionar a novos admiradores um vislumbre bem feito da magia que cerca esta icônica criação da literatura. Sem dúvidas, um dos melhores filmes deste ano.

Nota: 9/ 10.

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4 comentários sobre “O Pequeno Príncipe

  1. Linda resenha de um lindo filme. Só apontando aqui, nerd que eu sou. A animação utilizada nas cenas da história original d’o Pequeno Príncipe foi feita em stop motion. Os cenários são de papel, e os personagens e objetos são papel machê, e tudo foi pintando em aquarela. Simplesmente encantador ❤

  2. Olá! Eu vi o filme no dia 21 e me emocionei muito, até com o terceiro ato que, de modo geral, não está sendo muito aclamado pela crítica. É que eu vi o filme todo como uma construção de crítica social, e o final se encaixa lindamente neste cenário. Normalmente escrevo sobre escolhas de vida e trabalho, o filme se encaixou como uma luva nas minhas caraminholas pensantes 😛
    A minha resenha está aqui se você quiser passar para dar uma espiadinha! 🙂 https://cuorecurioso.wordpress.com/2015/08/23/5licoespequenoprincipe/

  3. Adorei suas observações, Luís! Tive as mesmas percepções quanto ao filme, especialmente quando você relembra a riqueza escondida nos detalhes (o sorriso não tão perfeito da garotinha, por exemplo). Cito ainda as cenas em que a personagem, em momentos de tensão, chega a morder os lábios, a postura com os pés um pouco tortos, entre outros detalhes, que na minha opinião abrilhantaram o filme. Como fã e colecionadora do Pequeno Príncipe, eu achei lindo, porém descartaria algumas cenas, rs. Deixo aqui o convite para você conhecer o meu Blog sobre o personagem e o autor. Abraços!

    http://opequenoprincipemeublog.blogspot.com.br/

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