Perdido em Marte

“Adaptação do livro de Andy Weir marca o retorno do Riddley Scott que gostamos de ver”

 

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Admito: tenho uma birra, talvez injustificada, com o Riddley Scott. O experiente cineasta nunca teve um grande apelo comigo. Talvez seja pelo fato de que este que lhes escreve não conhecer a carreira do diretor a fundo, não tendo assistido filmes como Thelma & Louise ou Falcão Negro em Perigo. Mas o clássico Blade Runner, por exemplo: é um ótimo filme, mas não consigo achar que seja ESTA obra prima. E as obras recentes dele não são das mais memoráveis: Robin Hood é satisfatório, mas desperdiça um baita potencial; talvez me falte cabeça para compreender melhor O Conselheiro do Crime, mas só consigo lembrar da cena bizarra da Cameron Diaz com Javier Barden (o elenco, aliás, é jogado no lixo); e Êxodo: Entre Deuses e Reis é até uma abordagem interessante de uma das mais famosas passagens da Bíblia, mas também deixa a desejar.

Em 2015, contudo, a maré parece ter virado. Tive a oportunidade de ver Alien – O 8º Passageiro pela primeira vez, no cinema, e, sem dúvidas, foi uma das melhores experiências que tive em uma sala de projeção. ESSE era o Ridley Scott que tinha me agradado tanto com o épico Gladiador. E é esse Scott, que parecia por baixo nos últimos anos, que parece ter voltado à boa forma em Perdido em Marte.

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O filme é baseado no livro escrito por Andy Weir, e conta a história de Mark Watney (Matt Damon), um astronauta que faz parte da 3ª missão realizada em Marte, o o nosso querido planeta vermelho. Em uma pesquisa de campo, a equipe é pega de surpresa por uma forte tempestade de areia, que os obriga a abortar a missão. Na evacuação, porém, Watney é atingido por uma antena e jogado para longe. Achando que seu colega teria morrido, o restante dos membros parte em retirada, enquanto o astronauta é deixado para trás. Sozinho, o único humano no nosso planeta vizinho terá que colocar a cabeça para funcionar e fazer tudo a seu alcance para conseguir sobreviver e, quem sabe, voltar para a Terra.

Tive a oportunidade de ler o livro de Weir no começo do ano e aproveito para fazer um breve comentário. A obra é o único trabalho do autor publicado, e chama a atenção pela quantidade de argumentos científicos apresentados. Fascinado por ficção científica desde pequeno, a quantidade de informações e conceitos que o novelista apresenta em Perdido em Marte é gigante, mas é uma apresentação prática, fácil de entender e, sobretudo, divertida, pois o protagonista é bastante carismático. A narração é feita pelo diário de bordo que Watney cria em Marte. Ou seja, mesmo sabendo que o que o astronauta conta já aconteceu, Weir conseguiu escrever de uma maneira que você ainda se importasse e fosse capaz de sentir os momentos de tensão da luta pela vida do personagem. Claro que ficar neste tipo de narrativa por mais de 300 páginas talvez não funcionasse, por isso, há momentos mostrando o que acontecia na Terra e na espaçonave, com o resto da tripulação da missão, e como a notícia que o astronauta ainda está vivo atinge este esses dois núcleos. Essa alternância acaba sendo bem vinda para a dinâmica do livro, deixando-o ainda mais viciante. Para quem gosta do assunto, a obra é um prato cheio.

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A adaptação do roteiro fica a cargo de Drew Goddard, um dos showrunners de Demolidor. Seria inviável repetir a fórmula do livro no filme (afinal, não teria muita graça ver o Matt Damon aparecendo para a câmera e falando o que aconteceu), mas a construção do filme continua interessante, didática ao usar termos específicos, leve e sem ser algo que se arrasta ou que seja massivo. Principalmente, Goddard preservou o humor e o tom leve (apesar da situação adversa) do livro, o que era um dos pontos chaves da adaptação. O deslize, entretanto, fica para o balanço do filme. O núcleo da Terra ganha um destaque muito maior do que eu imaginava, e consequentemente, o núcleo da nave, que tem um elenco respeitável, acaba sendo subutilizado, tendo seu potencial desperdiçado.

Falando no elenco, a atuação de Matt Damon deve ser o seu melhor trabalho nos últimos anos, sabendo ser engraçado e, ao mesmo tempo, alguém capaz de transmitir todas as angústias de um indivíduo que se encontra em uma das piores situações imagináveis. Um astronauta bem melhor do que o “desastroso” Dr. Mann de Interestelar. Devido ao foco extra, os trabalhos de Chiwetel Ejiofor (12 anos de Escravidão) e Jeff Daniels (Debi&Lóide 2), assim como o do próprio Sean Bean (O Senhor dos Anéis e, aliás, o filme perdeu uma chance ÚNICA de fazer uma ótima brincadeira envolvendo o ator) e de Kristen Wiig (Tudo por um Furo) se destacam. O núcleo da nave acrescenta pouco, ganhando a devida importância apenas no clímax do filme, mas as atuações de Jessica Chastain (Interestelar), Kate Mara (House of Cards), Sebastian Stan (Capitão América: O Soldado Invernal) e Michael Peña (Homem-Formiga) também não comprometem.

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E sobre o trabalho de Scott? É com alegria e até mesmo com alívio, que posso cravar o retorno do diretor à boa forma. Não vá ver o filme esperando o clima tenso e claustrofóbico de Alien. Pelo contrário, o diretor mostra uma nova faceta, que se sai de forma extremamente competente no tom proposto pelo filme. O design de produção, um dos pontos fortes do cineasta, continua impecável. As tomadas de lugares desérticos e rochosos, combinados com uma inteligente fotografia alaranjada, faz o espectador até se perguntar como pode haver tais cenários na Terra. E apesar da proposta e do humor presente, Scott consegue dar um contorno contemplativo e mais sereno ao filme, com vários momentos silenciosos, que acompanham o esforço pela sobrevivência do protagonista.

Por fim, a trilha composta por Harry Gregson-Williams (O Protetor) apresenta dois momentos distintos. A parte instrumental, infelizmente, passa quase despercebida na maior parte do tempo, contrapondo a presença sonora dos três filmes citados no parágrafo acima. Porém, graças à coletânea de músicas dos anos 70 que uma das personagens do filme possui, a inserção das faixas setentistas ajuda a reforçar ainda mais o caráter divertido do filme, principalmente nos créditos finais.

Perdido em Marte mantém a tradição e qualidade de ficções espaciais recentes, apresentando-se como um dos filmes mais agradáveis deste ano. Agora, Riddley Scott volta sua atenção para Alien: Paradise Lost (ou Prometheus 2, como era conhecido até outro dia). Que o momento de reflexão em Marte não o leve a errar a mão novamente.

Nota: 8/ 10.

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