[REVIEW] Beasts of No Nation

“Debute da Netflix problematiza lastimável realidade de povos africanos.”

Por Matheus Araujo

 

A Netflix é um marco na história do audiovisual. Com sua própria produção de séries (até seu surgimento) de televisão, a gigante acrescentou a nossa vida uma alternativa às mídias convencionais e ao seu modo de produção condicionado a padrões. Sem se moldar ao gosto do grande público, é seguro afirmar que, em suas obras, a Netflix possui um quê mais autoral e independente de criação. Uma produção original. Assim, não eram diminutas as expectativas quanto a sua incursão nos longas-metragens.

Para sua estreia, a empresa poderia optar por qualquer gênero. Um típico filme de comédia, romance, drama… Em contrapartida, resolveu escancarar uma das maiores vergonhas da humanidade. As condições sub-humanas de povos africanos, as quais, em nossa rotina (ao consumirmos o próprio serviço de streaming, por exemplo) sequer dedicamos o pensamento. Não mais.

Beasts of No Nation acompanha a ruptura da infância de Agu (Abraham Atta), um garoto residente em um dos tantos países africanos com complicado estado civil e que, como tantos outros, é “recrutado” por uma guerrilha para travar as batalhas pela libertação de sua nação.

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A condução do filme, para nós brasileiros, tem ares dos populares Cidade de Deus e Tropa de Elite. O garoto pode ser comparado a Buscapé ou Nascimento, pois não possui uma postura agressiva na narrativa, mas reativa, respondendo aos estímulos de seu inóspito ambiente. Além disso, observamos um fácil paralelo entre as formas tão naturais de se apresentar a cruel vida daquelas crianças e a realidade da Cidade de Deus.

Em relação ao Tropa, podemos ainda enxergar, de forma análoga, a dinâmica de uma organização “especial”, como também as semelhanças no treinamento dos guerrilheiros. Todavia, enquanto os agentes do B.O.P.E. se desumanizavam com o processo, tornando a violência uma resposta imediata à violência, o treino de Agu é repleto de uma ideologia de massacre e torna-o, parafraseando, bestial.

As comparações são o suficiente para atestar a ótima direção de Cary Joji Fukunaga. Reconhecido por seu trabalho na primeira temporada de True Detective, ele perpetua aqui seu esmero com a fotografia, utilizando longos planos e interessantes recursos de transição, responsáveis por não tornarem em momento algum o filme confuso. Essas competências também são ótimas para situar, com o auxílio da trilha e outros elementos culturais, o espectador naquela realidade. Ademais, seu tato para o uso estritamente necessário da violência (afinal, a maioria dela envolve crianças) e a seriedade para tratar um momento íntimo são exemplares. Pontuo minhas ressalvas, no entanto, quanto à edição, que permite a delonga, e ao final, que encontra certa dificuldade para concluir, mas que ainda é eficiente em comunicar a deterioração da guerra.

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Todavia, a maior habilidade de Fukunaga se encontra na direção de atores. Uma criança atuar como Abraham Atta é raridade e esta era uma exigência para o funcionamento de Beasts. O garoto cativa tão fácil e possui tanta presença quanto o Comandante de Idris Elba, famoso por seus papéis em Thor e Pacific Rim. Elba é, sobretudo, imponente e entrega uma natureza áspera que provoca uma submissão instintiva quando em tela.

Finalizo, retornando às comparações. Beasts of No Nation é tão representativo quanto 12 Anos de Escravidão. A quebra da apatia provoca, além de finalmente dedicar o pensamento à África, a reflexão: ao não terem nação, essas “bestas” são nossa responsabilidade e vergonha. A diferença está que sobre a escravidão nada faremos, se não lamentar.

Nota: 8,5/ 10.

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