Straight Outta Compton – A História do N.W.A

“Show de atuações, roteiro e direção ditam o ritmo em biografia de grupo de rap.”

Por Luís Gustavo Fonseca

Eu estou longe de ser um grande fã do rap, apesar de gostar de uma música ou outra e admirar o talento dos artistas em cantar naquela velocidade. Por isso, era provável que eu ignorasse a estreia de Straight Outta Compton no Brasil. Contudo, o sucesso do filme nos EUA, em um verão dominado pela Universal, somado ao buzz positivo gerado pela obra e a escolha do diretor F. Gary Gray para comandar o 8º filme da franquia Velozes & Furiosos, foram o suficiente para despertar minha atenção pelo longa.

A trama narra a história de cinco jovens negros que em meados dos anos 1980 fundam, no bairro de Compton, em Los Angelos, o N.W.A – Niggaz Wit Attitudes. Composto por Eazy-E (Jason Mitchell), Dr. Dre (Corey Hawkins), Ice Cube (O’Shea Jackson Jr.), DJ Yella (Neil Brown Jr.) e MC Ren (Aldis Hodge), o grupo obteve sucesso imediato ao compor músicas que falavam muito mais do que o estilo de vida gangster:  as letras escancaravam a opressão e discriminação que os negros e a periferia sofriam da sociedade, sobretudo da força policial. Era uma maneira, finalmente, de dar voz a esses grupos.

SOC 1

Tendo os próprios Ice Cube e Dr. Dre entre os produtores, o roteiro escrito por Jonathan Herman e Andrea Berloff não poderia ser mais certeiro. A obra, naturalmente, irá mexer mais com os fãs do grupo e do gênero, mas ela não exclui aqueles que desconhecem os artistas. A construção da história é feita com primazia, tendo cuidado para construir e desenvolver os personagens, sobretudo o trio Eazy-Cube-Dre. E não apenas desenvolver suas motivações e personalidades, mas principalmente, suas relações, algo que é feito brilhantemente. O apego com os artistas vem com facilidade e os diálogos, carregados de gírias e palavrões, deixo tudo mais verossimilhante e real.

O tema e o texto do filme não poderiam ser mais atuais, já que o recente caso em Fergunson, nos EUA, mostra que os problemas e a discriminação sofrida pela comunidade negra pela polícia estão (muito) longe de serem algo do passado. Discriminação que inspirou músicas como Fuck the Police e colaboraram para o aumento de popularidade dos rappers. O roteiro, demonstrando ter um bom ritmo, acerta ao narrar o auge (e o posterior declínio) do grupo e de suas relações internas, que causaram o afastamento de Ice Cube e Dr. Dre. A edição é eficaz ao alternar entre os pontos de vista de Eazy-Cube-Dre, permitindo que cada um desses núcleos tenha tempo em tela para desenvolver suas subtramas. Apesar do bom ritmo, a edição exagera um pouco no corte final (quase 2h30), sendo que um corte 20 minutos mais curto seria o ideal.

Straight Outta Compton

O diretor F. Gary Gray (Uma Saída de Mestre) não trabalhava desde 2009, com Código de Conduta. O tempo longe do posto não atrapalhou o cineasta, que apresenta um trabalho seguro, competente e que possibilita tirar o máximo de seu elenco. Destacam-se alguns curtos planos sequências, bem executados, e até mesmo uma breve perseguição de carro (um presságio de seu futuro trabalho?). A ótima fotografia de Matthew Libatique (Noé) é outro fator que corrobora para a excelência do filme. O único aspecto que incomoda é que, mesmo nas cenas mais tranquilas, a câmera chega a tremer muito, causando uma sensação incômoda e desconfortante.

O filme é a prova que há uma boa safra de jovens atores negros com potencial para brilhar nas telonas, desde que Hollywood dê à devida chance para que eles possam protagonizar as obras. Cada um do quinteto contribui em algum aspecto da caracterização do grupo, e a química entre eles é excelente. Por terem mais tempo em tela, Jason Mitchell, Corey Hawkins e o debutante O’Shea Jackson Jr. roubam a cena, principalmente o último, que impressiona pela sua presença em tela no seu primeiro trabalho. Completando o time de boas atuações, é necessário citar o veterano Paul Giamatti, que interpreta o agente (e um dos motivos de desavença do grupo) Jerry Heller. Talvez seu melhor trabalho nos últimos cinco anos.

Straight Outta Compton

Por fim, vale citar o figurino e a maquiagem da obra, que aproxima ainda mais a fisionomia dos atores com os integrantes da banda, e a trilha sonora, que inunda os ouvidos e empolga com facilidade. E não apenas quando o rap está tocando: Joseph Trapanese (Oblivion) dá o tom certo no instrumental, principalmente no terceiro ato do filme, mais emotivo e pesado do longa.

Straight Outta Compton é um convite não apenas para os fãs de rap, mas para todos interessados em uma boa história. Os créditos são acompanhados de relatos de artistas como Tupac, Snop Dogg, 50 Cent e Eminem, contando como o N.W.A e seus integrantes tiveram papéis decisivos em suas carreiras. A prova definitiva que o legado e popularidade do grupo estão longe do fim.

Nota: 9/ 10.

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3 comentários sobre “Straight Outta Compton – A História do N.W.A

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