007 Contra Spectre

“Nova aventura estrelada por Daniel Craig é marcada pelo tom de despedida e desperdício de potencial”

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Num ano marcado pelo retorno de franquias como Jurassic Park e Mad Max, pelo segundo filme d’ Os Vingadores e que ainda terá a estreia do último Jogos Vorazes e do novo Star Wars, 007 Contra Spectre poderia não receber a atenção que merece. Mas após toda a caminhada construída por Daniel Craig em quase 10 anos de franquia (recheado de bons momentos, o que tornou ele meu 007 favorito), era impossível não criar boas expectativas para o vigésimo quarto filme de James Bond.

O filme vem em um momento crucial para a Sony que, como eu expliquei aqui, não vive um ano bom. No novo longa, Bond (Daniel Craig) revisita o passado, em um momento em que a MI6, mais uma vez, passa por reformulações. A jornada rumo à origem do personagem o coloca no rastro da misteriosa organização chamada Spectre, liderada por Franz Oberhauser (Christopher Waltz), e serve como forma de fechar o grande arco construído ao longo destes quatro filmes.

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Spectre é uma mescla de alguns elementos clássicos dos filmes de espionagem (que a própria franquia estabeleceu ao longo das décadas), tais como: o carro cheio de artifícios; os equipamentos mirabolantes; a relação com as mulheres (algo que Craig condenou em uma recente entrevista), além de referências à própria série. Mas há, ainda, uma pegada mais realista, pé no chão, que procura fechar e ligar os pontos dos demais filmes estrelados por Craig.

Se essa mistura proposta pelo roteiro, assinado mais uma vez por John Logan, Neal Purvis e Robert Wade, é interessante, sua execução não iguala o bom trabalho mostrado anteriormente. No decorrer de suas quase 2h30, Spectre perde a melhor característica do Bond de Daniel Craig: a tensão. Tanto a tensão da mesa de pôquer de Cassino Royale, que possibilita o duelo de presença dos atores, quanto à tensão de Skyfall, com o brilhante Silva de Javier Bardem ameaçando as vidas de Bond e M. Pior: o filme tem momentos de lentidão que lembram o mediano Solace, e a falta de ação (que foi tão bem distribuída no último longa) no decorrer da investigação de Bond é extremamente prejudicial ao ritmo da obra.

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Apesar de que várias coisas em Spectre serem bem feitas, como a ação, que continua sendo bem executada, há sensação que transmitida é de desperdício. Desperdício de potencial. A cena inaugural é boa? Sim, e conta com um ótimo plano sequência, que destoa dos demais filmes de Craig. Mas já tivemos melhores. A direção de Sam Mendes também continua satisfatória, mas é um trabalho bem menos impressionante do que o de Skyfall, principalmente pela ausência de Roger Deakins na fotografia, sendo substituído por Hoyte Van Hoytema (Ela). O enredo do filme é interessante, mas a lentidão que marca a primeira metade do filme compromete a estrutura da obra. E se o filme custou, mesmo, 350 milhões de dólares, tamanho investimento não é percebido em tela (a não ser em forma de altos salários), apesar das boas cenas de ação e perseguição presentes.

Porém, nenhum desperdício me incomoda mais do que o do elenco. Monica Bellucci não tem mais do que 5 minutos em tela. Dave Bautista (Guardiões da Galáxia) sai praticamente mudo do longa (apesar de cumprir muito bem o papel do capanga parrudo e porradeiro). Alguns nomes que já haviam aparecido na franquia, como Ralph Fiennes, Ben Wishaw e Naomie Harris, até possuem bom tempo no longa, mas pouco acrescentam. E Christopher Waltz… Um retrato do filme. Ele não está ruim, mas o vencedor de 2 Oscars poderia ser muito, muito mais. Alguns de seus trejeitos ajudam facilmente na construção icônica do seu personagem, mas não são suficientemente explorados. Há, contudo, coisas boas. O jeitão de Daniel Craig ainda é interessante de ver, combinando com o clima da obra, e sua química com Léa Seydoux funciona, num trabalho também satisfatório da atriz. Outra grata surpresa é o tempo em tela recebido por Andrew Scott, o Moriarty da série Sherlock, da BBC, que faz valer o tempo.

Se tem um aspecto que se iguale ao que já foi mostrado antes, é a trilha de Thomas Newman, que te deixa ligado a todo o momento, mesmo na parte mais devagar do longa. Outra bela composição. Já a música tema do filme,Writing’s on the Wall, composta e cantada por Sam Smith, uma das sensações da música pop atual, causa pensamentos conflitantes. A princípio, não havia me agradado, mas ouvindo outras vezes, reconheço a beleza existente na faixa (apesar que não chega perto da minha admiração por Skyfall, da Adele).

Finalmente, o tom de despedida no fim da obra é palpável, e talvez isso seja até bom. Daniel Craig, como diz a música, já deixou seu nome no muro desta renomada franquia do cinema. Seu dever foi devidamente cumprido, e novos ares, como novos estilos e temáticas, são bem vindos. Seja com Tom Hardy, Idris Elba ou qualquer outro. Pois o agente com licença para matar não pode tirar licença das telonas por muito tempo.

Nota: 7,5/ 10.

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