[FORA DE SÉRIE] Confissões de um pires cultural

Por Matheus Araujo

Eu poderia fingir que sou um “manjão” de tudo, como qualquer crítico de jornal, e resenhar O Fim da Turnê e Love & Mercy esbanjando todo um suposto conhecimento profundo dessa porra toda. Mas eu não preciso dar uma de Jô Soares… Ninguém espera muito de um blog chamado Filmaiada! Aliás, é no reconhecimento das minhas limitações que o trabalho de resenhar se torna muito mais proveitoso.

O Fim da Turnê inicia com a notícia do suicídio de David Foster Wallace chegando aos ouvidos de David Lipsky, jornalista da Rolling Stones que anos antes o entrevistara nos tempos do retumbante início de sua carreira literária. Em busca de consolo, Lipsky resgata as gravações do período que passara com Wallace, enquanto este chegava ao fim da turnê de divulgação de seu mais notável livro.

E é aqui que a introdução do texto começa a fazer sentido. Assisti à boa parte da biografia de Wallace sem perceber que era uma biografia! Sinceramente, não creio na fama de Wallace aqui no Brasil, mas ainda assim, para um “crítico” cultural foi um sentimento um tanto humilhante não desconfiar imediatamente da natureza do filme. Para que tenham uma noção apropriada de quem a obra trata, apresento David Foster Wallace, renomado autor norte-americano, responsável por uma das mais importantes obras das últimas décadas, Graça Infinita. Mais ou menos como Lipsky diz no filme, você não começa a ler um livro de mais de 1000 páginas, de um rapaz de 23 anos, esperando que ele seja apenas um bom livro.

end of the tour

De volta ao filme, penso que a mais tranquila das comparações possa ser traçada com A Teoria de Tudo, já que também temos a história da juventude de um gênio abordada sob a ótica de um relacionamento que se sustenta no conflito de uma dupla. Distinguindo, temos que o momento de Wallace dura cinco dias e, diferente da rápida aceitação de Jane por Stephen Hawking, o conhecimento e o reconhecimento da outra parte é o que se busca por aqui.

Nenhum problema com essa premissa mais contida. Aliás, é ótima. Todavia, sinto falta de uma narrativa mais instigante, algo que um aclamado romancista como Wallace, suponho, daria o devido valor. O contar da história de O Fim da Turnê é monótono. Não há, por exemplo, flertes com o fato de vermos a história através do gravador. E nesta falta de mais recursos, a responsabilidade se debruça sobre Jesse Eisenberg, o rapaz que está sempre com a mesma cara, e Jason Segel, que, por mais esforçado que seja, não constrói uma persona tão cativante quanto a propaganda de seu nome.

A única coisa que realmente me captou e me carregou ao longo de todo filme, com exceção da abordagem de ideias explícitas de Wallace, foi a trilha de Danny Elfman, diferente do que vemos em seus trabalhos maiores, traz algo bem experimental. O melhor de O Fim da Turnê é o pôster. Ele, sim, é eficiente em comunicar a mensagem. A gravação que define duas pessoas. A película não é capaz de passar a importância ou a intensidade desse encontro.

11191376_ori

Meu segundo desvio de caráter cultural e a maior razão pela existência deste texto – o que me carimbou na testa [ignorante] – é que consegui não reconhecer uma segunda biografia logo em seguida! Love & Mercy retrata parte da vida de um gênio da música por trás de uma banda de rock dos anos 60, super comercial, mas que com o passar do tempo tornou-se psicodélica, elaborando um dos álbuns mais influentes de todos os tempos e que compôs a música favorita de outro dito gênio contemporâneo, Paul McCartney. Não se preocupem, eu não estou no nível de não fragar uma biografia do John Lennon.

Love & Mercy, assim como O fim da turnê, é uma fatia da vida de um homem. Na verdade, duas fatias intercaladas – o que, em minha opinião, já o torna mais interessante na tal narrativa que julguei chatinha mais cedo. Enquanto lá eram contados os cinco dias de entrevista, aqui temos a oposição de dois momentos críticos da vida de Brian Wilson, líder dos Beach Boys: em meados de 60, durante o rico processo criativo de Pet Sounds e a descoberta de sua esquizofrenia, e também anos depois, em sua vida madura, vivendo com sua condição sob a vigilância e os abusos do terapeuta Eugene Landy.

Além da esquizofrenia, com as datas distas de quase duas décadas, o intérprete de Wilson teria um trabalho daqueles… E, talvez por isso, a opção por dois deles: Paul Dano e John Cusack. Não sou um grande fã do primeiro, mas este faz, seguramente, o melhor dos seus trabalhos. Seguro enquanto cantor, em passar suas convicções na ruptura com o rock comercial, nos delírios, na áurea que transmite que Wilson não era um homem ordinário. Já Cusack representa com perfeição a fragilidade de Wilson, numa representação menos introspectiva, relacionando-se com primazia com Elizabeth Banks e Paul Giamatti.

Apesar de ótimo nesta segunda parte de paixão & compaixão, a maior contribuição de Love & Mercy é o registro da criatividade de Brian Wilson. Preciso mencionar a riqueza da trilha sonora? Sem vergonha, eu admito que já havia escutado Beach Boys, mas nunca com o devido ouvido. “Documentar” Pet Sounds, eleito pela Rolling Stones de Lipsky o segundo maior álbum da história da música, perdendo apenas para o lendário Sgt. Pepper’s (que possui como sua maior influência o próprio Pet Sounds), é uma bela missão. Especialmente por ser mais uma arte no combate contra a minha ignorância. Uma oportunidade de apresentar clássicos a uma nova geração.

Mas, no fim do dia, adoro ser um pires cultural e ter a certeza de que há tantas maravilhas a serem descobertas por mim.

Anúncios

2 comentários sobre “[FORA DE SÉRIE] Confissões de um pires cultural

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s