No Coração do Mar

“A entrega de Hemsworth e a visão de Howard recontam grande clássico.”

Por Matheus Araujo

Meu último texto foi sobre as vantagens de quase não ter nenhuma bagagem cultural e a possibilidade de descobrir um clássico através de um olhar contemporâneo. Credito a isso, meu apreço por No Coração do Mar. Evidente que já conhecia a história de Moby Dick, mas por referências. Ao trazer um primeiro contato positivo com a obra, Ron Howard já valida sua investida, que não exatamente adapta o romance de Herman Mellvile, mas os fatos que o originaram: o naufrágio do baleeiro Essex, em 1820, por uma gigantesca baleia branca.

Discordem ou riam da minha ingenuidade cultural, mas desde a premissa comecei a torcer para a baleia trucidar esses humanos. O homem é uma desgraça e merece a maioria das tragédias que a natureza nos reserva. Sobretudo, porque elas são um reflexo das atrocidades que produzimos neste planeta. Minha total torcida pelo “monstro” foi somente abalada por Ron Howard saber dosar a dramaticidade dos assassinatos cometidos por nós. Existe um quê de “vergonha” naquelas ações, semelhantemente ao visto no recente Beasts of No Nation. Aliás, aproveito para elogiar a consistência de Howard ao longo da película para além desta abordagem. Realmente incômodo de seu trabalho, apenas o excesso de água com açúcar quanto a bravura dos brutos tripulantes.

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Ficando um pouco mais técnico, ressalto a beleza da fotografia. A paleta, estranhamente, ainda me lembra a do filme anterior de Howard, Rush – No Limite da Emoção. Seus tons dourados e esverdeados, compõem, junto dos bons enquadramentos, um visual estonteante. Talvez um pouco menos impressionante, os efeitos visuais certas vezes não vencem os fundos verdes, mas quando vencem, são igualmente belos.

Retomando mais uma vez Rush, Chris Hemsworth, voltando a trabalhar com Howard, realiza sua melhor performance. Nem pelo desafio físico, mas pela exigência dramática. Todavia, diferente do filme anterior, Hemsworth não tem um Daniel Bruhl ao seu lado, por mais que precise. Benjamin Walker, que segundo o IMDb tem como seu trabalho mais relevante Abraham Lincoln: Caçador de Vampiros, mantem este no topo de sua filmografia. A história pede um conflito, mas Hemsworth é tão maior que o par é inexistente.

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Por fim, apontarei duas comparações capazes de resumir a experiência de No Coração do Mar. A primeira diminui um pouco a obra, por tão forte paralelo, mas sejamos justos. Provavelmente a referência é ao contrário, no entanto, o final do filme de Howard é extremamente similar a As Aventuras de Pi. Agravando esta relação, temos que além do próprio conteúdo, ambos os filmes são estruturados através de entrevista. Desta forma, diante do recente sucesso Pi, sinto que na cabeça do grande público o vínculo se inverterá.

A segunda comparação não enfraquece a releitura de Moby Dick, mas mensura o seu êxito quanto adaptação de clássico. Os Miseráveis pode não ser aquele filme, mas decentemente reconta a obra do século XIX e a mesma eficiência cabe a No Coração do Mar. Apesar de algumas tempestades, ao fim, a mensagem transparece como sob águas calmas: é preciso que o “monstro” mostre aos homens o quanto definham por sua ganância.

Nota: 7,5/ 10.

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