Impressões de um tímido sobre a Comic Con

Ou o porque eu entendi que a Comic Con é um evento social

 

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Quando foi anunciada no início de 2014, a notícia que teríamos uma Comic Con criou um misto de expectativa com um punhado de incerteza. Era a chance, finalmente, de um evento de grande porte se estabelecer no Brasil, tentando reproduzir todo o clima e grandiosidade de sua “mãe”, a San Diego Comic Con. Por outro lado, havia a dúvida: mas será que um evento desses dá certo por aqui? O público irá abraçar a parada? Os quadrinistas e outros artistas internacionais terão interesse em vir para cá? Será que vale o investimento, em vez de guardar e tentar ir para a de San Diego?

Acabei não indo na edição do ano passado, mas à medida que acompanhava os acontecimentos da feira, o arrependimento bateu e com força. Desde então, me programei para não perder a deste ano, poupando um dinheiro aqui, recebendo mais uns trocados de aniversário ali. E após ter ido aos quatro dias de evento, a sensação que o dinheiro foi bem gasto é garantida.

IMG_20151206_123116149[1]

A primeira observação que eu faço é que acho muito difícil alguém, em apenas um dia, conseguir absorver tudo que a feira tem a te oferecer. Logo na entrada, há “apenas” uma réplica em tamanho real da Hulkbuster e do Hulk, e você já fica observando aquela maravilha por uns bons minutos. Esse é apenas um aperitivo das centenas de action figures e colecionáveis presentes, um mais bem feito do que o outro, e que criam aquela vontade de vender um rim ou dois para decoração do lar.

Depois, é possível se perder na quantidade de atrações que os estandes oferecem: karaokê, tiro ao alvo e leitor de ondas cerebrais (?) do Kilgrave no estande da Netflix (e que rendiam ótimos brindes, como pôsters, camisetas e squeezes); a piscina de bolinhas (!) no de Procurando Dory; poder tirar fotos com o carro capotado (aquele do trailer) no cantinho de Deadpool; ou ao lado do carro de Ghostbusters (podendo utilizar o uniforme da equipe!). Havia, ainda, os figurinos de Batman v Superman e a Era de Ultron. Toda essa interação, assim como a possibilidade de você ver de perto um material que não chegaria ao Brasil de outra forma, é algo muito bacana de se presenciar, e um dos pontos bacanas de ir no evento.

IMG_20151204_145516642[1]

Foi uma pena que pude ir a apenas um painel no principal auditório da feira, por onde passaram nomes como Kristen Ritter e David Tennant, protagonistas de Jessica Jones; parte da turma de Sense8; o diretor Anthony Russo, que irá comandar Capitão América: Guerra Civil; o produtor de Star Wars: O Despertar da Força, Bryan Burk; além das lendas dos quadrinhos, Jim Lee e Frank Miller. Contudo, esse único que estive presente já valeu todos os quatro dias. Enquanto a atriz Evangeline Lilly falava sobre seu primeiro livro, Os Molambolengos, percebi como ela deve ser a melhor pessoa do mundo! Atenciosa com os fãs, ela respondeu a várias perguntas, abraçou uma menina que lhe deu flores e convidou uma garotinha para ler um trecho do livro, em português. É o momento que você percebe que, muito mais do que uma estrela de cinema, há um ser humano enorme ali.

Apesar dos holofotes que os materiais de cinema e TV recebem, vale lembrar que é uma COMIC Con. E, nesse aspecto, é preciso falar da Artist’s Alley, com mais de 200 artistas. Ali, era o lugar que eu desejei ser um pouco mais carismático, para explorar melhor o trabalho das dezenas de artistas independentes que lá estavam. Mesmo assim, deu para achar umas artes legais, e o espaço é o lugar ideal para quem conhecer trabalhos novos e dar um impulso ao mercado de HQ no Brasil, que se mostra cada vez mais talentoso.

Parte do figurino de Demolidor era um dos que estava a amostra no evento
Parte do figurino de Demolidor era um dos que estava a amostra no evento

A melhor coisa da feira, julgo eu, é o público e a atmosfera criada. E foi aí que eu percebi a espécie de contrato social existente em uma Comic Con, algo que só consigo ver certo paralelo com as torcidas de futebol. Lá dentro, não importa quem é você, sua cor, religião, classe, gênero, se quer a saída da Dilma ou não, ou se chama de biscoito ou bolacha. TODO MUNDO ali tá amarrado e unido por uma paixão em comum, por uma cultura que todos compartilham. Independente se você é alguém que foi lá pelos quadrinhos, os painéis de cinema e TV, pela área de games, pelos mangás ou só por curiosidade mesmo. A convivência no lugar é algo excepcional e dá a esperança para que, um dia, possamos ser uma sociedade melhor.

E o que faz essa atmosfera ser tão bacana, sem dúvidas, é a presença dos cosplayers. Sério, essa galera, seja de quem se fantasia da forma mais simples até de modo mais sofisticado, merece muito os aplausos e reconhecimento dos demais, porque são eles a verdadeira representação do que é uma Comic Con. Putz, aonde mais vai ser considerado normal ver um Batman na fila para comprar algo de comer, ou ver o Kick Ass dirigindo um Fox para chegar no evento? Não importa se você está fantasiado de herói, de vilão, de alguém popular ou de algum personagem obscuro que só duas pessoas vão reconhecer quem é. O lado bom da Comic é que você pode se transformar em qualquer um e, por algumas horas, sair desse nosso universo chato de todo dia e ser parte de um universo que você tanto admira. E não vai ser um repórter idiota e um programa besta que vão desmerecer isso.

Onde mais?
Onde mais?

Apesar disso tudo, a Comic Con não é apenas um mar de flores. Se você pretende ir, esteja pronto para enfrentar filas. MUITAS FILAS! É para entrar no evento, comer algo, participar de alguma interação em um estande, entrar no auditório principal, encher a garrafinha de água no bebedouro e (principalmente no caso das meninas) para ir ao banheiro. São horas ficando em posições não muito confortáveis, privado de ir ao banheiro, se restringindo a lanchinhos e de não poder passear pela feira. Se juntar todas as horas que fiquei, deve dar quase 20 (só para conseguir o autógrafo da Evangelinne Lilly, foram 5!). Em alguns casos, a pessoa fica horas na fila e não consegue entrar no painel ou o autógrafo de um artista, o que é uma pena.

Evangeline Lilly é a melhor pessoa do mundo. Valeu a pena esperar CADA segundo!
Evangeline Lilly é a melhor pessoa do mundo. Valeu a pena esperar CADA segundo!

Acho normal isso ocorrer num evento aonde vai tanta gente, mas acho que a organização poderia se preparar mais para possibilitar filas menos confusas e que não interferissem na locomoção dos demais (aliás, outro ponto positivo: o lugar é cheio, mas há espaço para circular, mesmo nos dias com ingressos esgotados. Não é igual tentar se mover em show lotado, onde isso é impossível). Apesar do fato de ter ido sozinho ter sido algo meio sem graça, foram essas horas na fila que possibilitaram a chance de formar pequenas amizades, conhecer pessoas novas que, ao menos, compartilham UMA coisa em comum com você, e que faz o tempo passar mais rápido.

Enfim, se “a primeira impressão é que fica”, a da Comic Con Experience é a das mais positivas. O evento ainda tem muito no que evoluir, mas é reconfortante perceber o que já foi alcançado e, principalmente, que o público abraçou a proposta. Ao chegar em casa, na madrugada de segunda, mais do que o cansaço nas pernas, ficava o pensamento: “Falta muito para 1º de Dezembro de 2016?

Anúncios

Um comentário sobre “Impressões de um tímido sobre a Comic Con

O que você acha sobre isso?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s