Os Oito Odiados

“Nova obra de Tarantino é mais uma justificativa do porque não queremos sua aposentadoria”.

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Ao longo de seus mais de 20 anos de carreira, Quentin Tarantino conseguiu algo que poucos diretores alcançaram: transformou-se em uma marca. Um selo de qualidade. Um nome que, imediatamente, faz o espectador pensar em grandes filmes e se empolgar com qualquer novo projeto. Ele não tem sucessos de bilheteria como Vingadores e Jurassic World de baixo do braço, mas possui uma legião de fãs que a maioria dos diretores de blockbusters sonha em ter. E ainda é um daqueles que conquistou o clamor do público e da crítica.

A história de Os Oito Odiados começou muito antes do primeiro minuto do longa rodar. No início de 2014, o roteiro do filme vazou e Tarantino quase desistiu de fazê-lo. Ainda no mesmo ano, ele realizou a leitura do texto (com algumas modificações) ao lado de alguns dos atores que trabalhariam no filme (como Samuel L. Jackson) e, motivado pela recepção dos presentes, tocou o projeto para frente. A trama narra à jornada do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell) e da prisioneira Daisy (Jennifer Jason Leigh) que, durante uma nevasca, acabam presos em uma cabana, ao lado de seis homens que não são o que dizem ser.

Aproveitando o marketing do filme, que sempre fez questão de destacar que era o 8º filme de Tarantino, dividirei o texto em oito pontos do longa que julgo merecer atenção.

  1. Referências e auto referências

 

Os filmes do Tarantino deixariam o Capitão América orgulhoso. Conhecido por referenciar diversas obras, o tratamento de Os Oito Odiados não poderia ser diferente. Sinto que vários faroestes antigos foram homenageados (mesmo que eu não os conheça), mas o que chama a atenção é como ele se auto referencia neste longa: uma mistura de Cães de Aluguel com a ambientação de Django Livre e cenas que lembram Bastardos Inglórios. Bem, ele pode, né?

  1. O ar teatral

 

Um dos detalhes que sempre me chamou a atenção para esse filme era a ideia dos personagens ficarem confinados em um único ambiente por muito tempo. A estratégia é interessante, pois o espectador acompanha os diversos diálogos presentes na casa, mas sem se perder em uma edição confusa, que poderia, equivocadamente, querer mostrar várias coisas acontecendo ao mesmo tempo. Cada uma das conversas tem o seu ritmo próprio de tela e, apesar da duração (são quase 3 horas!), o filme dificilmente fica cansativo.

Hateful 1

  1. O roteiro

 

Tarantino é roteiro. Ponto. Desta vez, a obra vai além de “simples” personagens dentro de um galpão, como em Cães de Aluguel. Cada personagem exerce uma função (“A Prisioneira”, “O Confederado”, “O Carrasco”), e a representação desses papeis reflete, de uma certa forma, as relações presentes nos EUA (tanto na época quanto hoje). E isso tudo é moldado por diálogos bem construídos. Aproveitando o tópico: se a intenção era chocar/revoltar/incomodar com cada vez que Daisy toma uma porrada do John Ruth, ou com as piadas racistas direcionadas ao Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson), o diretor obteve êxito. Até acho que houve um exagero, mas também não consigo pensar que personagens do fim do século XIX agiriam de forma diferente (porra, até hoje a reprodução desses atos acontece). Outro aspecto importante: o filme chama Os Oito ODIADOS. Cada um dos personagens tem culpa no cartório, um lado ruim. Ao mesmo tempo em que você fica com pena do socão que a Daisy toma no nariz (o que ajuda a desgostar, logo de cara, do John Ruth), tem que lembrar que ela é uma criminosa perigosa e que (possivelmente) fez coisas igualmente ruins. O Major Warren também não é flor que se cheire, e o filme explora isso em vários momentos.

P.S.: O Tarantino poderia dar um conselho ou outro para o Nolan de como introduzir um personagem interpretado por um ator de peso no início do 3º ato e que não prejudique a narrativa. O Jody é o Dr. Mann que deu certo.

 

  1. A direção de elenco

 

Das qualidades de Tarantino, uma das que mais se ressaltam é a sua direção de elenco. Ele sabe aproveitar os atores que tem em mãos, e aqui não é diferente. Samuel L. Jackson, mais uma vez, repete uma parceria de sucesso com o diretor; Tim Roth deve estar em seu melhor papel em anos (apesar de eu achar um pouco irritante o ar de Christopher Waltz de seu personagem); se por um lado achei o Bruce Dern um pouco subaproveitado, por outro, Walton Goggins foi uma bela surpresa. E claro, temos…

Hateful 3

  1. Kurt Russell

 

Outra coisa que despertava minha vontade de ver a obra (OK, como se fossem necessários muitos motivos, né?) era a presença de Kurt Russell. Acho que o grande público acabou esquecendo-o no decorrer dos anos 2000 e, de certa forma, o filme era a oportunidade de uma “redenção” (E olha que o Tarantino já ajudou ele antes, colocando para integrar À Prova da Morte e Kill Bill). A expectativa valeu a pena. Seu John Ruth é uma das melhores peças do enredo, incluso em vários dos diálogos mais interessantes do longa. A construção do papel também é ótima, e Russell soube explorar essa personalidade cafajeste (talvez até um pouco vilanesca) do personagem. Principalmente quando ele tem que contracenar com…

  1. Jennifer Jason Leigh

 

Como eu falei no post sobre o Globo de Ouro, Tarantino tem a mão para catapultar papéis coadjuvantes. Desta vez, a escolhida foi Jennifer Jason Leigh, a única mulher no elenco principal. Particularmente, a indicação ao Globo me soa um pouco forçada, mas não há como desmerecer o trabalho da atriz, que tem presença em cena. Mais: ela tem presença, mas sem precisar falar muito. Consegue conquistar a empatia do espectador só com algumas (boas) caretas e um ar de durona. Um dos pontos altos da obra.

Hateful 5

  1. O retorno de Ennio Morricone ao faroeste

 

A cereja no bolo da expectativa foi o anúncio de que o mestre Ennio Morricone voltaria, após 40 anos, a compor uma trilha de faroeste. E as décadas longe do gênero mostraram que ele não esqueceu como fazer uma trilha formidável. A princípio, até me pareceu meio sumida a composição, com o filme priorizando o silêncio para que os diálogos tivessem destaque. Mas sempre que se fez notar, que espetáculo! Já começamos 2016 com uma das melhores trilhas do ano.

  1. Banho de sangue e gore

 

A primeira metade do filme me fez esquecer essa característica de Tarantino: a sua capacidade de proporcionar verdadeiros banhos de sangue! Extremamente gráfico e propositalmente exagerado, com pitadas de gore que me arrancaram risadas (é GENIAL ver as cabeças explodindo), o diretor parece que quis derramar mais sangue do que nunca. Ah, Tarantino, por favor, não mude!

Hateful 2

Ao subir dos créditos, é com tristeza que você pensa que esse cara (para não chamar de gênio) só quer fazer mais 2 filmes. E sinceramente, não quero que ele “queime” um desses com Kill Bill vol. 3, preferiria duas histórias inéditas. Ao menos, ele já comentou que talvez vire um autor de livros, o que seria uma forma de ainda acompanharmos a sua genialidade para construir narrativas. Mas se ele mudou de ideia ao realizar Os Oito Odiados, quem sabe não mude de ideia sobre isso?

Nota: 9/ 10.

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6 comentários sobre “Os Oito Odiados

  1. Esse filme é uma Obra-Prima. Ponto.

    Tarantino botou o pau na mesa e mostrou o que é cinema de verdade.
    Roteiro magnifico, fotografia impecável, trilha sonora espetacular e a escolha dos atores não poderia ser melhor! Ouso dizer que é o melhor filme do Mestre Tarantino, e se não for, com certeza entra em um TOP 3.
    Nota: 11/10

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