Anomalisa

Por Matheus Araujo

Veja bem, quando em seu currículo constam Quero Ser John Malkovich, Adaptação, Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças… Não é tarefa fácil lançar um novo filme. Tal qual Shyamalan tem a obrigação de uma reviravolta, Kaufman não pode deixar de apresentar uma ideia “fora da caixa”. Assim como as reviravoltas, algumas ideias, mesmo as fora da caixa, são melhor aproveitadas do que outras.

Através de uma animação em stop-motion, dirigindo ao lado de Duke Johnson, Kaufman traz à vida Michael Stone, um autor de livros de autoajuda, que sofre de uma condição muito particular: ele percebe todos ao seu redor como o mesmo homem branco, com uma mesma e desinteressante voz. Tudo e todos (a esposa, o filho, o taxista, o gerente do hotel e até músicas) são extremamente similares e as únicas exceções são ele e Lisa, a tal anomalia.

Michael Stone é um expert em serviço de atendimento ao cliente, um especialista em como tratar pessoas. Todavia, dado ao seu natural desinteresse pela mesma face e voz, Stone demonstra uma profunda má vontade em conviver. Aliás, Stone é um sobrenome perfeito para uma pessoa tão fria, distante, e a interpretação vocal de David Thewlis (o prof. Lupin de Harry Potter) é soberba em transmitir isso. Mais brilhante que a performance do ator é a dos animadores. Fora sua bela concepção artística, a quantidade de detalhes nos movimentos, sem tecnologia de motion-capture, revelam um cuidado esplêndido.

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Mostrar o desinteresse e desconfiança de Stone na beleza da vida por meio de bonecos e uma voz sem graça é uma alegoria tão válida quanto literalmente apagar alguém de sua mente. Um sentimento confuso, extremamente humano e facilmente comunicável pela linguagem de Kaufman. Também merecedor de créditos por esta mensagem é Tom Noonan, que fala pelo resto do mundo e encaixou como uma luva em todos seus papéis. O contraste deste universo interpretado por Noonan com Lisa (Jennifer Jason Leigh) – para nós uma mulher comum, para Stone a única – funciona perfeitamente e ratifica o quão bem podem ser construídas as ideias de Kaufman.

Ainda assim, sinto um potencial desperdiçado na articulação dessa premissa. Diferente de suas produções mais famosas, a recente não ousa como poderia. Apenas flerta e, portanto, resulta numa curiosa experiência, na qual alguns aspectos interessantes se tornam rasos e não passam de detalhes orbitando um só recado. Tantos detalhes, que por serem meros detalhes, retiram certa credibilidade do centro.

Anomalisa está longe de ser um erro e distante de errar. Mas os brilhantes desdobramentos, que me fazem adorar Kaufman, não estão lá. Sua solitária “falha” é não ser mais.

Nota: 8,0/ 10.

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