Oscar 2016: Melhor Filme Estrangeiro

Por Luís Gustavo Fonseca

Mais do que ser um prêmio de reconhecimento das melhores produções cinematográficas (onde você, inevitavelmente, acaba tendo suas preferências), o Oscar é a chance de você conhecer novas obras, que talvez tenham passado despercebidos ao longo do ano. Mesmo porque, nem todos os filmes acabam sendo lançados nas telonas brasileiras. E nenhuma outra categoria representa isso melhor do que a de Melhor Filme Estrangeiro.

(Tudo bem, tem também a categoria de Melhor Documentário, mas acho bem raro encontrar estas produções, ao menos até elas serem anunciadas ao prêmio).

Todo ano, fico tentado em ver todos os filmes da dita categoria, já que ela tem essa mística exótica. Tarefa que, anualmente, falho miseravelmente, vendo um ou dois filmes no máximo, ou talvez só o vencedor. Os últimos anos nos brindaram com algumas produções, que acabaram me marcando: o iraniano A Separação, vencedor na categoria em 2012; o frânces Amor, em 2013 (que foi indicado, inclusive, na categoria Melhor Filme); o dinamarquês A Caça, em 2014, estrelado por Mads Mikkelsen, de Hannibal; o excepcional e brilhante Relatos Selvagens, longa argentino que está entre meus preferidos de 2014 e concorreu a categoria no Oscar do último ano. Até mesmo produções que não foram indicadas, como Azul é a cor mais quente (2013), também conquistaram um carinho especial comigo.

Este ano, resolvi inovar e me esforçar para ver todos os filmes indicados antes da premiação, e montar essa espécie de guia combinado com uma breve avaliação dos concorrentes. Infelizmente, somente O Abraço da Serpente ficará sem a avaliação, já que é o único que ainda não foi disponibilizado aqui em Belo Horizonte.

O Lobo do Deserto (Jordânia)

Em uma província otomana no meio do deserto, durante a Primeira Guerra Mundial, um jovem garoto, Theeb, acompanha o seu irmão na jornada de guiar um oficial britânico no meio do deserto. Quando tudo dá errado, o cenário atípico e a luta pela sobrevivência levarão o jovem a deixar para trás a inocência da infância e obrigá-lo a ter a maturidade precoce.

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Com um ar meio que de “O Regresso no deserto”, as principais qualidades do filme estão resididas na atuação do protagonista, Jacir Eid Al-Hwietat, e no trabalho do diretor Naji Abu Nowar. Assim como Alejandro Iñarritu, Nowar aproveita das belas paisagens dos desertos jordânicos para criar uma bela fotografia (com cenários que lembram a geografia do que seria Tatooine), deixando a obra ainda mais bonita. A condução da história tem seus bons e maus momentos, perdendo um pouco da dinâmica em sua segunda metade, mas ainda tendo a competência em transmitir a mensagem principal.

O Filho de Saul (Hungria)

Ambientado em Auschiwitz, em 1944, a obra húngara traz uma realidade desconhecida para a maioria do público: na rotina dos campos de concentração, haviam os prisioneiros responsáveis por limpar as câmeras de gás e levar outros para serem queimados. A história acompanha um desses “limpadores”, Saul, que após identificar o corpo de seu filho entre os mortos, inicia uma cruzada pessoal para encontrar um rabino que concorde em dar um enterro digno a criança.

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Poderosíssima, a sombria obra encontra uma atuação a altura do seu tema no trabalho do protagonista, Géza Röhrig. Apesar de seu ar cisudo, o ator alterna perfeitamente entre momentos de frieza e impassividade com momentos onde fica nítido seu esforço em abraçar seus últimos vestígios de humanidade (e, porque não, sanidade). Além do roteiro (preciso em contar uma história inovadora, assim como perturbadora), o grande destaque do filme fica para a direção de Lásló Nemes. A maior parte do filme é rodada em pequenos e médios planos sequências (algo que certamente valoriza a parte técnica da produção), mas é a maneira como ele filma que chama a atenção. Com raros planos abertos, a câmera passa quase a totalidade do tempo colada no rosto (ou nas costas) de Saul, criando uma atmosfera claustrofóbica dentro do filme. A direção é inteligente por, ainda, criar outro efeito muito bem orquestrado: o close-up contínuo “esconde” os horrores do campo de concentração, deixando os cadáveres e os demais prisioneiros em segundo plano, quase sempre de forma desfocada. Mas ao não mostrar, o diretor faz com que o público imagine o que esteja acontecendo ao redor de Saul. E por sabermos o destino dos prisioneiros, a sensação criada pelos gritos é extremamente inquietante.

Guerra (Dinamarca)

O representante do país Nórdico lembra, de muitas maneiras, os filmes mais recentes de guerra feitos em Hollywood, como Sniper Americano e Zona Verde. A história trata de um grupo de soldados dinamarqueses no Afeganistão, dando ao espectador a chance de acompanhar as dificuldades do dia a dia dos soldados, a relação com os locais e as decisões que devem ser tomadas em cenários difíceis.

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Se destacam na obra a temática e o enredo. Distante de uma visão exageradamente nacionalista que comumente se vê nos filmes americanos, a abordagem da obra proporciona ao seus personagens um tom mais humano. Há competência não apenas ao narrar as dificuldades que existem na linha de frente, mas também em relação ao lado familiar do protagonista, já que é bem trabalhado como é complicado para uma mãe cuidar de três filhos sozinha, e a tensão criada por isso. Apesar do tempo estar dentro do padrão (1h54), o longa transmite uma sensação de arrasto, carenciando um pouco de ritmo.

Cinco Graças (França)

A primeira cena da história de cinco irmãs turcas pode até dar a impressão que Cinco Graças é um filme leve, mas a multiplicidade e a complexidade de temas e  mostra o contrário. Orfãs e morando junto com a avó e o tio conservadores, as jovens perdem a sua liberdade após serem vistas brincando com garotos na praia, resultando em um difícil processo de amadurecimento precoce.

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Além das boas atuações da cinco protagonistas – que tem uma ótima química entre elas, e poderiam facilmente serem irmãs na vida real – o mais legal da obra é a quantidade de coisas que ele aborda. A inocência (e a perda dela) por parte das cinco jovens; as pressões de viver em uma sociedade conservadora, onde a mulher tem muito pouca voz; a realidade dos casamentos arranjados, tradição que ainda persiste na Turquia e em outros países; todas as mudanças que são deflagradas durante a adolescência… Tudo isso contado de uma maneira interessante e dinâmica, o que permite uma empatia ainda mais fácil com as garotas.

O Abraço da Serpente (Colômbia)

O representante sul americano conta a história (em preto e branco, o que já é um diferencial) de Karamakate, um shamã amazonense e último sobrevivente de seu povo, e a relação dele com dois cientistas, que trabalham há 40 anos procurando uma planta milagrosa na floresta Amazônica. Você pode conferir o trailer abaixo:

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