House of Cards: é preciso se reinventar para seguir em frente

Por Luís Gustavo Fonseca

 

Talvez justamente por eu não assistir com frequência, eu fico me perguntando como a maioria das séries (principalmente as com mais de 20 episódios) conseguem ir tão longe. Supernatural, por exemplo. Lembro que a chamada da quinta ou sexta temporada já prometia o maior dos desafios para os irmãos Winchester. E em qual temporada estamos agora? 11ª? Como eles conseguem estender a história por tanto tempo?

Claro, você vai adicionando novos elementos, tentando dar um gás novo a parada. Mas ainda sim, me parece demasiadamente repetitivo. 24 Horas, uma das séries que eu gosto. A ambientação, plano de fundo e personagens mudam a cada dia terrível para Jack Bauer, mas a estrutura e dinâmica do seriado é basicamente a mesma. Se por um lado, temos a máxima “Em time que tá ganhando, não se mexe”, por outro, há uma linha tênue que separa o bom do monótono.

Uma saída interessante que ganhou destaque nos últimos anos são as antologias, em que cada temporada independe da outra, com suas histórias fechadinhas. American Horror Story, True Detective e Fargo são alguns dos exemplos de sucesso de crítica e do público deste formato. Com uma história menor, é mais fácil não cair na mesmice, trazendo sempre algo novo para a série. O preço?  Abrir mão de personagens interessantes, que caem no gosto do público, mas que tem sua exploração limitada.

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Entre estes dois contrastes (se é que pode se chamar assim), House of Cards surge como um meio termo. Já comentei sobre série, de um modo geral, ano passado, às vésperas da terceira temporada . E agora, com o fim da quarta, é impressionante como o seriado parece um vinho: só melhora com o passar do tempo.

Mantenho basicamente tudo que havia falado: ótimas atuações do elenco, com Kevin Spacey dando um show, mas o trabalho de Robin Wright talvez seja o grande merecedor de destaque, com o desenvolvimento da personagem nas duas últimas temporadas; a direção continua satisfatória, seguindo a cartilha de David Fincher, e novamente o nome de Wright merece ser mencionado, já que os episódios dirigidos por ela são um dos melhores desta nova temporada; desta vez, a sensação que tenho é que os personagens secundários, que antes não me chamavam a atenção, estão ainda melhores, mais desenvolvidos e de fácil empatia. O número de subtramas deu uma diminuída, mas isso é outra vantagem, pois direciona melhor o foco da série.

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O desenvolvimento de Claire é um dos maiores méritos da produção

O grande mérito da produção continua sendo o roteiro. É um trabalho muito bem feito, por parte dos roteiristas, de conduzir uma história, de forma em que você torce para que as coisas deem certo para Frank Underwood (um crápula de primeira), mas também espera a hora em que ele irá tombar, e tudo que ele conseguiu, ruir. Essa relação de amor e ódio talvez seja o grande cerne da série. Isso tudo, claro, sem tratar o espectador como idiota. A inteligência do enredo, assim como no amarrar de todas as suas subtramas, é uma das maiores qualidades do seriado.

A cada nova temporada, toda a dinâmica da história é alterada, sobretudo pela mudança no cargo político de Frank. Mas o que fazer quando se chega ao topo? Bem, você altera o relacionamento e a dinâmica do casal protagonista, explorando novas possibilidades e conflitos. O crescimento de Claire nas duas últimas temporadas é fantástico e, apesar de toda a empatia com Frank, ela é minha personagem favorita agora. É esse tipo de reinvenção, de “reciclagem” do que já conhecemos, que deveria ser padrão.

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Outros fatores também colaboram para isso. Os temas de fundo estão sempre mudando, como é o caso do racismo e do terrorismo nesta nova temporada. A introdução de novos personagens também é algo que dá gás a trama, como de LeAnn Harvey (putz, a atriz,Neve Campbell , é uma versão mais velha da Kate Mara. Proposital?) e de Will Conway (em um surpreendente bom trabalho de Joel Kinnaman). Mas há também há destaque para papéis secundários de temporadas anteriores, como é com Thomas Yates (Paul Sparks) e Tom Hammerschmidt (Boris McGiver). Tudo isso muito bem amarrado.

Ainda penso que, apesar da cena final desta, a quinta temporada deveria ser a última, justamente para evitar o desgaste. Eu até consigo ver a história indo para uma sexta, talvez sétimo ano, mas a saída de de Beau Willimon, criador da série, a partir do ano que vem é algo que reforça esse desejo. Pois a queda que queremos ver de Underwood é a política, e não a de qualidade.

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