Zootopia

“Nova animação da Disney nos ensina a necessidade de desconstruir nossos preconceitos”.

 

Por Luís Gustavo Fonseca

A Disney tem um belo histórico com histórias protagonizadas por animais. Além de O Rei Leão (que, convenhamos, é a maior referência no quesito), Bambi, O Cão e A Raposa, A Dama e o Vagabundo, Aristogatas são alguns dos outros exemplos do estúdio. Abordagem que tinha sido um pouco deixada de lado, até a estreia de Zootopia.

O Matheus, aqui do Filmaiada!, tinha dado a definição perfeita para o trailer do filme: “Parece um filme da Pixar, enquanto ‘O Bom Dinossauro’ parece um filme da Disney”. Afirmação que faz sentido, não só pelo resultado mediano de Dinossauro (engraçado que agora ninguém voltou com aquele papinho de “Pixar em crise”, né?), mas por John Lasseter (antes, o comandante do estúdio com a luminária saltitante) ser uma das mentes por trás do novo projeto da Disney, consolidando o bom momento que a empresa do Mickey está.

O plot de Zootopia não chega a ser inovador. Num mundo com animais antropomórficos (palavra chata, né? Nem sei se há a necessidade de explicar, mas é quando você dá características humanas a outros seres ou, por que não, coisas), a coelha Judy  Hopps (dublada, para minha surpresa, muito bem pela Monica Iozzi) tem um sonho ambicioso: ser a primeira a de sua espécie a tornar-se uma policial na cidade de Zootopia, uma cidade que, como sugere o nome, é a utopia para todos os seres, onde “você pode ser o que quiser”. Embora tenha sido a primeira de sua turma no treinamento para a função, ela se torna apenas uma guarda de trânsito, e logo descobre que Zootopia não é um lugar tão perfeito assim. A guinada em sua vida ocorre quando ela tem a chance de resolver um caso de desaparecimento na cidade. Mas, para isso, ela terá que superar seus próprios preconceitos, e contar com a ajuda de Nick (com uma voz muito mansa de Rodrigo Lombardi, que poderia ter tido um tom mais malandro), uma esperta raposa que ganha a vida aplicando pequenos golpes.

ZOOTOPIA
Esse tipo de detalhe, na construção do universo, é o que faz a diferença

O roteiro da animação, escrito pro Jared Bush e Phil Johnston, até esbarra em alguns velhos clichês, mas isso não é necessariamente ruim. Entre os planos de fundo, há a velha história da dupla, meio no estilo good cop/bad cop, que começa com o pé esquerdo, mas vai melhorando, ou ainda, a de que se você se esforçar bastante, irá alcançar qualquer coisa na vida. Contudo, é a condução e a ambientação da história que é o diferencial.

Visualmente, Zootopia é bem interessante, apesar de seu 3D dispensável. A variedade de bichos (e as peculiaridades que cada um deles exerce na formação de Zootopia), aliado à boa fotografia, tornam aquele mundo interessante de ver e ser descoberto. É muito bacana ver o cuidado que a equipe de produção teve ao pensar na elaboração da cidade, dividida em diferentes quadrantes (o da selva; o do deserto; o da tundra), o que possibilita a convivência dos diferentes seres no mesmo lugar.

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Mas o grande trunfo da produção está em sua principal lição. Tudo bem, a maioria absoluta dos protagonistas são feitos com algum defeito, para não serem perfeitos demais e, assim, podermos nos relacionar com eles. O defeito de Judy, contudo, é um dos mais fáceis a ser encontrado no nosso mundo: o preconceito com os outros, com quem não conhecemos.

Esse preconceito está presente não apenas nela, mas em boa parte dos cidadãos de Zootopia. A justificativa é que os animais, divididos entre os predadores e as presas, superaram seus lados mais primitivos e conseguiram desenvolver um moral ética forte o suficiente para deixar para trás seus instintos. Mas isso não diminui as tensões sociais do dia a dia de um lugar que abriga, ao mesmo tempo, seres tão diferentes, criando um tipo de segregação velada na “cidade perfeita”. No caso de Judy, por orientação dos pais, ela leva para a cidade um spray anti-raposa, um inimigo natural dos coelhos. A medida que a relação dela com Nick se desenvolve, a protagonista vai desconstruindo (e, consequentemente, admitindo) seu preconceito pela raposa. Esse é o tipo de mensagem que, não importa se você é uma criança ou um adulto (que ainda tem isso), vale muito a pena ser frisado e repetido.

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Essa cena já nasceu um clássico

Pelo menos os animais são trocentas espécies diferentes que habitam um mesmo lugar. E nós, que somos só uma, e não aprendemos a conviver com as diferenças ainda?

Mesmo sem querer, Zootopia nos traz essa lição em um momento importante. Como se não bastasse termos um candidato a presidência dos EUA que acha que vai conseguir resolver os problemas de uma nação construindo um muro e impedindo a entrada de adeptos de uma religião específica, as tensões políticas que se agravaram no Brasil no último mês é um sinal que é preciso repensar, que é preciso saber respeitar a opinião do outro e (re)construir o diálogo. Uma coisa é achar que candidato Y é melhor que o X. Outra é começar a agredir as pessoas só porque elas estão vestindo camisa de determinada cor. Hora de por os ensinamentos de Zootopia em prática.

Nota: 8/ 10.

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